Estava eu, próxima a janela,
pés nús, mãos entrelaçadas;
ao fim dos dedos uma chama
que entorpecia a alma
e anestesiava meus pulmões.
Ácida.
Náusica.
Estou fora do lugar.
Aqui do sétimo andar
as coisas passam devagar.
De olhos fechados
o tempo costuma nos confundir,
ás vezes, com o vento,
parece mais rápido,
quando mudo, vai lento,
ensurdecendo aos poucos a escuridão.
Hoje, eu ficaria nua,
mas acenderam as luzes da rua
e na solidão dos altos
as pessoas gostam de se procurar,
como se houvessem se perdido
ou perdido algo jamais visto,
e minha nudez, um segredo,
em pensamento, ou inconveniência,
física, abstrata, não importa,
à distância do silêncio.
As portas são furtivas ao pensamento.
Não há chave, tranca ou cadeado.
Fechamo-nos na segurança do íntimo.
...penso irradiando a cena.
Muitas me doem, algumas me excitam.
Meus olhos são duas janelas vivas.
Nelas a chuva vem de dentro,
e os outros apenas notam
quando já afoguei minha menina.
Me sinto como um vidro embaçado,
pós-neblina, chuva fina,
dessas que embaçam a retina.
Retina eu.
Estou embaçada, fria, úmida.
Como um fungo.
Estou presa...
Quem sabe uma cortina,
com o vento que chove a me molhar.
Os dias cinza me trazem vida
como se eu fosse um cômodo,
dispersa em qualquer lugar.
Sou uma lamparina,
uma luz de cima,
dispersa e fraca,
confundida com um lume
de distância sem lugar.
Ah se eu fosse viva,
se estivesse nua,
indistinta da noite ou dia,
eu seria uma janela vazia,
uma porta que não abriria,
com chuvas de épocas par.
e meu corpo, cômodo,
uma mobília rígida,
e, em mim, ir-me-ia morar.
domingo, 25 de novembro de 2007
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
- 4:04
Acordo agora no meio desta madrugada muda;
De olhos cansados dos delírios de um pesadelo.
Os lábios frios, e a respiração úmida.
Um medo imóvel...
E os móveis dilatados que parecem se movimentar.
A janela está vestida com seu véu noturno.
De manhã uma simples cortina.
E agora este breu enegrecido que parece querer me matar.
Atrás da minha cama há uma porta fechada.
E minha visão incandescente do teto, agora apagada,
Já não me deixa enxergar.
Se fecho os olhos ainda vejo meu medo
Esperando que eu durma para continuar a me contar...
E o que quer que eu pense em fazer guarda um segredo
E temo que me levem, ou que batam a minha porta:
- Por favor, convide-me a entrar.
Não quero saber ao que vieram.
Na verdade, eu gostaria, mas agora...
Se minha voz houvesse eu pediria para que fossem embora.
Mas o silêncio não deixa,
E, quando junto com o pensamento,
Torna-se uma armadilha às coisas que se revelam.
Ouço quieto a conversa das horas
E a dança surda dos ventos,
Que, ao soar à fresta da janela, parece cantar.
Uma música triste, inanimada,
Que me congelam os ossos...
Mas confesso, é ela quem me faz divagar.
Talvez não haja canção alguma,
E é o meu delírio que canta aos meus ouvidos,
Dando razão a este medo sem face que não sei onde está.
Para as noites não há cura,
Não há exatidão quanto tempo dura
As horas mudas que fazem o silêncio falar.
O silêncio... uma manta de pensamentos
Travestida de loucura e razão pura,
Num eterno conflito a nos fazer imaginar.
De olhos cansados dos delírios de um pesadelo.
Os lábios frios, e a respiração úmida.
Um medo imóvel...
E os móveis dilatados que parecem se movimentar.
A janela está vestida com seu véu noturno.
De manhã uma simples cortina.
E agora este breu enegrecido que parece querer me matar.
Atrás da minha cama há uma porta fechada.
E minha visão incandescente do teto, agora apagada,
Já não me deixa enxergar.
Se fecho os olhos ainda vejo meu medo
Esperando que eu durma para continuar a me contar...
E o que quer que eu pense em fazer guarda um segredo
E temo que me levem, ou que batam a minha porta:
- Por favor, convide-me a entrar.
Não quero saber ao que vieram.
Na verdade, eu gostaria, mas agora...
Se minha voz houvesse eu pediria para que fossem embora.
Mas o silêncio não deixa,
E, quando junto com o pensamento,
Torna-se uma armadilha às coisas que se revelam.
Ouço quieto a conversa das horas
E a dança surda dos ventos,
Que, ao soar à fresta da janela, parece cantar.
Uma música triste, inanimada,
Que me congelam os ossos...
Mas confesso, é ela quem me faz divagar.
Talvez não haja canção alguma,
E é o meu delírio que canta aos meus ouvidos,
Dando razão a este medo sem face que não sei onde está.
Para as noites não há cura,
Não há exatidão quanto tempo dura
As horas mudas que fazem o silêncio falar.
O silêncio... uma manta de pensamentos
Travestida de loucura e razão pura,
Num eterno conflito a nos fazer imaginar.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
- desperto
Te acordei contando meu desespero
Sobre não consigo dormir.
E, toda vez quando me vejo no espelho,
Sinto-me desbotando a ponto de sumir.
Você me acalma sempre que me aborreço,
Mas sei bem que às vezes não gostaria de estar ali.
Fecho os olhos e desapareço.
Assisto aos filmes de retina que não me deixam dormir.
Eu velo teu sono em segredo
Sentado perto da janela, lhe contando tudo que vi.
E no outro dia eu continuo o mesmo,
Mesmo você sabendo que não consegui dormir.
Ainda rio dos seus pesadelos
- Como deve ser sonhar com coisa ruim?
Estou cansado e sinto um aperto
Por não conseguir dormir.
Dividimos o mesmo travesseiro,
Então você me diz que não envelheci.
E diz que tudo isso é passageiro
Que já até sonhou que eu conseguia dormir.
Eu fecho os olhos mas eu sinto medo
É mais forte do que eu, parece me possuir.
E tudo acaba quando eu amanheço,
O sol me sangra as lágrimas ao sair.
Me sinto bem quando ainda é cedo,
O único momento que pareço reagir.
Mas à noite, quando com você me deito,
O perfume forte de sangue e flores não me deixam dormir.
Sobre não consigo dormir.
E, toda vez quando me vejo no espelho,
Sinto-me desbotando a ponto de sumir.
Você me acalma sempre que me aborreço,
Mas sei bem que às vezes não gostaria de estar ali.
Fecho os olhos e desapareço.
Assisto aos filmes de retina que não me deixam dormir.
Eu velo teu sono em segredo
Sentado perto da janela, lhe contando tudo que vi.
E no outro dia eu continuo o mesmo,
Mesmo você sabendo que não consegui dormir.
Ainda rio dos seus pesadelos
- Como deve ser sonhar com coisa ruim?
Estou cansado e sinto um aperto
Por não conseguir dormir.
Dividimos o mesmo travesseiro,
Então você me diz que não envelheci.
E diz que tudo isso é passageiro
Que já até sonhou que eu conseguia dormir.
Eu fecho os olhos mas eu sinto medo
É mais forte do que eu, parece me possuir.
E tudo acaba quando eu amanheço,
O sol me sangra as lágrimas ao sair.
Me sinto bem quando ainda é cedo,
O único momento que pareço reagir.
Mas à noite, quando com você me deito,
O perfume forte de sangue e flores não me deixam dormir.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
- abismo eu
Para que este segundo?
minuto? hora?
Para que este inferno de espaço?
- Tenho vontade de ir embora...
Me sinto vivo pelo pulso,
vermelho e coagulado.
E meu espírito avulso,
ao avesso, crucificado.
Do que é feito o instante?
De que me adianta o além?
Não temo o inferno, o cão errante
e nem cristo, três coadjuvantes.
Vão me condenar.
Serei maldito.
Vão ajoelhar.
Perdão por ter me lido.
Eu vago para que?
Sobrevivo e me alimento onde?
E insisto em quem, por quê?
... o mais minúsculo verme tende a fonte.
Estou embriagado de torpor.
Alucinado pela carne.
O sagrado não me faz calor.
Nem o maldito me arde.
Tudo ao mesmo tempo,
a lugar algum.
Me nutrindo a todo instante
deste eterno jejum
É como um fogo queimando a cruz,
a contradição da minha alma.
É como a condição de fazer jus
morrendo à procura da calma.
minuto? hora?
Para que este inferno de espaço?
- Tenho vontade de ir embora...
Me sinto vivo pelo pulso,
vermelho e coagulado.
E meu espírito avulso,
ao avesso, crucificado.
Do que é feito o instante?
De que me adianta o além?
Não temo o inferno, o cão errante
e nem cristo, três coadjuvantes.
Vão me condenar.
Serei maldito.
Vão ajoelhar.
Perdão por ter me lido.
Eu vago para que?
Sobrevivo e me alimento onde?
E insisto em quem, por quê?
... o mais minúsculo verme tende a fonte.
Estou embriagado de torpor.
Alucinado pela carne.
O sagrado não me faz calor.
Nem o maldito me arde.
Tudo ao mesmo tempo,
a lugar algum.
Me nutrindo a todo instante
deste eterno jejum
É como um fogo queimando a cruz,
a contradição da minha alma.
É como a condição de fazer jus
morrendo à procura da calma.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
- carmen
Isso tudo é sobre como perdi minha namorada. Como terminei na estrada à procura da minha redenção.
Abri a janela do carro. Aumentei o volume do rádio: Joy Division, minha inspiração.
Essa noite me saiu cara. Estava bêbado. Ia começar a madrugada, quando flagrei Carmen com um cara no porão.
Separei ela do safado. Lhe dei uma lição. Dois tiros nos bagos. "Se contorça pelo chão!".
Olhei para Carmen. Ela tremia e gemia como nunca e - cara - não era de tesão.
Os deixei lá. Voltei ao carro. Rádio ligado. Love Will Tear Us Apart, bem alta, pra calar os gritos do mal logrado e de Carmen que implorava ajuda, atormentada de aflição.
Já longe, no caminho, lembrei de Lourdes. Amiga de Carmen. Saberia ela alguma coisa?
Fui até a casa dela. "Acorda sua cadela!" Sexo. Vingança. E indignação.
"Amanhã ela conta pra Carmen!". Me dedura, em nome da amizade pura, sem segredos, na hora da confissão. "Carmen agora tá na merda!" E eu rindo de desgosto. Quanto mais me fodo, maior minha contradição.
Melhor não voltar pra casa. Dar uma volta pela estrada. Twenty Four Hours extravasa. Tanto faz. Fora de mim. Devaneio. Longe da razão. E me bate um vazio. Sinto-me febril. E, quando penso em Carmen, tenho vontade de arrancar seu coração. She Lost Control ao meu silêncio. Se houver arrependimento que ela leve junto consigo dentro do caixão.
Me distraio com a estrada vazia. Ardendo em azia e vontade de vomitar, tamanha é a consternação.
Estaciono em um beco. Descanso meu arrependimento. Durmo um pouco agora. E depois me livro dessa arma, jogando-a num rio, ferro-velho ou num lixão.
No meu sono tenho um sonho. Onde vejo Carmen. Vejo Carmen e meu irmão. Me jogam terra. Dead Souls, eles cantam. Dead Souls. E repetem o refrão. E não usam pás. Não se importam. Eles me plantam ao chão usando as mãos.
Acordo assustado. "Puta sonho desgraçado!" Estou ficando alucinado com essa história de traição.
É então que percebo a arma no meu colo. Já estou atrasado pra me livrar da prova do meu crime. Guardo-a no bolso do meu blazer. Preciso acabar com essa situação.
Três horas da manhã. The Only Mistake estava rolando quando bati naquela van.
E nem percebi nada. Apareceu tão de repente na minha direção. Voei pelo vidro da frente. Esfolei no asfalto quente. Verti sangue até pela imaginação.
Pensei em Carmen. No meu irmão. Naquele filho-da-puta que arranquei os bagos. E em tudo que eu fizera naquela noite até então.
Vi alguém sair da van. Correndo à minha direção.
Era Carmen...
Voltava do hospital onde deixara o bastardo que causei humilhação.
Se aproximou de mim. Não falou comigo. Revistou meus bolsos. Levou consigo minha carteira e o revolver. Antes de se levantar ainda ajeitou meu blazer. - Que consideração.
Ela foi até meu carro e aumentou o volume do rádio. Atmosphere. Minha última canção.
Escutei a van indo embora. "É, Carmen... Sou eu quem estou na merda agora, você não.".
Um outro carro chegou algum minuto depois. Eu já estava quase morto. Mas assisti ao desespero da pessoa que fazia a ligação. "Uma ambulância, pelo amor de Deus!"... Era a voz do meu irmão.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
- maligno
Hoje de manhã, nessa cama de hospital, eu aguardo os que ainda vêm: Um padre, minha mãe e meu jornal. Sofrimento corrosivo. Saciação de sede pela agulha. E a janela dos dias... Me distrai sempre que me sinto mal.
Até para morrer tem que ser difícil.
- Já encomendamos o ataúde. Confortável. Cabe muitas flores de lírios e narcisos. E, ah! é do tamanho ideal!
- Por favor, tragam a morfina. Imaculem este sofrimento desleal! E por favor, fechem a cortina... Não sorrio para dias benignos. Meu câncer maligno. Meu estado terminal.
Já não tenho mais família. Filho e filha foram-se embora com a separação matrimonial.
E ontem minha ex-esposa esteve aqui. Romântica...:
- Assine logo os documentos de divórcio. E também as papeladas do seu Testamento Final.
Antes eu era viril. Um dos melhores atletas corredores da escola. Até ganhei bolsa na melhor faculdade estadual.
Hoje evacuo por uma sonda. Me alimento de um soro insípido. Pele e osso. Amarelado. Olhos fundos. Desfigurado. E daqui só saio carregado para uma necropsia no Instituto Médico Legal.
Que não me vistam em meu terno novo. Que seja aquele que sempre usei para ocasião especial.
Bonito. Frio. E fragoso. Com os lírios e narcisos. No meu leito-funeral.
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