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quarta-feira, 20 de junho de 2007

- aurora boreal

Um suspiro para que comece o dia, e para que ele morra logo após o café da manhã, sem manteiga, sem pão, sem café. Cortinas amareladas, e ratos que transitam pelo meio do corredor. Eram duas da matina, quando os raios de não sei o que me cegaram os olhos, trazendo a calamidade da realidade. A Preguiça que se contorcia, e se exasperava pela porta, temendo a efêmera Esperança que se atirava pela janela. Calavam-se no meio do vento a Sinceridade e outra senhora que eu temia ser a Morte - Tá legal - pensei, hoje depois das dez, eu sairei para trabalhar. Correrei por entre os becos, virarei algumas latas de lixo, procurando um leprechaun. Mas, ali, naquela hora, eu só queria ver a Esperança pulando do sétimo andar para lugar algum. A Preguiça a salvaria, se não fosse esse o seu nome.
Meu café chegou frio à cama. Preguiça...
Quando a Esperança jazia agonizando entre os arbustos de urtiga, a Morte veio e lhe tocou a música mais sublime na harpa. A Sinceridade lhe disse palavras duras, e depois cuspiu no túmulo herbívoro, culpando a defunta de ser amiga mais íntima da Utopia.
- Valha-me desta morada... Se não fosse pelos cantos quentes.
Ainda são quatro horas. Como a Esperança fede rápido. Já posso ver os carniceiros atacando-lhe a barriga fina... - que fome, pena estar cru. Olhe, veja! Estão ali, dançando em frente à lareira, duas bailarinas e um político. As bailarinas de terno, o político de collant. Quis dançar também. Romper o silêncio d'alma numa dança frenética com vaga-lumes e bailarinas empenadas.
Estou cansado. São quase cinco, vou me deitar.
Sempre que durmo, morro mais uma vez. Uma morte falsa que visito onde nunca fui, nunca estive, mas conheço bem.
- As pessoas gostam do falso, desde que não seja mentiroso...
O que sou eu nestes trapos? Esta roupa com pele e pêlos. O que sou eu afinal? Acordar para morrer de novo em mais um dia. Na serenata da noite, junto com meus amigos oniscientes: damas e cavalheiros.
Prefiro a amiga Insônia, que, junto com a Preguiça, jogamos cartas, falamos mal da Felicidade - que nunca veio visitar a minha casa. Mandou a irmã: Alegria. Coitada, acanhada, insegura, de vez em quando nos faz rir com seus lapsos.
Hoje, quem sabe, aparecerá a Ilusão, lhe devo dinheiro, ela vem cobrar. Vem junto com a Angustia - desgraçada amiga que me dá náuseas.
São oito horas. A tão esperada hora do suspiro. Insegurança me traz um chá.
- Receio que seja a hora, amigo.
Ela tem razão.
- Mas não vi a Culpa, gostaria de saber porque não veio me visitar.
- Já está tarde, amigo. Vá ou vai se atrasar.
- Estou sempre a tempo, querida Insegurança. Tchau, se cuide.
- Tentarei. Bom trabalho, Tédio.

Um comentário:

  1. E haja cafeína, hein? Gostei também. Belas associações.

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