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terça-feira, 4 de setembro de 2007

- agulhas e borrões

Algumas crianças brincavam lá fora, na calçada, e ela se sentou em sua cadeira de balanço, sob repouso de sua jabuticabeira favorita, e ali ficou, para coser algumas de suas velhas vestes.
Não sabia ao certo até quando ficaria ali. Ela ficava ali, esperando qualquer alguém que passasse e a cumprimentasse, ou entrasse para conversar. Às vezes até reclamava, palpitava ou balbuciava algumas palavras impronunciáveis e confusas, como se conversasse com alguém nenhum.
Por se sentar escondida atrás da jabuticabeira, as pessoas que passavam e nada viam tinham motivos suficientes para dizer que ali morava um defunto qualquer, macumbeira que fosse!
Naquela manhã, enquanto rematava seu xale cor púrpura, caiu em seu quintal uma bola de couro surrado soltando as lapelas. Percebeu ser das crianças quando escutou um silêncio daqueles que significava estamos-fritos-perdemos-a-bola-!
Ela nem sequer se moveu da cadeira de balanço. Ali ficou, esperando alguém gritar seu nome no portão.O que não demorou muito.
As crianças todas se amontoaram e espevitavam para saber onde raios a bola teria caído.
- Poxa, aquela velha deve ter enfiado a agulha na nossa bola, do jeito que é treze!
- Não. Acho que ela vai pegar pra fazer macumba... aquela bruxa!
- Eu não quero nem saber, quero a minha bola de volta! Nem que eu pule essa merda de portão.
A senhora, ria para si.
Por seu jardim ser repleto de plantas, flores, ervas, árvores velhas e novas, parecia mesmo que se estavam olhando para um cenário da Inquisição.
Os pais de alguns meninos ainda ajudavam bastante na reputação da velha dizendo “Esse traste de mulher já passou da validade e só por isso deixa a mesma impressão da casa! Não sei por que não contrata alguém para carpir esse lugar podre, imundo!”
Por isso mesmo a senhora não se preocupava, sabia que todo mundo dali, por não a ver andando na rua, como as outras dondocas de meia idade faziam, com seus guarda-chuvas e mortalhas de luto eterno. Ela não.
E naquele dia, como outro qualquer, sentada com a sua solidão de agulhas e forras, esperou que algum dos meninos se manifestasse.
As crianças berravam nomes cabalísticos por não saberem o nome da senhora.
- Ô velha, pega nossa bola, faz favor!
- Traz a bola aí, Dona.
- Joga a bola de volta!
Quando desembestaram a gritar ao mesmo tempo, alguns lançavam ofensas furtivas e perdidas em meio a um pedido de ajuda do tipo “Pega a Bola - Sua Bruxa - pra gente, por favor!”
Ela não se mexeu. Ficou ali, rindo, cosendo seu xale.
Eles ainda invocaram o chamado do que achavam ser a maldição em pessoa por alguns minutos até se cansarem, desistirem e ir cada um para as suas casas, só ficando em fronte ao portão o dono da bola. Emputecido, claramente, pelo prejuízo.
- Vou tentar pular este portão! Não tem ninguém vendo, ela não deve estar. E se estiver deve estar surda, velha maldita!
Armou o bote para cima do portão, escalando cada grade numa sutileza métrica. Não queria que ninguém o visse, de maneira alguma.
Quando domou o portão e pulou para dentro da casa, ele colocou a mão no coração para saber se ainda estava em condições de poder andar sem bambear. “Porra, isso daqui é alto pra cassete... quero só ver como vou voltar!”
Encafifou-se para dentro do jardim que, para ele, parecia um labirinto, mas não pensava em desistir. “Nem Clint Eastwood, nem Jones teriam a coragem que estou tendo!”
Procurou por alguns minutos, mas não via nada em lugar algum. Foi quando optou por mudar de direção e viu, encostada debaixo de uma árvore de jabuticabas, uma cadeira de balanço enorme e rústica, com alguns rolos de novelo e um xale púrpura descansados por ali. “Essa velha deve de estar por aqui!”. Rodeou a cadeira. Tocou. Era mesmo verdade. A velha existia. “Mas aonde será que foi?!”. Calcou o queixo com seu dedo indicador, e, assim como Holmes, disse algumas palavras poucas: “Elementar que ela foi enterrar a minha bola para a próxima macumba! Ou a transformou em linhas para coser estas mudas de roupa!”. A curiosidade louca o fez distrair-se enquanto embaralhava as linhas, mexia no xale e até ria em pensar que alguém, de que tanta ouvira falar, tinha um bom gosto para vestes.
- Mamãe ia gostar disso.
Se perdeu nos minutos e por ali ficou, quando identificou as jabuticabas, as comeu sem pensar se estariam envenenadas, amaldiçoadas ou com gosto dos mortos. Esqueceu-se completamente da sua suspeita de maldições faceiras.
- Gostando das jabuticabas, menino?
Que frio na espinha. Que vontade de cagar, mijar, vomitar! Tudo de uma vez só e nada ao mesmo tempo! Bambeou até o cóccix. Não dizia palavra alguma, ali ficava imóvel, não conseguia engolir as jabuticabas, não conseguia responder alguma coisa para a velha que trazia a sua bola nas mãos.
- Se estiver com fome, coma mais, são boas, as melhores desse jardim!
O garoto não conseguia conter seu pânico e ao tentar dizer algo se borrou inteiro em todos os sentidos.
A velha riu, riu alto, aqueles risos que causavam pânico, e foi o suficiente para que o garoto mijasse, cagasse, tremesse mais ainda.
Quando ela se deu conta que o pequeno era só medo, ela parou e se sentou esperando o garoto voltar a si.
Não disse uma palavra, ali ficou, cosendo o xale. O garoto parecia ter visto a Medusa e não se mexia mais, sua boca escorria a baba com jabuticaba e seu mijo e merda já escarneciam o cheiro aos narizes dos dois.
- Chega, garoto! Chega! Diga algo, já estou criando úlcera!
Ele então mudou de posição, limpou a baba e se envergonhou da falta de coragem de responder o que fosse aquela velha caquética.
Gaguejou bastante para conseguir completar uma frase.
- De-de-desculpe, Dona, só-só-só que-queria minha bola.
- E eu não sei, pequeno!? Acontece que eu a estava costurando. As lapelas soltavam todas, quis te entregar nova em folha.
Ele não disse nada. Não teve mais coragem.
- Agora vá embora, garoto, quando quiser volte para comer mais jabuticabas!
Ele concordou com a cabeça e saiu devagar.
Antes de tentar pular o portão, a velha disse: “Não precisa entrar como ladrão, jovem, meu portão nunca esteve fechado, apenas gire a maçaneta!”.
Ele saiu.
Teve vergonha de se ver mijado, cagado, fedido. Mas teve mais vergonha ainda de ter, junto com os amigos, escarnecido a velha todo esse tempo.
Ali ficou com a bola na mão um bom tempo, olhando para a rua vazia. Suspirou, olhou para si, olhou à bola e riu.
- Se eu soubesse que a Bruxa tinha jabuticabas, meu amigo, juro pra você, teria me cagado cem vezes mais, me mijado outras mil, mas teria entrado antes nesse lugar!