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quinta-feira, 5 de julho de 2007

- gustavo brito póstumo

- Você conhecia o Gustavo Brito desde quando?
- Bem, o conheci muito cedo, quase sempre estudávamos juntos.
- E como era conviver com ele?
- E ele sempre foi meio nonsense, sincero e bastante crítico. Jamais o vi agir de outra forma, o que lhe dava a impressão de ser chato e ter bastantes inimigos.
- E ele reclamava muito?
- Não digo que ele reclamava muito. Na verdade ele enxergava muitos problemas nas coisas, que, de fato existia, mas as pessoas não gostavam de acompanhá-lo. Ele sempre estava sentado especulando sobre algo, por mais inútil que fosse, ele tentava tirar algum proveito.
- E você sabe quando foi que ele começou a escrever?
- Sempre o vi escrevendo, e é até bizarro de responder a isso porque ele sempre tinha umas viagens em relação a escrever. Quando não escrevia, desenhava. Lembro até de um episódio dele, quando era bem pequeno, uns quatro anos, e desenhou uma figura do livro e, puta merda, ficou idêntica! E as professoras contestaram, disseram que ele tinha colocado por cima, copiado; porra, lembro-me que ele ficou totalmente puto, xingou a professora por desacreditar dele. Levou uma advertência... Aquelas coisas pra criança: "seu filho desacatou a professora" mas, pra ele, aquilo foi um absurdo, ele realmente levou muito a sério.
- Alguns amigos dizem que ele tinha muitos medos, é verdade?
- Sim, é, embora ele nunca tivesse dado o braço a torcer, ele era muito medroso, e eram medos que na maioria das vezes eram abstratos. Ele tinha mais medo de espíritos a noite do que ladrões. Para ele, era pior acender uma lâmpada repentinamente a alguém bater à porta as 3 da manhã. Mas ele não falava muito de ter medo... Acho que por ser muito orgulhoso, de fato ele era bastante orgulhoso, e, quando a depressão aflorava, ele se sentia um bosta. Dizia que não gostava muito das pessoas, de viver, e que tudo o entediava. E de fato parecia ser verdade.
- Você esteve com ele todos esses anos e até mais ou menos perto de quando ele morreu. Sabe se ele estava com medo?
- Não, não, ele estava muito bem. Sua esposa, filhos, família... Enfim, estavam todos ótimos, e ele não se preocupava. Também não teria como, né, ele não ia prever uma morte tão casual assim. Ele sempre teve medo de saber que ia morrer, de ficar velho... Honestamente, acho que morrer assim, repentinamente, para ele, foi como um presente de Deus.