segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

- o livro das musas [estou bem agora]

[prólogo]

Anteriormente, quando ainda estávamos juntos, dividindo nossa intimidade – até vinte e quatro horas em determinados dias – eu não conseguia ver para além de mim mesmo, eu não enxergava você. O egoísmo me consumia. A frieza do meu caráter era esboçada pelo meu semblante de poucos amigos, minha fala lacônica e meu sentimento embotado de desinteresse e de preguiça frente às situações que você considerava bonita e interessante, mas eu não.
Foram longos meses de tentativas sua que acabaram por frustrá-la ainda mais. A minha posição de vítima e de único ser humano a compreender as questões e as dores do mundo, não deixavam-me enxergar a beleza de tudo aquilo que você tentava me fazer entender. Foram vários os dias que você desistiu de dormir para me educar com seus monólogos sobre a sanidade e a importância de viver e não existir somente. “Ame a si próprio”, você dizia, “só assim você conseguirá sentir gratidão em relação às outras pessoas”. Mas eu me tornava cada vez mais solitário, frio e condescendente.
Não me importava mais em machucar os outros só para inflar meu ego, me afirmar como ser humano. As minhas respostas eram geralmente grosseiras e terminavam por projetar meu ego inflado, agressivo e resistente. Eu jamais pedia desculpas. As pessoas me achavam temperamental e hostil, mas eu insistia em pensar que elas é quem eram ignorantes demais para compreender a raiz dos meus pensamentos. Eu sempre tive preguiça de me explicar, de perder meu tempo em fomentar detalhes sórdidos e recorrentes, só porque as demais pessoas não entendiam as coisas que eu dizia de forma natural.
Eu sempre estava criticando algo ou alguém pelo simples prazer da crítica – uma grande masturbação egocêntrica – e a envergonhava perante as pessoas que você admirava pelo simples fato de eu me julgar superior com as minhas afirmações e hipóteses pomposas e carregadas de preconceitos e de hipocrisia.
Não entendia como você podia me suportar.
Em algumas situações, você me pedia, “pelo amor de Deus” para, “pelo menos uma vez”, ser empático, e eu sempre respondia inflamando meus pulmões de motivos baratos e envoltos pela frustração de ser eu mesmo: “Não estou a fim de vestir uma máscara e comprazer com esse mal-estar social, fingindo que está tudo bem no reino da desgraça”. Você então ficava louca, temendo que eu ferrasse com tudo, desrespeitando as pessoas que estariam com você. E, geralmente, eu a decepcionava, com o louvor da missão cumprida de um miserável.
Lembro-me até hoje do dia em que causei embaraços dos mais constrangedores em sua casa, quando seu pai, depois de instalar seu novo pacote de tevê por assinatura, me perguntou o que eu tinha achado da cobertura de setenta e cinco canais. Respondi dizendo para ele tomar cuidado, pois “a tevê não trará a solução para todos os nossos problemas, seja em alguma novela, em algum programa de culinária ou mesmo nos jornais sensacionalistas que valorizam tanto a tragédia alheia e repetem-na, mais de mil vezes, com a intenção de aumentar o ibope”. Mesmo percebendo que ele me fitava encabulado, coçando a nuca e o bigode, e, às vezes, desviando o olhar para os lados na busca da vergonha que se esvaia pelos cômodos, complementei afirmando: “olha, não estou a fim de compartilhar meu tempo com essas idiossincrasias baratas e nonsenses da tevê, seja com um ou com setenta e cinco canais, pois não dará em nada nunca”. Seu pai então desligou a tevê e se retirou, chamando pelo seu nome com uma voz quase ausente. Segundos depois, você apareceu com suas passadas de  gigante irada, e me perguntou que raios eu tinha feito desta vez. Dei de ombros julgando não precisar explicar a minha razão e, você, com sua paciência monástica, discursou a respeito da empatia e da humildade e, ao final, com argumentos válidos, sentenciou: “Você não está na sua casa. E, pior, você acaba de humilhar o dono da casa. Quem você está pensando que é? Aonde você quer chegar agindo desse jeito? Custava você zapear os canais e tecer algumas palavras gentis? Algumas vezes é necessário cedermos pela paz de uma situação cotidiana. Por exemplo, como eu sempre faço em relação a você. Cedo pela paz dos nosso relacionamento. Você não pode fazer isso nem mesmo por uma tevê? Como você pode ser tão alienado em si mesmo?”. Emputecido, novamente não quis ouvi-la e, no auge de minha ignorância, reagi com argumentos insólitos e vazios, estancando todas as nossas chances de amor. “Olha, eu não estou a fim de participar ou defender seus ideais pacifistas, não pretendo me filiar a ongs, não quero adotar alguém e muito menos fazer revolução. Estou comodamente alienado e prefiro assim: nada na cabeça e dinheiro no bolso. Se quiser, vista você o seu cabresto social, afinal, a vida é um reality show de setenta e cinco canais, não é mesmo minha querida?”.
Pela primeira vez, você alterou o tom de sua voz, e, com lágrimas nos olhos, me levou até a porta da sua casa. “Vá embora, por favor”. Escutei seus gemidos inconsoláveis intercalados pela ausência de fôlego e dos soluços. “Como você pode odiar a vida? Como você pode não gostar de ser feliz, de se sentir bem, nem ao menos por um dia?”.
Embora eu tivesse a chance de permanecer calado, ir embora e refletir sobre o que você havia dito – pois hoje considero palavras carregadas de sabedoria – eu ferrei com tudo defendendo minha ideologia do ego, vazia e sem fundamentos. “Pessoas como você acham que podem simplesmente passar um corretivo ou mesmo oferecer um paliativo para todos e pronto: fica tudo muito bem! Olha, se você acha que sua vida seria bem melhor em um mundo colorido pela comunidade da alegria, me desculpe, mas não adiantaria. A humanidade teria de ser exterminada e a evolução natural teria que dar conta do recado para que outra espécie evoluísse para algo melhor, menos ansiolítico e impulsivo. Chega a ser gritante a corja de alienados que orbitam seus próprios umbigos e que, de tempos em tempos, vomitam nos nossos ouvidos metade de tudo que ingeriram com as demais pessoas. Ah!, também tem aqueles filhos da puta que culpam a natureza e seus fenômenos pelo fato de sermos rendidos em desastres. E agora que a coisa está completamente irreversível, querem que nós nos responsabilizemos - cada um de nós! - a trazermos à tona uma vida mais verde e ‘inalável’. Eu simplesmente não estou afim! Não vou salvar um panda. Não vou reciclar. Não vou racionar. Não vou tomar banhos curtos, - não importa a estação do ano - pois não estou a fim de mudar o planeta. Desculpe, mas eu já me cansei dessa violência simbólica e material. Eu não quero mudar de sexo. Não quero lutar no exército. Não quero ser pop, não quero ganhar na loteria para ser o milionário da vez e, eu, definitivamente, não vou mudar a merda do mundo só porque estou passando uma corrente maldita ou porque eu apaguei a luz do abajur do meu quarto por uma hora. Estamos pra lá de longe de nos sentirmos bem. Estamos tão doentes e tão desgraçados que já não vale mais a pena medicar. Isso apenas prolongará o sofrimento. O meu sofrimento. Você diz que eu odeio a vida, mas, pense bem, pense bem! A morte pode fazer muito mais sentido para uma espécie tão escrota como a nossa. Tão escrota que sublima tudo que pode para viver com menos desprazeres e depender mais de seus desejos egoístas!”.
- O único egoísta aqui é você com seu discurso de vida limitada e frustrada! - Você me interrompeu com um grito histérico, e então me estapeou na face na tentativa de reprimir meu desconsolo humano perante a tudo que se revelasse com disposição para vida. Você ainda negaceou com a cabeça, de olhos fechado, e confessou, enfim: “apenas queria que você ficasse bem!”.
A porta se fechou.
Eu me retirei da frente de sua casa com meu rosto inflamado e avermelhado. Andei pelas ruas tentando esconder a expressão de dor e constrangimento. Li as placas na esquina. Procurei uma direção. Eu estava a muitos quilômetros de minha casa. As pessoas me mediam, ora com repugnância, ora com deboche, meu rosto vermelho como uma maquiagem de palhaço. O formigamento e o ardor me recordavam nitidamente do tamanho de suas mãos, agora bem delineadas pelo vermelho coagulante. Mesmo depois de andar por cerca de uma hora até chegar ao terminal e embarcar no primeiro ônibus que vi, ainda sim podia sentir nitidamente o ódio expressado pela marca dos seus dedos. Eram oito horas quando o ônibus partiu. Eu levava como bagagem os seus sentimentos por mim, gravados em minha face; e meu coração apertado, de vergonha e dor.
Me sentei só no último banco tendo como vista os campos enegrecidos e sutilmente contornados pelo lume da lua. Na solidão da noite, sem conseguir dormir, me lembrei de suas palavras. De todas as suas palavras. O meu peito apertou e, na agonia, lágrimas saltaram lentamente escorrendo pelo meu rosto. Foi uma noite difícil e acabei adormecendo de cansaço, dor e arrependimento.
Quando acordei, seis horas depois, permaneci deitado, olhando para as lâmpadas do teto. Não me lembro quantos dias vieram depois, meus pais não me falaram. Me mantive ali, imóvel, observando as mesmas lâmpadas e as mesmas janelas por dias e dias. Meus pais disseram que você ligou e perguntou como eu estava. Eles também disseram que você garantiu que seu pai não está mais com raiva de mim e que agora tem cem canais na tevê por assinatura. Mas eles não disseram muito, pois logo eu apaguei devido a uma nova crise e precisaram chamar a enfermeira...
A visita para mim foi suspensa mais uma vez.
Eu sei que oito meses se passaram desde o dia que eu voltei de sua casa. Mas meus pais disseram que eu ainda não superei... que eu ainda não superei.
Eu tentei me matar.
Meus pais disseram que te contaram em um dos telefonemas.
Sei que você se culpa, mas não foi por sua causa. Eu era fraco. Um grande egoísta e ingrato.
Compreendo agora tudo o que você queria dizer a respeito da vida, sobre ‘viver e não existir’... são respostas para o que eu procurava e não percebia.
Mas agora, aqui, onde estou internado para reabilitar-me dos meus monstros particulares, aprendi muito. Consigo compreender e valorizo isso. Aprendi dizer ‘eu te amo pai e eu te amo mãe’. Agradeço a tudo. Sou mais aberto aos estranhos que me abordam e puxam assunto. Não julgo mais o que eu não conheço pelo simples fato de defender uma ideologia qualquer. Dedico um tempo para a contemplação de mim mesmo, me livro de toda alienação: divago sobre ser e existir, sobre mim, e descubro que eu posso cada dia mais, que eu sou infinito, que não existe razão alguma para doer e que apenas justificamos a nossa vida quando compartilhamos, quando somos com o outro... como você sempre tentou compartilhar comigo. Por isso, eu apenas queria que você soubesse que eu estou bem agora. E que nada nesse mundo será capaz de me alienar.
Nada.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

- guerra & paz

Me lembro até hoje do dia em que conheci o significado da verdadeira paz nas florestas íngremes ao leste do Himalaia, depois de nosso avião cargueiro não resistir ao ataque dos mísseis letais do exército chinês em parceria com as milícias hindus do noroeste do Paquistão. A revolta que motivou a união desses povos da Ásia, tão culturalmente distintos, ocorreu devido a um episódio inusitado em que uma família de chineses foi deportada no compartimento de lixo de um navio de detritos e acabaram morrendo por uma intoxicação ‘desconhecida’. Esse fato tentou ser abafado pela política de nosso governo para que não chegasse aos ouvidos dos Direitos Humanos. Mas foi em vão. O governo chinês apurou a situação e constatou que essa família foi colocada dentro de um contêiner para morrer, pois não havia mantimentos, estrutura sanitária e higiênica e a ventilação era precária. A morte, portanto, deve ter sido sofrida e agonizante para todos que não dispunham nem mesmo de recursos mínimos para a sobrevivência. “Isso não se faz nem com um animal” terminou o governo chinês em sua declaração global. A merda fedeu ainda mais para o nosso país quando a imagem das crianças encontradas no navio de detritos foi divulgada em estado de putrefação em todos os meios de comunicação do continente asiático, causando revolta e ojeriza a todos de alguma forma.
Ao invés de buscar uma saída pacífica, o nosso presidente terminou de cagar e sentar em cima com seu pronunciamento patriota em horário nobre. Na declaração oficial, ouvimos e vimos aquele asno de gravata salientar em meio a gestos de maestro, com todas as letras, que “[...] a população do leste asiático deveria evoluir como seres humanos plenos, desenvolver valores morais e éticos e aprender um idioma e uma língua de verdade, ao invés de se comunicarem por meio de garatujas e desenhos primitivos e grotescos, para depois opinar sobre como nosso país deveria ou não conduzir nossas políticas internas”. E completou dizendo que [...] “sabemos muito bem o que devemos ou não fazer. Se qualquer manifestação for interpretada como desacato, negligência ou grosseira por parte dos asiáticos, seremos obrigados a tomar ações drásticas”. O pior de tudo isso foi que a nossa população aplaudiu de pé. Concomitante ao pronunciamento do nosso excelentíssimo quadrúpede de ferraduras, a população demonstrou seu apoio solidário, logo na primeira semana após o pronunciamento oficial, assassinando alguns chineses nas vilas e nos bairros da capital, gerando conflitos civis em nome do amor ao patriotismo eqüino. Os meios de comunicação passaram a divulgar todo e qualquer ato de hostilidade por parte dos asiáticos, principalmente as queimas de bandeira do nosso país em todas as praças da Ásia – uma maneira saudável e barata de incutir o ódio e favorecer a guerra. Nessas matérias midiáticas, assistíamos também às declarações e às ameaças de militantes que, a todo o momento, diziam que nós teríamos o troco por termos assassinado diversos representantes do ‘futuro do continente oriental’. E, honestamente, nenhum de nós podia garantir que aqueles chineses estavam realmente falando aquilo, até porque nosso governo já tinha declarado o que achava das garatujas e desenhos primitivos deles. Seria natural traduzir os pronunciamentos da maneira que nos fosse mais convenientes. Além do mais, nosso governo estava se lixando para essas milícias e dava de ombros para as balelas que denominavam nas manchetes de ‘discurso do povo amarelo’.
Dias depois, no porto, ao abrirem os contêineres de cargueiros vindos da Ásia, a polícia federal foi notificada de que havia dez pessoas mortas, enroladas uma a uma na bandeira de nosso país embebida em sangue. Como se não bastasse, todos os defuntos estavam com um mastro enfiado no cu – não podemos negar que esses chineses tinham um puta senso de humor até para morte em vingança.
O nosso governo ficou louco. Os portos foram fechados. As relações política e comercial foram rompidas. E o pessoal da nossa embaixada na China foi dado como morto, pois não fizemos nada para tirá-los de lá e nunca mais tivemos notícias deles. Instantaneamente, o espírito de guerra foi emitido em megahertz, em tintas negras e em Morse para toda população do país. E o que poderia ser remediado com pedidos diplomáticos de desculpas e com a conscientização inspirada na declaração universal dos Direitos Humanos virou na verdade um circo bélico. “O povo do ocidente está tentando incutir uma visão de mundo baseada no ódio aqui na nossa terra sagrada” anunciavam os chineses. “Vamos acabar com a visão feudal desses amarelos” diziam nossos meios de comunicação. A verdade é que ninguém estava certo. Mas, mesmo assim, o nosso governo nos enviou para a batalha.
...e foi aí que começou a minha história.
Por ser jovem e já ter sido preso diversas vezes pela falsificação de documentos [como passaportes, registros gerais e benefícios de pensão], minha aprovação foi praticamente instantânea, pois, além de ser uma maneira de esvaziar as prisões eliminando aqueles que representavam o caos para a sociedade, eu também era uma cifra no prejuízo econômico do governo, pois à minha cabeça também estavam atrelados os custos da cadeia para o estado. “Já que gastamos demais o mantendo fora da sociedade, ao menos morra fazendo algo que preste: ajude a exterminar os chinas ou sirva de escudo de proteção para os que realmente sabem atirar na guerra”, me disseram ao comunicar meu alistamento involuntário. E lá fui eu. Confesso a vocês que eu estava pouco me lixando para o que ia acontecer comigo. De verdade. Desde pequeno aprendi a cultivar minha independência e a indiferença social. Eu nunca tive família. Fui criado em reformatórios e em colégios internos. E, como nesses lugares eu permanecia a maior parte do tempo sozinho, sem poder sair para lugar algum, o desenvolvimento do meu caráter se deu em meio aos espasmos de solidão, assim, aprendi a desenhar e a pintar – o que me proporcionou bolsas de estudos a uma boa educação e, também, boas oportunidades de empregos. Mas eu não me empenhei em mantê-las, em nenhuma das ocasiões. Analisando hoje, com um pouco mais de ímpeto e profundidade, percebo que o fato de eu não ter ninguém para com quem eu pudesse mostrar e me orgulhar das minhas conquistas influenciou muito à decadência de minha vida e, infelizmente, fiz dessa ausência familiar uma muleta para apoiar a minha vida preguiçosa e escusa.
Naquela época, já dentro do reformatório eu ajudava diversos jovens a conquistar a liberdade muito mais cedo, forjando seus históricos legais e documentos de registro ou adoção. Muitos não tinham nem pelos pubianos e eram declarados maiores de idade com a aprovação da vara dos menores. Por isso, quando enfim deixei a clausura desses lares, aos vinte anos [pois forjei os meus próprios documentos para me manter um pouco mais], meus irmãos de lar me procuraram para mais serviços; e foi assim que desviei meu senso artístico para o ‘detalhismo’ da confecção de documentos falsos, pois era fácil e rápido – e proporcionava muito dinheiro por poucas horas de trabalho. Sempre que eu era capturado e levado para a cadeia as provas eram insuficientes para me manter na clausura e eu voltava para minha casa com ainda mais clientes que me enviavam cartas e mais cartas de suas celas pedindo a confecção de inúmeros documentos falsos custeados pelos seus advogados. Advogados que, aliás, deveriam ser os primeiros na convocação para a guerra como escudos humanos, pois eram bandidos travestidos de terno e com o dicionário da lei debaixo do braço. Mas, como isso não aconteceu, eu ainda tive que expedir diversos documentos de laudos médicos que excluíam a participação da luta na guerra para os comandantes da máfia e para os ricos arruaceiros do cárcere. A maioria dos laudos acusava doenças sexuais em estado terminal ou degenerativas, bastando que mafiosos e almofadinhas encenassem dores segundo as mazelas descritas nos laudos. Em torno de mil documentos foram legitimamente assinados pelos representantes do estado, comprovando que nosso país estava realmente se lixando para a saúde de nós todos, pois nitidamente aqueles marmanjos estavam mais saudáveis que os filhos e as mães dos funcionários da prisão. De qualquer forma, essa falcatrua me rendeu uma economia inimaginável para o caso de eu sobreviver à guerra, pois poderia recomeçar sem preocupação financeira alguma.
Agora era só esperar.
Naquela noite, fiz minhas malas com apenas três mudas de roupa – tudo que me era permitido ter na cadeia. Não consegui dormir pensando em como seria a guerra assistida diante dos meus olhos, mas, concluí que era besteira pensar nisso, pois eu não poderia nem mesmo imaginar o que se passaria naqueles campos de batalha.
Eram cinco da manhã quando a sirene soou. Os guardas nos enfileiraram para a contagem final. Fizeram uma oração, tocaram o hino nacional e, por fim, o diretor da penitenciária nos desejou sorte – como se fôssemos heróis da nação.
Foi a última vez que estive na cadeia em toda minha vida.
No caminho para o ônibus, o exército nos saudou com tiros para o alto, como se fôssemos soldados heroicamente condecorados. Mas a verdade é que esses soldados sabiam que, se fôssemos tratados bem, eles poderiam nos enfiar em qualquer buraco quando a necessidade surgisse – e foi exatamente o que eles fizeram nos campos de batalha, quando precisavam escolher quem morreria primeiro: sempre era um de nós.
Na estrada, a caminho do porto, escutamos as bandas marciais e os clássicos do Glenn Miller, enquanto apreciávamos a paisagem do poente azul cobreado. Desembarcamos no porto central do nosso país e fomos hospedados nos estaleiros com soldados, pilotos e marinheiros que nos relataram um pouco sobre a atual situação da Ásia e também sobre qual era a real proposta da guerra. Depois de muito beberem, os nossos representantes da nação, que estavam embarcados há mais tempo, nos revelaram um pouco sobre o que consideravam de suma importância para sobrevivência na China, como: onde conseguir ópio; os melhores prostíbulos; quais restaurantes chineses era possível apreciar a melhor carne de cachorro e os melhores fetos abortados. O burburinho do alvoroço logo começou ao saberem que havia realmente restaurantes especializados em fetos. Senti asco daqueles caras e me retirei antes de ouvir os relatos sobre morte por emparedamento, amputação segmentada, experiências neuropsicológicas e outras torturas aprendidas pelos chinas no circo da carnificina com seus ancestrais mongóis e indonésios. Para apaziguar a mente e me livrar dessas recorrências malevolentes do dia, decidi descansar a veneta procurando o compartimento dos dormitórios. Descobri que no estaleiro as beliches não tinham donos fixos, você devia deitar onde estivesse vago. Caminhei por alguns minutos e logo encontrei uma cama que parecia ter sido limpa havia poucos dias. Me deitei e fechei os olhos. Eu estava exausto.
- Ninguém jamais deitou na cama do Juan depois que ele partiu – escutei uma voz abafada, triste e preguiçosa no andar de cima do beliche.
Eu não disse nada. Continuei com meus olhos fechados.
- Você escutou? Essa era a cama do Juan.
Suspirei profundamente, incomodado. Me sentei na cama colocando os pés no chão gelado. Quando mirei para o alto, percebi que havia um cara gigante, de dois metros e vinte de altura, com um semblante amassado e melancólico e sua barba por fazer.
- O Juan costumava dormir aí embaixo quando namorávamos – ele resmungou.
Pensei em me levantar, mas as outras camas não tinham o aspecto tão limpo. “Talvez valha a briga se eu decidir ficar”.
- Ei, você não é de falar muito, não é. Eu disse que essa cama era...
- Porra, eu já escutei! – enraivecido, bati com meus braços no colchão.
Ele pulou do beliche e me encarou com seus olhos enormes e negros. Imaginei que fosse tomar uma surra, então, sem levantar a guarda, arqueei meu corpo para esperar o ataque do grandão.
- Me desculpe – ele disse esmorecido – é que faz muito tempo que estou sem o meu Juanzito.
Negaceei com a cabeça, relaxando a rigidez do corpo.
“Como podem ter colocado um cara desses na guerra?”, pensei, “não há maldade nenhuma nesse brutamonte de pelúcia”.
- Como é seu nome? – ele emendou.
- No exército não tenho nome.
Ele permaneceu ali, me observando com sua postura corcunda. Devia ter uns cento e setenta quilos distribuídos em seus dois metros e vinte de altura.
- Aqui no exército eles me chamam de Bunda de Urso.
Ri.
- Eu não quero nem imaginar por que – me deitei virando-me para a parede.
Bunda de Urso voltou para a sua cama escalando pesarosamente seu tamanho naqueles degraus delicados e, depois, espalhou seu corpo enorme naquela estrutura de madeira estreita e curta. Era como se ele estivesse deitado numa cama de anões. Enquanto ensaiava meu sono, escutei algumas pessoas rindo e jogando pôquer aos arredores. Ergui meu pescoço na direção daquelas vozes. Havia dois caras sentados em suas respectivas camas. Eles fumavam bastante formando uma nuvem espessa sobre suas cabeças. Numa das camas, com uma bandeira da Jamaica estendida, havia um negro que falava com a voz serena do Muddy Waters. Quando ele realizava descartes  que considerava geniais sempre dizia empolgado ‘Balza-ualza’ e balançava o corpo para os lados, como uma cobra esguia. Do outro lado, um homem de barba grisalha e densa, vestindo um quepe verde, tragava um cachimbo, enquanto descartava suas cartas, mesmo parecendo não prestar atenção alguma para o jogo. Às vezes o jamaicano o chamava de Popeye e repetia em seguida ‘Balza-ualza’. Acompanhei a conversa deles até a hora em que a sirene tocou. Logo os soldados – que pareciam tiras do subúrbio – gritaram as ordens do sono e as luzes improvisadas com pavio e cera enegreceram. Escutei o sono do Bunda de Urso traduzido em roncos cavernosos. Seria uma noite difícil. Revirei para todos os lados procurando me concentrar em meus olhos pesados e vermelhos, mas era impossível.
“Como esses caras conseguem dormir com esse barulho todo que esse cara faz?”.
Depois de muito me revirar, não consegui nem mesmo cochilar e, por isso, o jeito foi assistir, da pequena janela do alojamento, à tentativa do nascer do sol invadindo solenemente a escuridão do horizonte com sua tonalidade de cobre e fogo. Nem mesmo a luz havia dominado as trevas e as estrelas, as sirenes tocaram, e lá estava eu, de pé, como um zumbi. Todos se levantaram ao mesmo tempo, enquanto eu ainda tentava focar meus olhos turvos e alucinados para o chão.
- Bom dia – disse lenta e preguiçosamente Bunda de Urso – dormiu bem?
Bocejei estirando os braços.
- Sim, como um ursinho.
Ele riu e saiu cantando uma das músicas da série da Betty Bopp com sua toalha e sua escova de dente nas mãos.
Quando cheguei aos chuveiros, o regulei para me despertar com água gelada. Não adiantou. Assim que me vesti com o uniforme de recruta, os soldados nos encaminharam para o café da manhã. Pedi apenas uma caneca de café puro e fui para o pátio procurar algum lugar onde pudesse me distrair com o tempo ensolarado. Observei os arredores do estaleiro e percebi que todos estavam distribuídos em seus pequenos grupos, espalhados pelos cantos, murmurando sobre os acontecimentos da guerra. Caminhei lentamente sobre aquelas madeiras de palafita lacustres enquanto tragava minha caneca de café. Pensei em me enturmar com alguns caras para saber mais informações a respeito do assunto do dia.
- Balza-ualza, man, você perdeu! - escutei repentinamente. O jamaicano e o Popeye jogavam pôquer sentados em caixotes de munição. Caminhei até eles e me sentei bem próximo, no chão, recostando na parede. Tentei prestar atenção no que conversavam para saber se surgiria alguma novidade a respeito da guerra, mas, não demorou muito, senti meus olhos pesarem e, lentamente, cochilei.
- Ei, esse cara aqui está meditando? – interromperam meu sono.
- Não sei, Sony, pergunte a ele – disse Popeye mascando seu cachimbo com o canto dos dentes.
Quando dei por mim, prostrado em minha frente, havia um cara com os traços de índio nativo da América Central. Ele devia ser da minha altura, corpo esguio, com dentes amarelos e sobressalentes. Me fitava piscando agilmente, parecendo ter alguma dificuldade para enxergar.
- Cara, você está meditando?
Não respondi. E ele insistiu com a pergunta.
- Ei, Sony, deixa o cara em paz! – vociferou Popeye com sua voz rouca.
- Sei que ele está meditando, ele está nos caminhos de Buda.
- Não liga para esse cara não – resmungou Popeye apoiando-se em meu ombro – esse japa está louco.
- Japonês? – não entendi.
- É que meu pai era negro. Ele era um pirata somali que aportou no Japão. Ele seqüestrou minha mãe e nove meses depois eu nasci no navio.
- Acho que seu pai era “chicano”, Sony, fale a verdade – riu Popeye enquanto me sacudia para acompanhá-lo na comédia. Todos riram, menos eu.
E, assim, de maneira desmedida e muito espontânea fui introduzido ao grupo pelo velho Popeye.
- Ei, Buda, você acabou de escutar a história do Sony e provavelmente ele ainda a repetirá umas duzentas vezes enquanto você estiver aqui conosco. Esse daqui é meu parceiro de histórias e pôquer, o Kingston. O chamamos assim porque ele vem da Jamaica. Eu sou o Popeye, por motivos óbvios - disse apontando para o seu cachimbo e seu queixo sobressalente. E esse é o estaleiro que aguardamos o dia que iremos para o inferno.
- Você quer dizer, para guerra – interrompeu Sony.
- Da na mesma, em se tratando dos chinas – Popeye cuspiu no chão.
Eles riram. Permaneceram ali jogando pôquer até o horário do almoço. Eu adormeci novamente recostado na parede até a hora em que a sirene nos impeliu para irmos definitivamente ao refeitório. O serviço era ágil e simples, pois a comida era igual para todos: arroz, batatas e peixe. Após o rango voltamos aos nossos lugares, no pátio. Fomos informados por um dos comandantes da marinha que seríamos listados à nossa ordem de serviço na guerra em duas horas. Enquanto esperava, assisti às partidas incansáveis de Kingston e Popeye; Sony, ao meu lado, discursava sobre os caminhos de Buda; embora eu não me importasse, Popeye e Kingston, já estavam aporrinhado com a história de meditação, que deveriam escutar todos os dias, há muito tempo.
- Cala boca, Sony, ou então vamos colocar você para dormir com o Bunda de Urso – disse Kingston.
Sony, imediatamente, se silenciou e, em seguida, saiu da nossa vista inventando uma desculpa de que precisava ir aos dormitórios. Curioso, perguntei aos caras porque Sony tinha medo do Bunda de Urso. Kingston riu.
- Balza-ualza, man! Uma vez o Sony apanhou do Bunda de Urso por se meter com Juanzito.
- Juanzito? – insisti.
- É. Dom Juan. Era um negrinho de New Orleans, um e cinqüenta e cinco de altura, que gostava de trepar com os gays e os travestis do estaleiro. Mas ai ele conheceu o Bunda de Urso e eles namoraram até o dia em que o nobre Juanzito, rei do romance, morreu de sífilis.
- É. E o Bunda de Urso despirocou das idéias desde então – completou Popeye.
- Mas e o que tem a ver o Sony com tudo isso? – redargüi.
- Cara, o que acontece é que, quando Juanzito foi recrutado, ele dividia a beliche com o Sony. Eles não eram namorados, mas eram muito amigos. E, ai, quando o Juanzito começou a namorar o Bunda de Urso, ele abandonou o Sony e foi compartilhar a cama com o seu namorado peludo, mas, às vezes, o Sony ia lá importuná-los no meio da noite, em nome da velha amizade. Nisso, o Bunda de Urso ficava furioso e, um dia, com a cuca quente, ele encheu o Sony de porrada.
- Por isso ele ficou com os dentes daquele jeito... – riu Kingston – a porrada foi forte.
Lá longe, vi o pequeno Sony passar ligeiro por entre as escadas da chaminé e adentrar os dormitórios como um camundongo ágil e faceiro. Negaceei com a cabeça, pois eu estava um pouco decepcionado com a vida daquele japa. Pensei em ir conversar com ele, para saber mais de sua história, mas, nesse mesmo momento, a sirene tocou. Conforme as ordens Popeye, Kingston, eu – e mais uma porrada de gente – fomos enfileirados. E, de acordo com a ordem das filas, nossos destinos seriam traçados rumo às trincheiras da China.
- Soldados, vocês vão entrar na China pelo Himalaia. O avião vai embarcá-los em uma hora. Preparem-se! – gritou o comandante apontando à nossa fila.
Quando volvi meus olhos para o final daquela linha de gente, percebi que lá na extremidade direita estava também o Bunda de Urso. Mas, infelizmente, eu não havia visto o Sony.
Preparamos nossas malas e vestimos o uniforme completo. Fomos embarcados em um ônibus no porto e levados para o vôo ao Himalaia. Ao chegar na pista acidentada das aeronaves, nos empunharam de mochilas com pára-quedas e com uma espingarda para cada um.
- É o suficiente para matar os amarelos. Boa sorte – diziam todos.
Um a um fomos embarcados no avião cargueiro. Durante o vôo, descobri que nenhum de nós fora efetivamente treinado em nada, pois disseram que já sabíamos tudo. Popeye gargalhou com seu cachimbo na boca:
- Kingston e eu usamos uma dessas gracinhas para matar os policias que nos pararam com o contrabando de munições há três anos atrás. Fácil de usar. Lembra, King?
Enquanto narravam o incidente dos policiais da rodoviária, eles me ensinaram os macetes do gatilho e da empunhadura, pois eu nunca manuseara uma arma na minha vida. Repliquei os movimentos enquanto eles avaliavam segundo as suas experiências das ruas. “Espero jamais precisar atirar com essa merda”, balbuciei para mim mesmo, mas garanti que realmente havia aprendido para o caso de chegar o dia de eu precisar atirar.
Enquanto atravessávamos o oceano, depois de três horas de vôo, fomos informados de uma missão de emergência que desviaria em muito a nossa rota inicial. Deveríamos primeiramente pousar no Paquistão e ajudar a base aliada que corria perigo de contra-ataque. Não havia dia para cessar o nosso apoio de forças, segundo relatou o comandante do rádio. Retraçamos a rota e lá fomos nós ao Paquistão. Era manhã quando chegamos naquelas florestas verde musgo. Desembarcamos rapidamente, ainda escutando os barulhos das turbinas do cargueiro.
- Chegou sua hora de rifar esses chinas morenos da face da Terra – sentenciou Popeye cuspindo no chão – não nos decepcione.
Nos lançamos para o meio da mata escutando às ordens da base vindas pelo rádio no pescoço do Popeye. Encontramos facilmente – após seguirmos às coordenadas eximias e detalhadas – um vilarejo que diziam ser dos rebeldes da milícia. Invadimos. Como um mero espectador, assisti àqueles caras matarem homens, mulheres e crianças sem nem mesmo pestanejar. A ordem era aniquilar o que fosse amarelo, marrom avermelhado e de olhos puxados. E os vi fazerem dessa ordem um circo boçal de carnificina: não reconheciam nada além das máscaras de traços étnicos como alvos vivos. Vilas e mais vilas foram dizimadas sem deixar vestígios de suas existências. Ao final, as casas de bambu e barro eram incineradas para evidenciar que nada ficaria de pé com a ação de nosso país.
Assim como eu, Bunda de Urso nem sequer sabia o que fazia ali. Para piorar a situação, passei a andar com a guarda-baixa, alheio a toda situação. Seguia Kingston e o Popeye que atiravam para qualquer direção rindo e blasfemando a tudo que viam ao redor.
- Morram comedores de cachorro! – gritavam.
À noite, decidimos descansar num vilarejo abandonado pelos avisos de horror causados pelo nosso fronte. Popeye e Kingston estudavam suas armas, enquanto os demais soldados falavam de quantos haviam matado naquele dia. Bunda de Urso e eu observávamos os urros afoitos dos soldados do nosso fronte, enquanto ele e eu nos aquecíamos diante do fogo. Antes de me deitar, nas redes armadas dentro dos cômodos de barro e bambu, lavei meu rosto e, pela primeira vez, o odor de pólvora e sangue consumiu minhas têmporas. Não consegui dormir. Os gritos das mulheres e das crianças paquistanesas ecoavam para fora dos meus pensamentos, chegando à curva do meu ouvido e então ressoavam vezes e vezes, aumentando o meu remorso de cumplicidade.
A sensação era de que a guerra não teria fim.
Essa sensação se confirmou. Nos dias seguintes a alienação para o ideal de guerra havia se tornado uma febre convulsiva, pois nem sequer tínhamos mais informações de geografia e de demografia – mas, também, já não nos importávamos com isso – e apenas escutávamos do rádio o grito do comandante fornecendo informações sobre potenciais bases inimigas que deveríamos aniquilar nas operações. Essas bases, na maioria das vezes, eram apenas tribos de pessoas singelas e comuns. Mas, mesmo assim, nosso exército não perdia a viagem.
Já havíamos dominado e dizimado grande parte do sul paquistanês, e, por isso, recebemos ordens de embarcamos para as cordilheiras do Himalaia e entrar, definitivamente, no sul da China.
Naquela mesma noite embarcamos no avião cargueiro. Vangloriava-nos de não ter perdido nenhum soldado; de ninguém do ter ficado gravemente ferido. Orgulhosos da empreitada do ofício, contávamos o numero de pessoas que havíamos matado naqueles dias.
- E você, Buda, quantos matou?
Antes que eu pudesse pensar em algum número mentiroso, escutamos um estrondo do lado esquerdo das turbinas, seguido de uma intensa luz incandescente. Alguns dos soldados morreram instantaneamente, pois estavam relaxados por comemorarem a vitória precocemente. Outros – assim como eu – ficaram momentaneamente surdos e perderam a noção do espaço, decorrentes da comoção do abalo. Quando enfim me recompus, corri na direção da fumaça e percebi que a turbina esquerda havia sido completamente avariada. Não conseguiríamos sustentar o vôo por muito tempo.
É difícil descrever o que vi dentro dos compartimentos daquele enorme cilindro de ferro. Soldados gritando, urrando e implorando pela salvação de deuses que até então não acreditavam. O desespero era tamanho que, mesmo com a audição deficiente pelo estrondo do motor, lembro-me perfeitamente de escutar soldados, ajoelhados, implorando e gritando por Jesus Cristo, por Krishna, por Shiva, por Buda, por uma infinidade de deuses que foram calados a bala e a muita tortura há poucos dias atrás nas terras paquistanesas. Ao adentrar um dos compartimentos, vi que Kingston e Popeye se abraçavam, eles choravam muito. Quis chegar até eles e confortá-los do desespero, mas fui derrubado pelo Bunda de Urso que correu como um bebê perdido para o local da explosão, e percebendo que não haveria saída, ele mergulhou para a morte.
Já não havia mais nada a ser feito. Me sentei e esperei.
Os gritos se tornaram ensurdecedores à medida que sentia o avião cada vez mais próximo do solo e, logo, eu já estava completamente surdo.
Cerrei meus olhos.
Senti uma luz clara como um raio penetrar minhas pálpebras e uma onda de calor se dissolver em meu corpo.
Houve um silêncio. Uma ausência de tempo. De espaço...
Não me lembro de mais nada em relação ao acidente. Recordo-me apenas de ter acordado trinta metros distante dos restos da aeronave ainda em chamas. Meu corpo parecia estar inflamado devido ao entorpecimento do abalo. Eu ainda sentia minhas pernas e meus braços, podia movimentá-los enfim, mas não conseguia me levantar. Ao longe, escutei ainda gritos agonizantes e desesperados de socorro. Reconheci aquela voz preguiçosa e abafada.
“Bunda de Urso ainda está vivo, ele ainda está vivo!”. Tentei gritá-lo, mas meu peito não tinha voz. Apenas escutei Bunda de Urso chorar e urrar para a neblina do Himalaia, até sua voz sumir da existência da Terra.
- Juan, me ajude. Me ajude, meu amor – era como um bebê abandonado, era como uma esposa sem marido.
Chorei. Senti o cheiro de pólvora e de sangue se tornar mais intenso com a mistura de querosene e de metais estalando em meio as chamas. Minha fraqueza, conseqüente do desespero sofrido pelo cataclísmico, me desfaleceu mais uma vez, e por cerca de sete horas permaneci desacordado. Quando recobrei minha consciência, senti o frio da noite que amanhecia lentamente no horizonte do Himalaia. O lume dos metais e dos corpos carbonizados ainda jazia em contraste com a penumbra do fim da noite. Me lembrei do Bunda de Urso e pensei em dar um último adeus... mas de nada ia adiantar.
- Ele já encontrou Juanzito.
Permaneci deitado, me lembrando daqueles figuras que conheci no estaleiro. Onde estaria Kingston? e Popeye? Choraminguei no meu desespero surdo e inaudito enquanto me levantava lentamente. Olhei ao redor e não vi nem mesmo um vulto semelhante à imagem de ser humano. Tudo estava carbonizado. Sem pensar nas conseqüências, tomei minha decisão de continuar e caminhei mantendo apenas uma direção: para frente. Por vezes, abraçando árvores ou pedras, adormeci exausto – uma tentativa fisiológica para sentir menos fome, menos dor. Ao passo de quatro horas adentrei uma região plana, sem árvores. Um vale verdejante de mata virgem. Eu sabia que ali por perto poderia existir um povoado. Como um morcego, agucei minha audição e pude escutar os galhos estalarem; os pássaros cantarem, o vento assoviar.
Pela primeira vez senti medo da solidão.
Imaginei que alguma besta silvestre pudesse sentir o odor do meu sangue e me devorar sem nem mesmo se importar com o gosto de querosene. Desejei ter morrido na explosão da turbina, numa parada cardíaca durante a queda como resultado do medo ou mesmo sendo carbonizado vivo. Chorei mais uma vez. Solucei meu sibilo para o eco da paisagem solitária. O temor da minha alma ressoou pelas planícies e vales do Himalaia servindo de aviso para as feras bestiais que se aproveitariam do meu corpo inerte e agonizante.
- Escapei da queda para morrer de fome e de fraqueza.
Volvi para mim mesmo, refletindo sobre a minha vida até ali, naquele momento. Não havia muito para se orgulhar, admito. Mas, se arrepender também levaria tempo. E tempo é uma coisa que não tenho mais. Não mais.
Lembrei-me da família que não tive, da profissão que não segui, do futuro que não construí...
- ... da vida que não vivi.
A verdade é que eu já estava morto e não sabia.
- Uma pessoa que não vive só pode estar morta.
Meus olhos inundaram. Na minha mente, lembrei-me dos tempos do reformatório e do colégio interno. Dos meus anos de clausura. Sempre estive preso. Preso a mim mesmo.
- Me liberto agora de tudo que fui...
Já não sentia mais o ardor torpe e flamejante provocado pela coagulação do querosene ao sangue. Meu corpo tremulava como um estandarte. Meu âmago ascendia. O vento contornava a altura da minha derme enegrecida, como que envolvendo as arestas da minha alma, para além da carne, das articulações e dos nervos, das ligações nervosas e consangüíneas. Eu sabia... já não era mais um conglomerado de matéria, uma justaposição de hipóteses físico-químicas. Algo dentro de mim resplandecia e, embora meu corpo inane e repleto de afasia ainda estivesse ali, já não havia mais limites para o meu ser. Por isso, eu me levantei. Me levantei e prossegui na retidão do vale, transpassando o vento, as árvores, as pedras, tudo ao meu redor, nos acidentes do Himalaia. Hesitei os passos. Era necessário dizer adeus a tudo que ficou para trás. E foi o que fiz...
Quando volvi meus olhos na direção do passado, vi meu corpo ainda inerte, rijo e teso, desabando lentamente contra a grama verde musgo. Ele conservava uma expressão tranqüila de alegria e paz. Paz que eu nunca pensei que existisse.
- Adeus.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

- alma dócil

A quintessência mais sublime
revela a vida em primazia
e não há nada que se aproxime
do poder da mente que tudo cria.

Ignore toda ideologia que reprime,
concilia-te com o ódio que asfixia,
levante-se cedo e se anime,
qualquer que seja a previsão do dia.

Acredite: não há nada que deprime
o ser humano que cultiva alegria.
Portanto, livre-se do que o oprime
da raiva, do medo e das fobias.

Pois não há limites
para a alma dócil, em harmonia.