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terça-feira, 6 de novembro de 2007

- carmen

Isso tudo é sobre como perdi minha namorada. Como terminei na estrada à procura da minha redenção.
Abri a janela do carro. Aumentei o volume do rádio: Joy Division, minha inspiração.
Essa noite me saiu cara. Estava bêbado. Ia começar a madrugada, quando flagrei Carmen com um cara no porão.
Separei ela do safado. Lhe dei uma lição. Dois tiros nos bagos. "Se contorça pelo chão!".
Olhei para Carmen. Ela tremia e gemia como nunca e - cara - não era de tesão.
Os deixei lá. Voltei ao carro. Rádio ligado. Love Will Tear Us Apart, bem alta, pra calar os gritos do mal logrado e de Carmen que implorava ajuda, atormentada de aflição.
Já longe, no caminho, lembrei de Lourdes. Amiga de Carmen. Saberia ela alguma coisa?
Fui até a casa dela. "Acorda sua cadela!" Sexo. Vingança. E indignação.
"Amanhã ela conta pra Carmen!". Me dedura, em nome da amizade pura, sem segredos, na hora da confissão. "Carmen agora tá na merda!" E eu rindo de desgosto. Quanto mais me fodo, maior minha contradição.
Melhor não voltar pra casa. Dar uma volta pela estrada. Twenty Four Hours extravasa. Tanto faz. Fora de mim. Devaneio. Longe da razão. E me bate um vazio. Sinto-me febril. E, quando penso em Carmen, tenho vontade de arrancar seu coração. She Lost Control ao meu silêncio. Se houver arrependimento que ela leve junto consigo dentro do caixão.
Me distraio com a estrada vazia. Ardendo em azia e vontade de vomitar, tamanha é a consternação.
Estaciono em um beco. Descanso meu arrependimento. Durmo um pouco agora. E depois me livro dessa arma, jogando-a num rio, ferro-velho ou num lixão.
No meu sono tenho um sonho. Onde vejo Carmen. Vejo Carmen e meu irmão. Me jogam terra. Dead Souls, eles cantam. Dead Souls. E repetem o refrão. E não usam pás. Não se importam. Eles me plantam ao chão usando as mãos.
Acordo assustado. "Puta sonho desgraçado!" Estou ficando alucinado com essa história de traição.
É então que percebo a arma no meu colo. Já estou atrasado pra me livrar da prova do meu crime. Guardo-a no bolso do meu blazer. Preciso acabar com essa situação.
Três horas da manhã. The Only Mistake estava rolando quando bati naquela van.
E nem percebi nada. Apareceu tão de repente na minha direção. Voei pelo vidro da frente. Esfolei no asfalto quente. Verti sangue até pela imaginação.
Pensei em Carmen. No meu irmão. Naquele filho-da-puta que arranquei os bagos. E em tudo que eu fizera naquela noite até então.
Vi alguém sair da van. Correndo à minha direção.
Era Carmen...
Voltava do hospital onde deixara o bastardo que causei humilhação.
Se aproximou de mim. Não falou comigo. Revistou meus bolsos. Levou consigo minha carteira e o revolver. Antes de se levantar ainda ajeitou meu blazer. - Que consideração.
Ela foi até meu carro e aumentou o volume do rádio. Atmosphere. Minha última canção.
Escutei a van indo embora. "É, Carmen... Sou eu quem estou na merda agora, você não.".
Um outro carro chegou algum minuto depois. Eu já estava quase morto. Mas assisti ao desespero da pessoa que fazia a ligação. "Uma ambulância, pelo amor de Deus!"... Era a voz do meu irmão.

7 comentários:

  1. gostei muito.
    dá até pra fazer um roteiro de filme!

    cada vez mais tenho certeza de ser uma grande sorte encontrar o Gustavo e sua sinapse.

    abraços!

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  2. Me senti afogada entre várias cobertas, num dia chuvoso, assistindo um daqueles filmes dos anos 80 na sessão da tarde ... muuuuuuito Donnie Darko hahaha

    :*

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  3. - eu não havia percebido, embora donnie darko seja um ótimo philme.
    você deve ter dito isso pela trilha sonora. pelo atropelamento. e pela morte.

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  4. se você continuar com a mania de analisar e deduzir, isso tudo vai acabar em morte, a sua.

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  5. aliás, textos com música são ótimos mesmo.

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  6. Muy bueno!

    Adorei...

    Carmem com ême é poesia em latim...bem, essa seria uma variação.

    até mais

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