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segunda-feira, 30 de abril de 2007

- cólera da solidão

Na solidão das noites, num emaranhado de cobertores que não conseguem aquecer as pontas de meus dedos, lembro-me quando ela veio aqui em casa e se desvencilhou por entre esse mesmo cobertor que hoje me cubro só. No baú, ao pé da cama, ela se sentou, nua, e me contou como eram as coisas. Naquela noite rimos bastante. Não nos importávamos com a escuridão que se tornava cada vez mais o amanhã. Era como se não houvesse paredes, mas também como se não houvesse ninguém ou alguém que pudesse nos ver. Lembro também de me contentar em tocar seu rosto fino, sua pele quente e de flertar bem dentro dos olhos dela procurando uma dúvida que ela não transpassara jamais. Ela ria, cada parágrafo que terminava de pronunciar. Colocava a mão sobre os lábios, demonstrando uma vergonha, uma inibição que eu também sentia... mas por medo de tocá-la. Não seria pecado algum denunciar-me para ela, estávamos a sós. Eu figurava naquele cômodo meu como um desconhecido que nunca estivera ali. Ela sabia bem que eu não conseguiria demonstrar-lhe minha paixão. Quando deixava a minha mão deslizar sobre seu rosto, num súbito suspiro trêmulo, ela se confortava por entre o palmo, repousando ali a face, fechando os olhos, numa transpiração leve e quente. Pensei em beijá-la, mas não me vale os atos, quando os pensamentos já fazem tudo que se quer fazer. Se envolvendo nos meus braços, como num abraço sem medo da cólera do amor, ela parecia querer repousar sobre mim. Tive medo. Confortável, mas com medo. A utopia em lençóis que queimava de verdade, incinerando-me por dentro a cada instante eloqüente que ela me despertava numa chama de toques, suspiros e vozes ruidosas ao pé do ouvido. Naquela madrugada fria, o calor duo que nos circundava era cada vez maior. Intenso. Se me fosse vago, incendiário e forte, seria mais uma vez como nunca. Na verdade, como nunca foi antes.
Era a unicidade que me colocara ali, disposto a ela, e ela a mim. Não haveria um amanhã naquela noite que adormecia para nos deixar a sós. Não houve barulho de relógio, tampouco as horas passaram naquele instante único que se fez perpétuo. Éramos sós. Éramos dois dentro da solidão dos tempos, apenas com o frenesi dos pensamentos quimerizados em toques.
Figurar-se-ia em ti mais uma vez e mais outras, quem sabe, se naquele instante não houvéssemos percebido o quão distante era a solidão. Estávamos tão juntos e tão longe do que nos afligia que se fez capaz de ver novamente as horas e o dia claro que nos cegava e nos brindava com a ressaca de nossas sensações ardentes.
Agora fico só, com os pés frios, congelados, esperando que a noite volte, que o tempo pare, que o silêncio se quebre em ruídos teus.