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terça-feira, 25 de setembro de 2007

- aborígene cortês, cidadão nativo

Do lado de cá de onde habito, existe um povo de eco.
Um âmago sem paixões. Um vento seco.
Tem aqui povo que sempre bebeu água barrenta,
que se alimenta de raízes, dos animais apenas o leite gorduroso lhes sustentam.
Antropofagiam o inimigo e, daqueles que se acovardam,
lhes cospem na cara e arrancam os olhos vivos.
Se você ousar vir a este lado, venha desnudo de pecados,
de qualquer anseio ou tratado que um dia tenha aprendido na terra que te fez criado.
Não carregue armas belas, não há entendimento,
tampouco um heróico prestígio por carregar consigo tal flagelo.
Se quiser falar, não levante a voz,
não de ordens e não tente saber mais que o nosso ensinamento. O eu aqui é nós.
Como vocês, do lado de lá, seres desumanos,
se dizem humanos e deixam faltar alimento e água para uma família morar?
Não entendo porque constroem casas de tijolos, escravizam outros povos,
só para se vangloriar e rir dos deuses deles – imaginários, vejam só, tão mentirosos.
E aquelas máquinas de ferro que derrubaram tantas arvores, desabrigaram animais?...
Depois constroem um tapete, um chão negro,
onde a água corre a seco e não tem onde represar.
Tem também os pássaros de aço que pousam num saudoso espaço
e cospem centenas de homens apressados com suas malas de compromisso.
E como gostam de um tumulto!...
Destroem todo o absurdo criado por causa de um mestre que diz ter poder oculto.
Às vezes, atravessam para cá, vêm todos de branco.
Como fantasmas mascarados, ofertam um bocado de pano
para cobrir o nosso arbítrio leviano,
trazem uma vespa com uma picada de ferro
que dizem curar até os castigos lançados pelos deuses em um adultério.
Quando aqui, dizem estar na terra dos injuriados,
se protegem com um bocado de creme preparado,
só porque acham que as moscas vão lhes sugar até o cu mal lavado.
Reclamam das casas de palha, do barro, da falta de aconchego,
mas é pra cá que correm quando o stress lhes corrói.
E roubam nosso sossego.
Caçam nossos animais como se fossem troféus de peso.
Sujam nossas águas como se fossem bueiros,
sem perceber que estão destruindo um bem comum ao mundo inteiro.
Não entendo.
E no meio da noite, sem a luz do bulbo, eles se borram de medo,
rezam para o seu deus pai e pedem paz ao mundo inteiro.
O que não cabe na minha cabeça é:
Que paz é essa que coloca todo mundo preso no seu próprio anseio,
no desespero para uma liberdade que não encontra conforto e faz do mundo um cativeiro?

Um comentário:

  1. Já tinha esquecido do gosto dos teus textos...ainda bem que passei por aqui.

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