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segunda-feira, 21 de maio de 2007

- balada da mulher controversa

Sem titubear nas lágrimas ela abraçou o seu ursinho de pelúcia encardido de outros dias de choro e deitou no chão do quarto, sobre o tapete aveludado que exalava o aroma mórbido de cão molhado. Lá permaneceu em suas longas horas de angustia escarnecida que lembrava os pobres cães abandonados ao léu sem rumo para tomar. Se lhe fosse válida todas aquelas lágrimas bastardas que lhe escorriam por entre os poros fervidos de ódio, quem sabe ainda ela poderia se lembrar o motivo total das enxaquecas seguidas de febre e choro constantes, uma paixão doentia, bucólica, que adentrava as mamas cruas de um coração forte.
O incomodo não a permitia abrir os olhos, talvez por remeter dentro destes um filme mudo, cheio de falas que ela conhecia muito bem, que não eram decoradas, pelo contrário, eram ditas unicamente com o coração ardente em chamas, frases completas que dispensavam a febre dos punhos de um poeta árduo que se fizesse rogado em sonetos ou versos livres.
Seus lábios vermelhos de ternura e confissão se contraíam entre os dentes que os prendiam, seguravam, para não confessar na sonoridade da voz calma sua enaltecida palavra sentimental.
Agarrava, com as unhas vermelhas e largas, as entranhas da pelúcia que se contorcia, assim como seu ego frágil e censurado pelas mentiras de outrora. Sua posição fetal mostrava toda fragilidade, como se desejasse alguém para lhe tomar nos braços, alguém que a socorresse, que a fizesse sentir o calor do colo, do abraço ardente que a incinerasse por dentro e transformasse a angustia numa palavra tola, sem sentido para seus lábios vermelhos.
Seus pés descalços, talvez por se sentir sem chão, se sentir sem uma base que a plantasse na realidade tátil.
Àquelas horas lânguidas, aquela ilusão sua, um ventre cheio de sentimentos nauseantes, uma mente sem razão, mergulhada nas lágrimas, sem uma barca para repousar o corpo e secar o sal de pecados passionais.
Se não fosse a sonoridade dos segundos que a embalasse no silêncio inexistente da sua utópica imaginação, as tormentas lhe sangrariam mais e mais, até que se pudesse senti-la agonizar em prantos, numa morte lenta daquele dia, para nascer num outro e morrer novamente.

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