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domingo, 8 de novembro de 2009

- mentalizações do óbvio

em carta para Amanda Moraes, outubro de 2009

Muitas das considerações que faço são demasiadamente vazias de experiências e percepções. A base da literatura, onde busco todo conhecimento, também não me convence.
Sou um mentiroso compulsivo enquanto escrevo. Acabo por me envolver em solidas e abstratas fantasias. Torno-me recluso e defensivo em palavras cruas que, conforme pronunciadas e ouvidas por mim mesmo, vão fazendo total senso, combinando perfeitamente o contexto à ação. Chego a me confessar que me amo quando na verdade me envergonho e me enojo.
Maquiado em máscaras todos estamos, bem sei, mas muitas vezes as vivemos intensamente, e tão intenso é que, quando tirada ou desconfigurada pelo outro, acabamos vulneravelmente nus, como feto recém-parido. Agora, pelo medo confesso de estar nu, escondo-me nas máscaras caricaturáticas. Faço delas personagens de vida própria, conduzindo-as ao relento com detalhes comuns e banais para não me comprometer e ceder à minha própria armadilha.
Sou nada senão os outros.
Repugno a traição. Talvez por me trair a todo tempo, desprezando o que e quem verdadeiramente sou para viver o outro.
Devaneio.
Deixo-me conduzir por situações burlescas e irrelevantes para me desfigurar dessa realidade compenetrante e comprimida. De certo hei de me compreender perante a intolerância do nu, resguardando minha existência, me abstendo de máscaras.
Odeio estar nu. Odeio espelhos.
Esse frenesi e alienação já me conduziram às automutilações minuciosamente planejadas a fim de provar com a Medicina que toda essa paranóia organicista de múltiplos eus não faz sentido algum e que não passamos de puros hormônios e sinapses eletroquímicas.
E foi nessa época quando fui acometido de paralisias involuntárias de músculos faciais e também do braço esquerdo, impossibilitando-me, de tempos em tempos, à externalização de meus demônios particulares por meio da escrita. Assim, submeteram-me às drogas que carregavam consigo doses de lítio e ópio, confundindo totalmente meus humores, e bem sei que os defiro em um único aspecto: o todo que me faltam nas parcelas. Parcela esta que se compreende à limitação da realidade. A sensação de mesura comumente alienada ao ambiente fechado. Este mundo fechado reduz a incompreensão de si mesmo gerando o egoísmo. O metafórico egoísmo.
Como uma fórmula para irromper as máscaras, como se essas máscaras fossem – e de fato são – as dúvidas sobre esse entorno de clausura chamado mundo, sobre todo e qualquer indivíduo e, sobretudo, sobre si mesmo. Mas percebo que se envolver aos outros acarreta para si a prisão perpétua e a perda de sua caracterização essencial e primitiva. Seu íntimo eu. Por isso é minuciosamente importante a experimentação de todo e qualquer sentimento, emoção ou percepção, seja revogados à dor, à frustração, ao orgasmo ou a alegria. Seja o que quer que seja.
Deixe ser. Seja para que não gere autodestruição, pois a autodestruição está na desconstrução do outro, não de si mesmo. Pois quando tarde, ao fim de tudo, não se perceberá quando a máscara cair se corroendo de vermes lenta e visceralmente, o costurando à Terra como se fosse retalhos, tornando-te assim parte de um ciclo natural que contribuirá - mesmo contra a tua vontade, para desconstruir o outro – nessa alienação perpétua até que se revele o âmago e sentido de se ter vivido.

Um comentário:

  1. Oi, Gustavo. Primeiramente gostaria de te agradecer pela visita e pelo comentário no poema. Devo confessar que o meu forte nunca foi e, provavelmente, nunca será a poesia. Digo poesia no sentido mais estético mesmo, pois como bem sabemos a poesia está em tudo àqueles que tem uma película de lirismo nos olhos e me arrisco à presunção de dizer que deve ser o seu caso também.

    Ao ler o seu post, me vieram dois poemas bem emblemáticos na cabeça, o primeiro [a ode dos poetas] foi Fernando Pessoa (ele mesmo) Autopsicografia:

    "O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente (...)"

    E outro é um que gosto muito, mas muito mesmo, da Cecília Meireles. Um que ela fica repetindo "Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.", acho que chama reinvenção.

    Talvez já tenha virado clichê dizer que as pessoas que recorrem à literatura para sobreviver, só podem ter algum tipo de limitação em aceitar a realidade tal como ela nos é imposta. Bem, pelo menos eu me enquadro nesse perfil, sabe. Não que eu seja uma escritora por ofício, mas muitas vezes, parafraseando Bandeira, me pego criando a vida que poderia ter sido e não foi. Uma espécie de reconstrução a qual nos é tão essencial para que tudo não desabe assim nesse moldável alicerce de barro úmido que nos sustenta.
    Voltarei mais vezes. Se cuida.

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