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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

- Senhor

Não há nada que eu possa descrever como sendo natural no meio de tantas casualidades. Até porque navegamos sem remos e, quando o vento cessa, você diz que é o mar quem parou de conversar com o céu dos ventos. Você gosta tanto de resmungar; reclamar das coisas alheias que pouco entende quando quer explicá-las ao mundo. As palavras lhe foram castas, embora a vivência seja única e de grande valor.
Ontem eu o vi olhando para o chão, estarrecido, taciturno. Perdido em passos descompassados, como um bêbedo que vem dançando sem um par, numa rua sem vento, em que o vento o carrega para todas as direções. O Sr., com esse sorriso pálido, escarnecido de terror e medo, passou pela minha porta e nem me cumprimentou com o oi diário. Pensei em acompanhá-lo até a escada que desceu trêmulo, respeitando o vento que parecia vir de dentro.
Meus filhos me chamaram a atenção quando gritaram ao Sr. e, novamente, se pareceu perdido ao olhar para o chão e desprezar-lhes a atenção da inocência que carrega um oi sorridente para quem tanto lhe quer bem.
Para onde ias, meu Senhor? Talvez fosse ao bar curar as mágoas...
Não, não foi.
Passou despercebido pela mesa de truco, onde gritavam "seis, porra!" e respondiam afoitos outros bêbedos sujos, com os dentes necessários para chupar uma cana, "nove, cassete!".
Você nem notou quando derrubaram o velho por lhe colarem a carta maior na testa.
Fiquei dali, do fim da escada, acompanhando o Senhor, que descia a ladeira com as mãos no bolso da calça batida da tarde de ontem, amarrotada pelo sofá de hoje de manhã. No céu, sobre sua cabeça grisalha, pássaros de papel de seda armado, voavam e se prendiam aos fios. As crianças ao redor, cirandavam-no esperando ao chão aquele pássaro colorido que tinha uma rubéola de plástico.
Passou em frente de tanta gente, mas não viu ninguém.
Uma vida segredada. Transpirada pelas vestes sujas, sandálias de couro de chita e uma fivela de cinto de corvin.
Um mundo, só, é sempre mais mentiroso que um mundo a dois. Sabes disso, mas não confia nas mãos cedidas. O vi contornar a esquina no fim da ladeira. Quem sabe aonde foi? Pode ser que não tenha ido a lugar algum. Ou ido a muitos.
E mesmo indo nunca ao lugar de sempre, sabes bem, Senhor, que não lhe cabe suficientemente a pena de dançar com o vento.
Chorar para as sarjetas os dias seus que foram de ninguém.
Não há convites para almoços. Não há mulher que coza em casa. Não há filhos com presentes. Há você, Senhor, indo buscar no estreito de algum lugar, um nada cheio de surpresas que não sabe onde guardou.