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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

- carvão com barro

- Vamos nadar aqui, cara?!
- Nadar, agora? você ficou louco? Nos mandaram para trabalhar e você quer pular no rio?... Olha, não estou afim de ser demitido hoje, tá bom?
- Ah, larga a mão de ser chato, porra. Tira a roupa ai e vamos pular nesse riozão!
- Mas nem fodendo! E além do mais, esse rio deve estar cheio de cocô, olha a situação dos dutos que desaguam aí. Vem tudo daquela usina de carpetes!
- Aah, pára com isso, cara, esse rio tá uma beleza, vamos pular, vamos! Já tô até tirando tudo...
- Cara, larga a mão de ser mané... Olha o tamanho da usina que tem ali na frente, aqueles caras jogam até o pensamento aí dentro!
- Não estou nem aí! Esses pensamentos todos não podem ser piores que esse emprego filho da puta que temos.
- Vai na fé! Eu vou esperar você nadar nessa merda toda.
- Tá! então fica aí sentado, manézão. Vou dar umas braçadas!
- É... e vai voltar fedendo a bunda de pião.
- Foda-se, fui!
- Eita cara corajoso! Não é que mergulhou mesmo! Espero que volte!... Deixa eu ir recolher a pá daquele otário, esconder a roupa fedorenta dele ali atrás da árvore e vou tirar uma soneca. Espero eu que ele volte rápido senão fode tudo!
- Eita belezura de água! Dá pra dar umas braçadas bonitas nesse riozão, cara. Vem também!
- Cara, nesse rio você não precisa nem dar braçadas para nadar. A água é tão grossa, de tanta sujeira, tanta coisa morta, que é só você pular e deixar que o barrão te leve pra algum lugar! Capaz até do Monstro do Lago Ness te dar uma carona nas costas.
- Ah, vai cagar, não to nem aí, o importante é que agora já to refrescado. Agora posso trabalhar até as dez da noite, sem problema nenhum.
- Então sai logo dessa caganeira toda e vamos trabalhar, caralho!
- Calma, calma, calma, porra, to saindo! você não tá vendo não!?!
- Nossa... Que foda!
- Que foi porra, tá rindo de quê?
- Sua bunda, cara! Sua bunda!
- O que é que tem minha bunda? fala logo, não consigo ver!
- Velho, deve ter entrado aqueles bichos gosmentos negros, sabe, as sangue-sugas?
- Ah, você tá brincando?
- Não estou, cara... tem um negócio preto no meio do seu cu!
- Aí, caralho, me ajuda!
- Nem fodendo, não coloco a mão nisso ai nem que você me pague um milhão de reais.
- Nossa! Como você é filho da puta! Belo amigo, hein!?
- Amigo!? Eu avisei para você não pular nessa merda, caralho. Nem deus sabe o que tem aí dentro... Agora tá com esse pedaço de não-sei-o-quê no seu rabo.
- Ah, eu vou colocar a mão para saber o que é! Não to nem aí! É questão de honra agora, cara!
- Nossa, que vontade de vomitar! Vai na fé, eu vou me virar, não quero nem ver!
- Seja o que deus quiser... Urgh! Écati!
- E aí, tirou o monstro negro?
- ... tirei.
- O que era? E por que você está rindo, idiota?!
- Velho, isso daqui é barro, na verdade é um pedaço de carvão com barro. Sabe, aquilo que a gente escava o dia inteiro.
- Que nojo!
- É que fazia 3 dias que eu não tomava banho... aí esse barro com carvão foi acumulando na minha bunda!
- Cara, como você é nojento! E ainda pula num rio de merda para completar a sujeira toda!
- Ah, cala a boca... Pelo menos não é uma sanguessuga.
- É, isso é... mas isso também provou que você é um porco. O verdadeiro suíno!
- Ah, vai se fuder, vamos trabalhar.
- Vamos, veste essa merda de uniforme fedorento... to louco pra chegar lá e contar pra todo mundo que você ama sua profissão e guarda pedaços de carvão com terra na bunda!
- Ah, não me enche!
- Seu nojento.

2 comentários:

  1. Cara, preciso de uma explicação...
    Belo texto, meio ao estilo Veríssimo, se me permite a comparação; típico conto feito apenas com diálogos diretos.

    Agora não entendi muito bem o conteúdo dele. Digo, tem uma leveza cômica, mas não tem mais nada filosófico. Seus textos costumam ter sentido mais filosóficos. Bem, caso esse seja uma exceção, desconsidere. Caso não, me explique!! :D

    Mas bem escrito.

    Abraços.

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  2. Não tentei ser philosóphico.
    Phugi a regra.

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