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domingo, 3 de fevereiro de 2008

- um homem só

Sinto uma imensa vontade de vomitar por todo o cômodo. Como se não bastasse ainda estou suando como um porco velho. Meu odor escarnecido incinera o ambiente penetrando por todos os móveis. Meus poros dilatados e febris me incomodam imensamente. As gotas de suor que escorrem pelo meu rosto parecem ser resultado de toda rejeição física da minha anatomia sem imunidade, lutando contra minha vontade para permanecer sã.
Ora, que diabos!, tantas foram as vezes que tentei o dedo goela abaixo para me sentir melhor. E confesso como também gostaria de ver todo meu vômito espalhado pela cama, impregnando pelo lençol aquele odor azedo de consistência mucosa. Mas tudo que sou é esta ânsia febril que me entorpece lentamente, me fazendo débil.
As paredes úmidas parecem, como eu, estarem a secretar todo o torpor enclausurado de sua estrutura rígida. Por entre os cantos, perto do assoalho, é possível ver como as gotas escorrem e se acumulam para perto do carpete e, quando o encontra, umedece o seu tecido, deixando sua cor mais fúnebre e forte.
Diferentemente das outras febres não sinto o frio que estremece meu maxilar percorrendo a medula, encolhendo minhas pernas, e me colocando como um feto vulnerável, à mostra, explicito à contaminação. Desta vez é bastante diferente e meu ventre parece querer jorrar todo rancor digerido amiúde.
Eu que nem consigo falar, sequer murmúrio algum, sinto-me como se tivesse engolido o declame do mundo todo, e estivesse agora digerindo, palavra por palavra, sem entendimento algum, e isso me fizesse mal, de tal maneira que meus poros tentam agora se livrar de tudo e de todos, transpirando toda angústia reprimida.
Viro-me ao canto tocando a parede fria. Busco qualquer espaço que possa me aliviar o torpor da inflamação do íntimo. Reviro-me e tento qualquer posição a fim de me sentir menos incomodado. Mas não consigo. Ergo-me um pouco, sôfrego, já cansado do leito e de todo aquele suor fervido em cima do colchão, e me sento encolhido à beirada da cama, olhando distraidamente aos meus pés. Sinto por alguns segundos um prazeroso alívio quando os sinto tocarem o piso frio. Cassete, como isso é bom. Mas logo recobro a febre e meus pés parecem novamente quentes e inflamados.
Curvado eu me levanto e dirijo-me até ao espelho e analiso minha aparência. Toco vagarosamente todo o corpo empapado pela transpiração da febre. Eu não sei onde é a origem da dor. A todo toque sinto como se eu fosse um grande tumor, espalhando e contaminando-me aos poucos, para todos os lados, em todas as direções.
Apóio-me um pouco na cadeira e ao voltar o olhar para o espelho, percebo como o meu cabelo está totalmente ensebado e úmido. Jogo-o com as mãos para trás, e sinto, pesadamente, a dor da inflamação tomar conta dos meus ombros e do meu pescoço. Procuro rapidamente me sentar apoiando as minhas costas na parede fria. Debruço o meu braço esquerdo em cima da mesa e avisto meu isqueiro e meu maço de cigarros. Coloco um cigarro na boca e curvo a mão a fim de proteger a chama do isqueiro. Não consigo acender.
Meus dedos parecem não terem força alguma e, quando tento girar a roldana do isqueiro, meu punho se torna trêmulo. Sinto uma intensa vontade de chorar por me sentir inutilizado. Mas engulo mais este rancor. E como pedra, o choro desce à garganta purulenta. Como dói. De tempos em tempos tenho excretado um muco esverdeado junto a uns fragmentos de pus. Meu hálito é deprimente. Escarnecido.
Lentamente me levanto e direciono-me até ao quarto. Alcanço o guarda-roupa e sem muita opção para escolha visto minha camiseta branca. Cubro-me com o pulôver azul escuro e volto à cozinha para buscar a calça jeans que sempre deixo pendurada à cadeira. Certifico se há dinheiro no bolso da calça para não precisar recorrer às economias escondidas.
Preciso sair um pouco. Tomar um ar para melhorar meus pulmões, minha garganta.
Procuro pela minha chave em cima da mesa, atrás dos copos e pratos. Não é muito difícil de encontrá-la mesmo esquecendo sempre onde eu a deixo. Não há muito em meus cômodos para se revirar.
Ao sair, endireito a coluna empenada e busco logo o corrimão para descer as escadas. Lá embaixo, perto da porta central, está a dona do lugar. Com seus óculos grossos e oblíquos. Uma velha enrugada com um rabo enorme e flácido que dificulta seus passos quando caminha.
Assim que me notou descendo os degraus, lento e concentrado, ela negaceou balançando a cabeça. Tinha pena de mim. Odeio quem sente pena. Não há sentimento que demonstre maior fracasso e desgosto pelo indivíduo alheio. É preferível o ódio, portador da úlcera do rancor. Ou a indiferença, ataráxica.
Quando enfim desci as escadas e passei por ela, senti seu odor que rescendia pelo local. Um cheiro forte de naftalina, talvez impregnado no seu rabo imenso ou dos seus poros cadavéricos. Quem sabe dos dois.
Parei diante da porta e calcei as mãos no bolso. Olhei distante para a avenida inerte e vazia. Chovia umas gotas finas e imperceptíveis à minha vista cansada, apenas percebendo-as quando adiantei para a calçada. Assim que senti o chuvisco tocar minha face, encolhi os músculos e os ossos procurando me manter aquecido, mesmo úmido.
A velha ainda me acompanhou com o pescoço enquanto eu contornava a rua em direção a praça do bairro.
Era um lugar maltratado com bancos pixados, ruelas cheias de rachaduras e poças de mijo, fezes e vômito. Os arbustos eram usados como cinzeiros e estavam secos e disformes, sem flor alguma. Os bancos estavam todos vazios, embora sujos, e alcancei então o mais próximo para me sentar. Assim que fui recostando, me lembrei que estavam todos ensopados pela garoa, e qual não foi o meu azar e ignorância ao tentar limpá-los com a mão espalhando as gotas e as transformando numa camada d’água fina e consistente.
Que se dane, pensei, e sentei o meu traseiro. Olhava em direção a rua enquanto arqueava minha coluna no encosto do acento e procurei alguma forma ou movimento sutil para que pudesse me distrair. Não havia caralho algum.
Minhas têmporas começaram a queimar com o frio. E as narinas já assanhavam a mucosa pronta para escorrer. Senti como um chicote um ardor na face provocado pelo vento que convertia o chuvisco numa arma ardil e constante. Encolher-me não adiantaria e tratei logo de levantar meu rabo o mais rápido que pude, apoiando-me ao banco para tomar rumo a algum lugar coberto, quente e seco. O bar da praça, decidi logo.
Enquanto eu contornava o banco, notei que ali haviam dois cães trepando, e como se fosse uma criança, eu ri. Engasguei com o riso rapidamente por me faltar ar aos pulmões e comecei a tossir uma tosse que arranhava minha garganta, rasgando-a ferozmente. Sentia o muco desprendendo vagarosamente e descendo para as minhas entranhas, deixando na boca um gosto de sangue e sal.
Adiantei logo para a entrada do café-bar para me livrar daquele chuvisco infernal. Sentei-me numa mesa distante da porta e de qualquer janela, mas não me livrando de ficar perto do rádio alucinado que a toda hora tocava operetas argentinas. Emputecido e exausto ordenei logo uma dose de conhaque e uma porção de batatas.
No local não havia quase ninguém. Mas as figuras poucas que ali estavam honravam suas cadeiras. Todas pareciam iguais, vagas e incipientes. Amuadas, escondendo a cabeça entre os ombros, comiam e bebiam apenas porque se tinha que fazer isso e pareciam não se importar. Lá fora o tempo combinava com o nosso humor. Cinza.
Pensei que talvez por isso ali estivessem, apenas esperando a melhora do tempo para se irem todas. Mas depois eu percebi que não. Estavam ali porque eram todas indiferentes ao tempo e o ambiente. Olhavam para dentro de si, ignorando qualquer passagem, aceno ou verbalização.
- Aqui está seu conhaque, senhor. E suas fritas.
Dei um trago no conhaque, lento e paliativo. Logo senti o gole anestesiando a ardência da garganta e aquecendo meu tórax, meu abdômen e por último minhas pernas. Espreguicei a carne e os ossos me sentindo pleno e acolhido.

2 comentários:

  1. achei nojento. até me tirou da sensação de vazio que eu tava por causa do final triste de um livro.

    - e que venha a parte 2.

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