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sábado, 10 de março de 2007

- a crônica de um sofá velho

Comprei um sofá de couro. Totalmente surrado. Mas é de couro. Negro. Tem algumas manchas de gordura e sujeira. Alguns furos da idade e das bitucas de cigarro. Mas, eu gosto, é meu, e está pago.
Hoje pela manhã o coloquei na sala, de frente à televisão, perto do telefone e afastado do sol e chuva que vem da janela. Sentei, escutei o estalo forte do forro de couro. Que satisfação! Completamente meu. Velho, mas é meu! Imaginei pensamentos confortantes naquele tranqüilo e macio sofá. Imaginei as aventuras que este sofá velho de três lugares e amplo espaço passara. O imaginei sendo fabricado a mão, moldado, cuidadosamente estopado e vestido com a beleza natura negra... Pobre dos animais... Bem, mas ao menos belo sofá! O imaginei na loja. Aquelas bundas estreantes tentando sentir a excitação do conforto às nádegas. Quando acontecia, somente depois descansavam a espinhela doída no encosto, as mãos no braço encourado. Fechavam os olhos e diziam “Nossa! Que conforto! Até dormiria aqui!”.
O troféu de naturas mortas é levado à casa de uma dondoca, riquíssima.
Imagino a satisfação da família: O pai a confortar-se assistindo ao tele-jornal; depois, lendo suas revistas diárias e seus jornais sobre economia. Fumando, tão concentrado, deixa o pito faiscar uma brasa, queimando o couro cru. Imagino a dondoca assistindo àqueles programas culinários, esparramada no sofá. Às vezes, sentada a tricotar esquece a agulha de tricô sobre o forro de couro, distrai-se, senta em cima sem perceber. Culpa da novela das seis. Furou o coitado.
As crianças menores sentam-se para assistir aos programas de animação, e encenam, pulam, calcando aqueles pés sujos. Outras vezes, sentavam para comer aqueles aperitivos gordurosos e banhados de sal ou açúcar. Depois, dormem na cama negra. Cheios de satisfação e conforto.
À noite, quando quase todos estariam em seus respectivos quartos, a jovem e seu namorado estão a curtir o sofá. Despem-se. Aquelas bundas nuas... Depois, deitam-se estirando o corpo inteiro no confortável couro cru.
Um sofá cheio de lembranças, não? Eu o admiro! Imagino um pouco mais, depois de algum tempo tentando adaptar-me aos acentos. Imagino aqueles sulcos formados para cada almofada do sofá. O sulco do pai, à esquerda. O sulco da mãe, ao centro. E o dos filhos no outro canto, um sulco coletivo daquelas bundas magrinhas de infância. Diferentes dos sulcos dos pais, robustos, afundam bem a almofada. A garota... Bem, esta não tinha sulco. Usava o sofá por algumas noites e, quase nunca, sentada. Lembranças do sofá velho. Pobre sofá! Manchas, furos, deformações e alguns queimados de bituca. Um tempo depois, quando o sofá perdera total brilho por causa das manchas, os sulcos encostavam-se à estrutura de madeira e os furos enfeiuravam o ambiente, dondoca reclamou: Arre! Sofá velho, desconfortável! Preciso trocá-lo. E dias depois o couro negro estava numa casa de móveis velhos e usados, junto com outros sofás aposentados. A sua antiga dona comprara outro. Caro. Italiano. Branco. Passando em frente à loja, o avistei, num canto, desfavorecido, abandonado... Depois de muitas bundas descansarem o esfíncter ali, o abandonaram! Só. Pobre sofá velho...
Eu o observei com olhos críticos. Depois com admiração. Afinal, meu sonho sempre fora um sofá de couro. Arfei no mesmo instante com tal pensamento. Pechinchei ao meu amigo um preço camarada. Comprei. O trouxe para casa no bagageiro da van. Agora, em frente à televisão, perto do telefone e distante de sol e chuva que entra pela janela, uma nova estória ao sofá velho. Antes, cheio de bundas transitórias. Agora, repousa uma bunda solteira, só. Mas, que de vez em quando, trará ao sofá velho uma bunda feminina para fazer-lhe companhia e para a satisfação – é claro - da bunda solteira. Velho sofá. Novo sulco. Agora, todo meu.

Um comentário:

  1. Adorei seu texto!Este sofá!...VEJO NÃO ESTAR SÓ EM MINHAS PEQUENAS LOUCURAS. Quando menina, havia no rádio um programa chamado A Alma das coisas.Este programa despertou ainda mais minha imaginação para as coisa, casas velhas, objetos, móveis , tudo que fala à nossa imaginação.Vi comentários do seu blog em Multicultura e cheguei até aqui pois amo fotos em preto e branco.Percorri rapidamente vários textos, que vou ler depois com calma.Parabéns ao seu blog!Muito bom gosto!Você escreve muito bem!Quanta sensibilidade!

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