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domingo, 15 de julho de 2007

- as begônias do jardim

Deixe-me dizer uma coisa antes que você saia por esta porta e não volte mais.
Não há  muito a se lembrar, nem um drama mórfico para se esquecer.
Estamos todos velhos demais, e, daqui para pior, as coisas começam a entrevar, como num ranger descomunal de móveis velhos de carvalho. Todo movimento é passível à dor. Sinto que não sou mais como nos nossos tempos virís em que fazíamos aquele sexo frenético de horas a fio na madrugada do inverno. Sufocávamos ávidos nas paixões e não nos cansávamos embora as horas passassem rápidas e os minutos fossem nossos segundos de transpirações.
"Estas noites curtas para nossas vidas" se dizia, e hoje elas são tão longas para minha consciência que se perde em fios de lembranças confusas, desde a hora em que levanto até a hora em que anoitece, às dezoito horas, e já me cansa os olhos os vultos das estrelas que acendem para inflamar o céu.
Antes que fechemos a porta de nossa casa e você carregue todas suas begônias coloridas cada uma com a cor de seu humor particular, gostaria de te lembrar sobre como suas mãos eram tão frias, e como as preserva imóveis agora diante de mim, segurando estas flores da cor de seu humor perpétuo.
Antes que saia agora por esta porta, deixe-me fitá-la uma vez mais de olhos bem fechados, neste vestido de colombina que há tanto tempo não o via em seu corpo com perfume das flores.
Quero guardar comigo este pensamento, para quando amanhã de manhã suas irmãs carregarem sem meu consentimento suas roupas de outros dias e seus pertences para a casa delas.
Antes que eu chore com a tua partida por lembrar os pormenores de nossas conversas e divagações que nos levava a milhares de idéias e invenções que mundo discordava e que nos fazia desejar o que não existia, mas que para nós satisfazia muito bem.
Deixe-me olhar uma vez mais ao seu estado, para que eu reclame comigo mesmo na discordância das horas que não mais pertencerão a nós e sim a minha ignorância grosseira de falar o que der na veneta comigo mesmo, sem você discordar ou reforçar com medos e pretensões.
Antes que você saia e não volte mais, deixe-me dizer mais uma coisa: Leve com você este cheiro de morte, estas begônias todas que colhi e plantei ao seu redor em seu pequeno espaço eterno, para que você plante consigo na terra, e que estas begônias mantenham-na perfumada por toda eternidade ou ao menos para quando eu for lacrado daqui a algum tempo ao teu lado, sinta o perfume e saiba onde você está me esperando, com a begônia de humores nas mãos, para oferecer para mim no jardim do Éden que você plantou.