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domingo, 25 de novembro de 2007

- o cômodo dela

Estava eu, próxima a janela,
pés nús, mãos entrelaçadas;
ao fim dos dedos uma chama
que entorpecia a alma
e anestesiava meus pulmões.
Ácida.
Náusica.
Estou fora do lugar.

Aqui do sétimo andar
as coisas passam devagar.
De olhos fechados
o tempo costuma nos confundir,
ás vezes, com o vento,
parece mais rápido,
quando mudo, vai lento,
ensurdecendo aos poucos a escuridão.

Hoje, eu ficaria nua,
mas acenderam as luzes da rua
e na solidão dos altos
as pessoas gostam de se procurar,
como se houvessem se perdido
ou perdido algo jamais visto,
e minha nudez, um segredo,
em pensamento, ou inconveniência,
física, abstrata, não importa,
à distância do silêncio.

As portas são furtivas ao pensamento.
Não há chave, tranca ou cadeado.
Fechamo-nos na segurança do íntimo.
...penso irradiando a cena.
Muitas me doem, algumas me excitam.
Meus olhos são duas janelas vivas.
Nelas a chuva vem de dentro,
e os outros apenas notam
quando já afoguei minha menina.

Me sinto como um vidro embaçado,
pós-neblina, chuva fina,
dessas que embaçam a retina.
Retina eu.
Estou embaçada, fria, úmida.
Como um fungo.
Estou presa...
Quem sabe uma cortina,
com o vento que chove a me molhar.

Os dias cinza me trazem vida
como se eu fosse um cômodo,
dispersa em qualquer lugar.
Sou uma lamparina,
uma luz de cima,
dispersa e fraca,
confundida com um lume
de distância sem lugar.

Ah se eu fosse viva,
se estivesse nua,
indistinta da noite ou dia,
eu seria uma janela vazia,
uma porta que não abriria,
com chuvas de épocas par.
e meu corpo, cômodo,
uma mobília rígida,
e, em mim, ir-me-ia morar.