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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

- vidas secas

Tem no meu prato
Uma mosca sem a sopa,
Uma colher de hiato,
E fome de aguar a boca.

Na mesa o que não falta
É espaço pro alimento,
E no estômago sobressalta
A lombriga e o enfraquecimento.

E no bolso que não está furado
Tem um dinheiro que meu pai deixou,
Estava debaixo do colchão rasgado
Por tanto tempo que desvalorizou.

Meus filhos pra não terem fome
Dormem quase que o dia inteiro,
Só acordam quando o sono some
Por causa de um pesadelo.

Já me contaram que sonharam
Com uma terra farta de aguaceiro,
Mas quando eu vejo o que nos deixaram
... Mandacaru, xique-xique e nevoeiro.

A gente até que se vira bem
Nesse sertão de calor e vento.
Mas tem hora que a dor vem
E acaba até com o lamento.

Já tem gente até rezando
Que não é nem pra chover um dia!
É pra que o que está queimando
Seja melhor do que o que chovia!

Todo mundo aqui chora
Quando nasce algum rebento,
E ri quando vai embora
Desse ardido sofrimento.

Às vezes eu dobro o joelho
Procurando uma saída,
Um milagre, um conselho,
Alguma coisa pra nossa vida.

Vou cuidando do que ainda tenho
Enquanto não vem o livramento
No pouco que eu mantenho
Com as crianças e meu jumento.

escrito em: Segunda-feira 08 de Outubro de 2007,0h40

4 comentários:

  1. Que lindo, Gustavo!

    E que discrepância! Acabo de assistir "O homem que desafiou o diabo".
    Teu poema tão real em sua crueza e o filme a pura caricatura dessa gente. Uma comédia.

    Boa poesia.
    Bom filme.

    Escrever é realmente um prazer incomensurável, é como comer, beber, dormir...altamente necessário.

    beijos

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  2. "Todo mundo aqui chora
    Quando nasce algum rebento,
    E ri quando vai embora
    Desse ardido sofrimento."

    Muito bonito e profundo,Gustavo.

    Ja que gosta tanto de cafeina, passa la no meu blog, pra tomar uma xicara de cafe!

    abraço!

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