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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

- maligno

Hoje de manhã, nessa cama de hospital, eu aguardo os que ainda vêm: Um padre, minha mãe e meu jornal. Sofrimento corrosivo. Saciação de sede pela agulha. E a janela dos dias... Me distrai sempre que me sinto mal.
Até para morrer tem que ser difícil.
- Já encomendamos o ataúde. Confortável. Cabe muitas flores de lírios e narcisos. E, ah! é do tamanho ideal!
- Por favor, tragam a morfina. Imaculem este sofrimento desleal! E por favor, fechem a cortina... Não sorrio para dias benignos. Meu câncer maligno. Meu estado terminal.
Já não tenho mais família. Filho e filha foram-se embora com a separação matrimonial.
E ontem minha ex-esposa esteve aqui. Romântica...:
- Assine logo os documentos de divórcio. E também as papeladas do seu Testamento Final.
Antes eu era viril. Um dos melhores atletas corredores da escola. Até ganhei bolsa na melhor faculdade estadual.
Hoje evacuo por uma sonda. Me alimento de um soro insípido. Pele e osso. Amarelado. Olhos fundos. Desfigurado. E daqui só saio carregado para uma necropsia no Instituto Médico Legal.
Que não me vistam em meu terno novo. Que seja aquele que sempre usei para ocasião especial.
Bonito. Frio. E fragoso. Com os lírios e narcisos. No meu leito-funeral.