- o que você procura?

domingo, 29 de abril de 2007

- Cavillar

Se não fosse o atendimento rubro do vizinho, dono da taberna e homem de 5 gueixas que ele dava conta muito bem, talvez o coronel e mais alguns outros soldados da infantaria reagiriam mal no recinto do homem de bigodes magros.
No fim de tudo, era mais um alívio sem presunção alguma, até porque, quando se olharam por entre os ombros, disfarçando a vergonha alheia, se via no catre dos rapazes a angustia para puxar o gatilho.
- Valha-me Deus se não for verdade que essas gueixas que você acolhe forem realmente japonesas!
Naquela noite desgovernada, todos estavam pardos, exceto pela voz do varão do recinto. Aquele homem mirrado que abraçava as japonesas que não eram amarelas.
Do outro lado da mesa, perto da porta do sallon, prostrava-se o coronel de longas datas, um homem forte, uma exuberância grisalha de gordura e suor. Seus subordinados, que dragavam as mulheres das mesas eram como ele, só que mais taciturnos na postura de soldado velho.
Com aquela condolescencia de poucos amigos, mascando sua folha de coca e segurando o cinto que quase desaparecia embaixo da barriga redonda, olhou com o olhar de desprezo para toda aquela gente que tremia frígida nas mesas, paralisavam pelo respeito legendário do homem que mais uma vez fingia ser a força de cidade estampada de um fulgor sem serenidade nos olhos de cada cidadão.
- Senhor Coronel!- gritou um gajo na multidão.
O coronel cessou no instante seu cerrar de dentes e bufou para a direção do homem corcunda que lhe pedira a atenção.
- Fale, homem, de que me vale este braço erguido?
As mulheres do sallon, com seus leques imóveis, olharam para trás procurando o corajoso da noite que tentava explicar, sem medo de perder os bofes, o que se tratava aquela rechaça de gueixas monumentais que não eram amarelas.
- Senhor, as gueixas vieram no desembarque da semana passada, junto com os elefantes brancos que divertiram nosso povo no circo.
Poderia ser verdade, se não fossem os vestidos de cigana que as mulheres vestiam.
- Sei, e tu queres que eu acredite que essas grampolas são orientais? - replicou passando a mão na barba casta e cuspindo a folha de coca. Caíra na mesa da dama de vermelho que mostrava suas vestes particulares ao sallon, não notara, pois, estava hipnotizada por aqueles homens de rifles e ordens condecoradas. E ai daquele que reclamasse a sorte, poderia levar chumbo nas ventas se ousasse falar sem ter a ordem.
- Você fala feito maricas, velho caquético - gritou o coronel.
O homem suou frio e se escondeu atrás da mesa, encurvando a espinha trêmula e olhando por entre os joelhos pensando ter se mijado todo.
Passando o olhar pelo povo, o coronel sustentou sua arma por entre os dedos, apoiada no catre e ali ficou, metrificando o espaço com os olhos ávidos e a destreza sabida dos tempos de guerra de trincheiras que lutara quando novo. Seus subordinados, acompanhavam, mas não olhando para os arredores, e sim para as damas que se insinuavam, não por tesão ou prazer inato do momento, mas pela misericórdia do medo que atentava explicitamente de lhes rifarem um chumbo nas entranhas.
- Vou levar essas orientais comigo, Cavillar, e ai de ti se se queixar da sorte!
Não houve protesto. Cavillar apenas perguntou aonde as levariam, mas o coronel se fez rogado e saiu sem lhe responder, apenas apunhalando na mesa um punhal com a inscrição da delegacia central.
Continuaram todos, quando os subordinados e o mandante saíram do lugar, suas bebedeiras desgovernadas, como se não houvesse acontecido nada. Apenas Cavillar ficara desolado com sua fúria de vinte e sete anos que pouco sabia administrar na força da magreza de seus ossos. Ficou por tempos, estático, olhando à porta do sallon e imaginando se abusariam de suas musas não amarelas que conquistou num impasse de herói arrombador de trens.
- Se tocarem em uma que seja, lhe corto os bagos, filhos da puta!
***
- Cavillar irá diretamente para a delegacia, homens, que lhes fiquem claro o aviso. Escondam essas putas num hotel barato, mas hajam como se elas fossem suas damas.
Não houve objeção de parte alguma. Os soldados raramente abriam a boca para pestanejar ou reclamar o assunto. Viam naquele homem - fora o suor aparente e carniceiro - um respeito intransigente que lhes cortavam as falas e calavam a razão, submetendo-se nas regras cuspidas o comum asco de coca e uísques desviados do trens da capital. Eram sete homens, dois deles eram sangues nobres do governo da cidade, filhos da força política que desgrenhavam ordens e participavam das corrupções extravagantes, sustentando-se nas costas do povo, já que não haviam objeções aos seus rigores, e eram feitas vistas grossas para estes homens que mais pareciam peças de um monumento público, que cheiravam as cagadas das pombas, a mijo de mendigos e as cusparadas e vômitos de bêbedos que dormiam no antro da cidade e viam esta demonstração sem pudor que estes dois homens se sujeitavam.
Para o coronel isto era mais que natural, desde que lhe fosse participado algumas das regalias.
Seus outros cinco homens eram todos filhos do estado, estavam ali unicamente pelo fato de ter de sustentar um rebanho de filhos e uma ou duas esposas roliças e algumas amantes luxuosas que desfrutavam no sallon todas as sextas-feiras, e diziam as suas madames redondas que estavam a serviço do governo, num plantão obrigatório.
Coronel era o único que não participava destas artes no sallon, tampouco se interessava. Sujeitava-se a ficar assistindo a noite cair por de trás dos morros, tomando seu uísque e mascando sua folha de coca. Quase não dormia, e quando já lhe entediava o prazer da noite, saía por dentre as periferias e se consternava na capela da igreja, para se redimir nas considerações de seu santo Senhor, inteiramente bêbado, já que só assim a lucidez de sua alma se mostrava para si próprio e escondida de todos os outros. E claro, não podiam saber de sua devoção.
Quando acordava, bem cedo, antes dos fiéis chegarem para a benção do padre, o coronel se exasperava para a estação de trem para saber com seus subordinados, se havia chegado alguém sem visto ou com algo que lhe fosse de interesse para confiscar. Era sempre assim. Talvez por isso tivesse tanta birra das grampolas de Cavillar, pela razão de num daqueles dias ele ter conseguido confiscá-las primeiro que o mascador de coca.