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sexta-feira, 27 de julho de 2007

- os traumas de emile

Emile e eu nos sentamos tarde da noite para brigar às custas de nossas diferenças casuais e que de fato valia discutir.
- Você deveria se cuidar mais. Diz querer ter filhos e querer netos, mas não cuida do seu coração - reclamou em timbre alto para que todos à volta soubessem que eu não seria um avô dedicado.
- Você sabe, gosto de fazer apenas o necessário.
Emile reprovou com um não sincero balançando a cabeça e acendeu um cigarro. Naquela hora pensei em falar mal de seus pulmões, mas ela estava muito bonita para eu a reprovar naquela noite.
- Sabe de outra coisa? - apontou nos meus olhos, tragou lentamente antes de pronunciar o que me deixaria nitidamente emputecido.
- Você é bastante egoísta. Parece um velho precoce.
Que mulher ufana, pensei. Confesso que precisei me conter para não ralhar com ela sobre essa incrível capacidade de se achar tão perfeita e com intelecto suficiente para falar mal dos outros sempre achando que a razão lhe cabe. Ela faz terapia há três malditos anos porque seu bendito namorado do colegial descobriu que na faculdade as mulheres davam mais fáceis do que ela -e, que segundo ele, faz um drama quando se trata de sexo.
Eu nunca me importei com os sermões malogrados de Emile porque sempre soube que eram feridas do seu ego mal amado. Mas devo confessar que acho de uma puta falta de senso quando ela compara as suas experiências mal resolvidas com as minhas dizendo que somos todos farinha do mesmo saco. E sempre a bendita termina dizendo, "Você sabe, eu tenho razão, já vivi o que você está pensando em viver.". Porra, se não me fosse a educação do momento eu soltaria umas verdades fundamentalizadas pelas conversas que tive com Evandro, o bancário que a acertou no meio.
Emile acha que três minutos gemendo debaixo de um homem bastam como experiência de vida. Sempre me vem com conversas pós-sexo que presume a definir como a nova filósofa de teorias dialéticas. Evandro disse-me que ela adora conversar sobre o futuro acompanhado do parceiro de travesseiro. Também me confessou que, Emile, depois de um papai e mamãe dos mais aflitos e precoces, disse a ele que já estava na hora de trocar as molas da cama porque aquilo acabaria com a coluna dela e que o lustre retrô desfavorecia a luz do ambiente a cegando quando olhava ao teto durante o coito.
Porra, pensei, não sei quem é mais ruim de cama, até porque, Evandro, depois de desconjurar a ninfa arquiteta, disse-me que naquela noite tudo deu errado porque a contabilidade e as consultorias iam mal das pernas em seu departamento de gerência do banco.
Um pensando no colchão king size para a coluna e lustres que façam dormir como um anjo tragado pela luz branca do paraíso e o outro que pensa nos clientes - de quatro, talvez - que o fará rico com as maletas gordas.
Seria melhor e mais justo para os dois alegarem dor de cabeça e dormirem cada um com os seus problemas.
- Em que você está pensando, homem? Vês, por isso que todo mundo diz que você não irá a lugar algum. É um avoado das idéias. Enquanto te falo coisas importantes, você fica aí se desgraçando com esses pensamentos baratos!
Quem essa decoradora do prazer, arquiteta das noites, se tornou? Se ela soubesse metade do que pensei já teria me abandonado nesta mesa me xingando e condenando às suas amigas e amigos de todos os cantos que ela pudesse profetizar as minhas confissões que a difamaram, porque, como sempre, ela é a vítima e a poderosa, tudo no mesmo instante, basta saber qual a favorece.
- Emile, você não vale um puto furado. Nem mesmo as palavras que fala.
- Você sabe que tenho razão, não tente me fazer de idiota, meu querido, sabemos quem não vale o que come.
Emile sempre acha que me traga nas suas invasivas de blefe. Ela acha que a vida é uma partida de truco. E ainda pisca, sempre, depois que diz uma frase de impacto achando que aquele foi o zap. Eu rio, até porque se eu a xingar, difamar ou mesmo insinuar algo que a condene, ela acabará com o espetáculo fechando as cortinas e dizendo para eu ir embora, como sempre acontece toda noite que se é possível tentar conversar.
- Minha terapeuta disse que eu devo esquecer o Evandro saindo com outros homens.
- Você não precisava ter pago cento e cinqüenta reais para ouvir isso daquela velha quase surda. Eu disse isso a você.
- Eu sei, é por isso que estamos aqui, querido.
- Não entendo, passei de avoador barato para príncipe em corcel alado rápido demais.
Senti que ela se perturbou por mexer nos curtos fios da franja. Apagou o cigarro. Baforou na minha cara e disse:
- Você sabe, nossas diferenças nos aproximam.
- Sim, sei... - Na verdade não sei de nada, só disse isso para saber como ela concluiria aquilo tudo, já que expressava nos olhos uma súbita e leviana confissão que só lhe caberia me comprazer naquele momento.
- Reformei meu apartamento. Comprei um novo lustre, um colchão de molas... Ficou lindo, querido.
Naquele momento tive que rir. Pelo flerte e pelas nuances que ela retratou. Era claro, evidente e mais que notório que ela gostaria de curar as tardes de divã que pagou por causa do bancário.
- Como você é ridícula, Emile. Você consegue ser mais egoísta que eu. Comprou uma cama de molas e um lustre!
- E? O que isso tem a ver com egoísmo?
Claro que ela não entendeu, eu tinha que falar, mas já preparava para partir em retirada depois das verdades. Antes que ópio me tomasse gosto na boca trazendo junto a covardia, tratei logo de incinerar a ponta do charuto e me levantar. Assim que baforei nas ventas dela respondi:
- Não precisa de mim. Acenda a luz e pule na cama, você se divertirá mais. Você acha que eu vou até seu quarto para assistir a você gemendo ao novo lustre e às molas?
Pisquei para ela. Sai sem olhar para trás.
Dias depois, encontrei Evandro. Disse-me que ele e Emile haviam se acertado porque ela implorou perdão chorando. Mas ele não entendia uma coisa: por que diabos ela adquirira o hábito de fumar charutos depois do coito?