Páginas

- o que você procura?

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

- o velho e o pai

Sentado em sua cadeira de balanço rústica do começo dos tempos que ele vira muito bem passar, aguardava ao pôr-do-sol, acompanhado do ranger e a sinfonia das marchinhas do rádio à pilha que funcionava de tempos em tempos, quando não havia incidente de tempestades.
Nas suas mãos calejadas segurava uma caneca de bronze amassado pelos brindes comemorados de outros tempos bastardos que nem mesmo sua memória lhe dava conta de lembrar. Ali ficava, sem perceber as horas passarem, olhando circunstantemente para o mesmo ponto do horizonte que, naturalmente, com a obra da rotação terrestre, que, claro, lhe era desconhecida, se incumbia de mudar as cenas de cores nauseantes e trazer a noite de ventos fortes que atravessava seu pomar de narcisos e camélias e sua horta de poucas sustâncias a misturar no meio das ervas-daninhas devido aos maus cuidados que ele sabia muito bem ter cometido, mas que não corrigia porque as pernas já não o obedeciam mais.
Calçava uns chinelos de odor forte por não ser muito assíduo aos banhos. Trocava as roupas íntimas de quatro em quatro dias e sempre costurava um remendo novo a cada lavada de cuecas e meias.
Naquela noite, em especial, que trazia chuva, o velho estava com a sua melhor calça e cueca que havia comprado cerca de oito anos num armazém-brechó da região. Dizia ele, quando ainda falava com o povo da redondeza, que suas calças foram de um homem muito homem que ali viveu e guerreou, depois casou-se com uma índia das mais vermelhas e fogosas, levando-a ao altar num terno de linho branco e com aquelas calças que anos depois de sua morte a levaram ao armazém para esquecer a memória do morto. E agora eram suas, com louvores da premissa e superstição em questão.
Não lia uma vírgula sequer porque achava que a razão dos homens e seus papéis com regras descabidas não tinham valor no seu mundo atrás das cercas da campina. Sempre aprendeu observando o velho pai que falava pouco, esbravejava muito e lhe cobria de cascudos quando não atendia de certo o que lhe pedia, resmungando e mascando sempre seu capim-gordura que lhe dava um ar de robustez como um touro bravo.
Hoje, velho e aprendido segundo os costumes do senhor seu pai, que lhe cuidou bem na falta de sua mãe falecida, por ter lhe parido antes da hora, assistia àquela nostalgia da vida quando lia nas nuvens e nos raios cegos que lhe cortavam as retinas, estórias de tempos passados que há muito não ouvira mais.
Estava ali, sempre, mesmo não estando nunca.
E, mesmo com a caneca vazia, a garrafa de café de ontem, assistia aos fins aguardando outros começos, sem se queixar do vento que, por aqueles lados, sempre eram fortes por demais. Se cobria sempre com uma velha manta, também cheia de remendos, iguais em quantidades das suas cuecas, meias e a calça maltrapilha que pensava ser sua melhor. Nesta noite, em especial, o velho trazia no rosto um humor diferente dos dias anteriores e até mesmo diferente dos demais dias já vividos em seus oitenta anos de capão. Ele admirava o vento em sua humildade e simplicidade natural sem questionar o porque da chuva que sempre acontecia em seguida, mesmo temendo o destelhamento de sua casa alenta, feita de barro cozido e restos de pedras de trilhas nas quais andou em sua vida.
Por alguma razão que ele mesmo desconheceu, mesmo seu pai tendo lhe ensinado tudo que Deus mandou, a chuva se iniciou com um presságio de suas lágrimas. Diferentemente da salobra que escorria de seus olhos, a chuva era doce, mesmo sendo ácida e forte, e o velho riu para ninguém mais que ele mesmo.
O balanço de sua cadeira se tornava mais constante e o ranger diminuía à cerca que o vento assoviava cortando o vácuo do vale. Seu rádio emudecera devido a forte chuva, mas, mesmo assim, em seus pensamentos nostálgicos, ele conseguia ouvir as marchinhas de carnaval que, uma vez na vida, presenciou e riu até soltar as tripas mijando nos ombros do pai que o carregava empuleirado nas costas com a única intenção de fazer o filho miúdo enxergar as moças colombinas e os homens pierrots que adentravam à avenida principal da cidade numa muvuca frenética de aplausos e assovios. Naquele dia, o pai não lhe deu cascudo algum, nem repreendeu o desaforo do mijo com nenhuma bronca, porque estavam felizes ambos, já que nunca haviam visto na vida uma marchinha como aquela ou como alguma outra.
Esses pensamentos todos lhe invadiam os olhos carregados com o peso da idade e das recordações tantas que podiam desvencilhar como num filme mudo, repleto de falas, dentro de seus olhos.
O vento assoviava cada vez mais alto por dentro do vale, tremendo casas, arrancando galhos e arbustos velhos que já não tinham resistência devido a seca dos tempos anteriores. A chuva engrossara e o velho, por sua vez, não fazia nada além de repousar sob o horizonte sua visão frígida de um momento que não aquele, mesmo sendo aquele que, sabemos, ele não via, mesmo diante de seus olhos.
Lembrava de seu pai uma vez mais lhe contando sobre as chuvas, sobre como podar as flores e regar a horta que eles plantaram e cultivaram juntos. Talvez o velho agora compreendera que ensinara ao seu pai mais do que o pai poderia um dia ensinar a ele. Compreendeu isso ao recordar a robustez de seu pai que se tornava branda sempre que os dois adentravam ao jardim, pomar e horta. Via que dentro do velho pai havia um pudor que se desfazia toda vez que se sentava para apreciar as flores que cresciam respeitando o tempo de seu desabrochar. Também sorria com a confusão que via o filho fazer com o nome das verduras e legumes que regava pelo chão.
Hoje, este filho de oitenta anos, assistia ao vento que levava para os céus todas as flores e vegetais que se podia arrancar pelo caminho e que um dia, lá atrás, ele teria chorado se algo ameaçasse machucar seu imaculado cultivo. Agora, ele ria.
O vento invadia o seu pequeno espaço, três cômodos amplos, embora mal-feitos. Dentro da cozinha escutava-se as panelas que batiam violentamente umas contra as outras, derrubavam uns poucos copos do armário e depois o armário. Agora, próximo ao velho, numa velocidade exorbitante e forte.
E o velho de pernas fracas, não podia e nem conseguiria fazer nada.
Buscou no pensamento algo que lhe trouxesse conforto e calmaria, mas não soube como se expressar. Caiu no chão, desengonçado e dolorido, e ali ficou sem pestanejar. O vento destruía tudo e ele não podia fazer nada senão olhar.
Lembrou uma vez mais de seu pai, quando morreu no jardim a enfartar. Correu para resgatar o velho, mesmo não tendo muito para ajudar. Seu pai disse que não tinha jeito, que, nesse mundo, não importa o tamanho da ajuda, sempre somos sozinhos para morrer.
Então o filho ali permaneceu e assistiu ao último suspiro do pai, sem reclamar nada. Enquanto o pai se consumia ele pensava em choramingar suas desculpas descabidas, mas o pai então lhe segurou forte as mãos e resmungou suas últimas queixas e sabedorias para o filho gravar. "Hoje tens barba como eu, já podes se virar. Ensinei a ti o que Deus me deu, então é bom não se esquecer jamais." O filho ali permaneceu e, algum tempo depois, quando pensou em se levantar, o pai ainda lhe disse, antes de sucumbir, umas palavras que ele não pôde se esquecer. "Deixe-me aqui, o vento se encarregará de me enterrar, o mesmo digo a ti, que findará só, nesta campina grande, Também o vento será responsável por te guardar."
Então o velho compreendeu seu fim, ali, prostrado ao chão de cascalho e terra batida.
Sorriu. Viu o vento cortar as frutas, as verduras e legumes que ainda sobravam, e viu adentrar uma vez mais a sua casa que estremeceu até rachar. O velho fechou os olhos e aceitou o fim.
- Tem razão, meu pai, morro aqui no nosso lugar.
A casa lhe caiu sobre o corpo. Ele assistiu às dores sem sequer gritar. Quando por fim morreu em paz, na nostalgia de seus dias, o vento se foi pela campina.
O rádio, no meio dos escombros, voltou a funcionar, e tocou na despedida, a mesma marchinha que o velho escutou quando era filho nas costas de seu pai.

Um comentário:

  1. eu imagino que em tempos antigos eu teria especificamente essa mesma relação de pai e filha ao qual relata no texto, e pretenciosamente digo que as marchinhas seriam ouvidas ao pé da minha orelha com meu astuto e querido pai!

    sabe que gosto dos seus textos certo? Esse de hoje me deu uma sensação glamourosa, já que alem de ser dia dos pais, consegui me imaginar em tal situação, e sentir o cheiro de grama com chuva!

    quanto tempo nao venho aqui, desculpe-me pela ausencia, estava com problemas de internet! beijos beijos!

    ResponderExcluir