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terça-feira, 4 de setembro de 2007

- sem pudor

Deitou-se na cama. Esperando o homem que sairia do banheiro.
Abraçada aos travesseiros, ela consentia alguns pensamentos que ansiava em vomitar por horas na cama de quem fosse.
Suava frio. Rezava baixo. Mesmo não conhecendo nenhuma de oração.
- Um tiro entre os seios - rezingava ela - é o que mereço.
De quando em quando se lembrava como costumava brincar com as suas amigas e suas bonecas de porcelana.
Alucinavam-se aguardando o príncipe encantado. Treinavam beijos de cinderelas em seus joelhos ou nas palmas das mãos encardidas de bolinho de terra.
Agora, na cama, nua, não sentia mais aquele delírio de menina a espera de cavaleiro alado.
Havia descoberto que os beijos não têm gosto de bolinho de terra nem de pele de joelho liso, mas sim dos dois quando se arrebenta num tombo e sangra. Gosto de sangue.
Os príncipes sem encanto jamais vieram lhe levar para uma volta no corcel alado. Ao invés disso a montavam como se fosse uma égua a galope.
Nunca lhe deram um vestido de princesa. Apenas calcinhas e lingeries de outras mulheres.
E sempre a chamaram de puta. Pagavam para isso.
Já não queria mais estar ali, vulnerável a quem pudesse pagar. Ansiava a proteção dos tempos de criança. O príncipe em seu corcel.
Envolveu-se no lençol podre e, antes que pudesse ouvir o homem gritar no quarto do motel, ela correu para as escadas dos fundos, para o beco mais escuro, ao canto mais úmido, para chorar sem pudor. Se sentia vil. Uma virgem de tantos hímens quantos necessários para se romperem naquelas lágrimas de sangue violado.
Sentia frio. Sentia medo. Sentia que o diabo a amava mais que todos os anjos e quis morrer uma vez mais.
Dormiu com todos os vilões de seus pesadelos e nunca reclamou. Nunca cederam a ela um príncipe. Nunca.
Era como ser apunhalada nas entranhas toda vez que se dormia com um deles. Era como se sentisse envenenada toda vez que tentavam lhe beijar. Era como se a condenassem anos mais no inferno toda vez que lhe pagavam pelo prazer.
"Que prazer, porra?"
Abortou inúmeras vezes seus pecados sufocados no útero. Ninguém soube. Ninguém a condenou. E se a condenassem ela sorriria porque estar no inferno vale menos que qualquer pena. Agora ali, no escuro do beco, ouvia-se lamentar de tudo. De todos. E de ninguém concreto. Seu príncipe, seu vestido caro, seu beijo de bolinho, queria que tudo jazesse no seu lugar no inferno.
"Filhos-da-Puta!"
Vomitou. Levantou-se limpando os lábios e correu para a redenção.
Subiu as escadas dos fundos e quando passara em frente ao seu quarto viu o vilão abrir a porta do banheiro e gritar:
- Para onde vai sua maldita?! Paguei por uma hora inteira!
Exasperou-se, tropeçou no lençol. Caiu. Não se importou com a dor e o sangue de suas pernas. Eram menores que sua dor do íntimo.
Correu para o alto do motel, às lajes.
Saltou. Se viu princesa enquanto caia, seu vestido de gala das cores do lençol.
E antes de morrer, ali, ao chão. Viu seu príncipe descer do cavalo metálico, preocupado.
- Estava te procurando moça. Escutei você gritar.
Ela riu.
- Tenho gritado há tanto tempo... Só agora você consegue me encontrar...

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