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terça-feira, 30 de janeiro de 2007

- a encosta

Cuspi daqui de cima desta encosta, aonde voava um zeppelin imaginário em que as pessoas não queimavam, mas morriam rindo do grandioso mar que havia abaixo.
Não sei se cai junto com a saliva decrépita, mas, de fato, as divagações aéreas são um consolo. Um consolo refrescante.
Os aviões que por aqui voam, as mulheres que acenam. Tudo parece desabar. Me confundo entre céu e mar, sendo eles tão comuns quando não têm as nuvens para lhes diferenciar.
Eu sinto o vento, ouço os motores sonoros, algumas pessoas que dançam com aquele ruído mecânico.
Os homens de asas passam por cima das ruínas de prédios e cortiços driblando aquelas velas vermelhas disfarçadas de pára-raios.
Eu, uma formiga operária, quando lá embaixo, escuto o ruído surdo que não é notado pelos outros, e por que notariam?
Estou procurando um tapete mágico, daqueles bem simples que só caiba eu apertado em cima do capacho.
Se você visse como são as nuvens daqui de cima... Não pararia de pensar nelas. As pessoas dali debaixo as enxergam como figuras abstratas que estão no inconsciente, driblando a realidade amarga de sonhos frustrados.
Dizem ver cavalinhos, cãezinhos e todo um bando faunal que esvoaça os céus. Daqui de cima... daqui eu não vejo nada disso. Enxergo estas transpirações polutas, esses vapores de mares e rios e, quando os penetramos, eles desaparecem, desmancham no seu corpo, como o algodão-doce no céu da boca.
E, eu ainda caindo, vejo pombos e todas aquelas aves migrantes que marcham em fila pelos ares. Dizem que vão para o sul, ou, que voltam ao norte. Não imagino a verdade. Eu apenas sei voar para baixo.
Estico os braços, tentando mudar para alguma direção, mas, sinto que isso não adianta muito, é o vento quem comanda. Ele insiste em me mandar para a esquerda, perto das encostas, às rochas que fazem margem daquele mar todo.
Nas rochas, vejo algumas pessoas que olham perdidas para o fim azul esverdeado do horizonte. Costumam suspirar quando encontram um ponto melancólico.
Daqui de cima eu não sinto o suspiro, mas os ombros e a coluna encurvada faz juz a minha intuição. Alguém me nota, parece levantar os braços, acenar para mim, dizer um oi. Outras mais se voltam para mim limpando o caminho, correndo para onde possam ver bem aquele corpo que se divide entre céu, rocha e mar.
'Quem ele abraçará?' dizem. 'Qualquer coisa o mata, não tem jeito'.
Que situação... eu que queria apenas cuspir, estou sendo acompanhado desde que puderam me distinguir dos pássaros.
Queria o zeppelin imaginário, queria um pára-raios, um tapete voador, ou mesmo ser um pombo. Mas sou eu mesmo, eu e um bocado de rochas e água lá embaixo.
O vento ainda não está certo de onde ele vai me lançar, continua dançando com meu corpo para a esquerda e, de vez em quando, recua à direita incerta.
Já são quatro pessoas... Um belo público para quem apenas queria cuspir.
É melhor fechar os olhos. Pensar em queda não salvará minha vida. Sinto o vento, os cabelos baterem nas minhas pálpebras, ouço o som das ondas quebrando nas pedras.
Arrisco um olho. Vejo, estou caindo na água...
Fecho os olhos novamente, um frio atormentador me vem dos pés à cabeça...
Agora estou dentro desse mar azul esverdeado, turvo.
Ainda consigo ver os vultos me procurarem na água.
Sabe... eu não sinto nada. Não sei se meu corpo dói, se ele sequer sente alguma coisa, e não quero saber.
De que adiantaria?... Eu não sei nadar.