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sábado, 26 de dezembro de 2009

- na maré alta

Tudo que eu queria era ir à praia e encontrá-la naquela tarde. Eu estava sem um puto no bolso e isso dificultava bastante as coisas. Sabe, não poder pagar uma cerveja ou chamá-la para ir a algum café. Isso me constrangia bastante. Tinha a sensação de que eu era um fodido. Felizmente ela gostava de papear e talvez não houvesse problemas se eu conseguisse induzi-la a ficar por ali, na areia da praia, olhando as ondas quebrarem, nos embriagando com aquela maresia morna e noturna. Foi o que fiz. Não foi difícil encontrá-la. Ela estava sentada em frente ao banco de área, debaixo do pórtico, e lia um livreto de Hilst. Achava isso um contraste excitante, visto que sua personalidade era oposta ao seu temperamento poético. Eu a adorava. Ansiava por todas aquelas tardes em que podíamos recitar nossos malditos.
De tempos em tempos o silêncio nos dominava e eu era hipnotizado pelo seu olhar febril, seus cachos densos e emaranhados, que, lentamente, esvoaçavam ao vento, cobriam seu rosto e me envolviam, desde o corpo até o menor dos pulsos de meus pensamentos abstratos e insanos. Ela sempre estava de vestidos floridos, de cores fortes, - como as de Almodóvar - o que intensificava todo meu furor e angústia para possuí-la. Mas eu tinha que ser paciente, calmo e generoso com toda aquela situação, pois mulheres como ela quase não existem.
A noite foi caindo e o lume do pórtico se tornava romântico, como que aceso à vela. Pedi a ela que me acompanhasse a uma caminhada e ela não hesitou.
Enquanto molhávamos nossos pés na marola amena e tépida, contei a ela das coisas que conhecia sobre o mar – o que era clichê e talvez monótono – e ela pareceu não se importar, pois sempre respondia com seu sorriso matreiro e lascivo... – por Deus, nesses momentos eu precisava me segurar.
Parei e fechei os olhos, enquanto uma onda parecia me tirar do chão e puxar para o oceano adentro. Ela me perguntou se estava tudo bem. Se eu me sentia mal. Eu não respondi. Fiquei ali, estático, esperando que ela fizesse algo, que me desse um beijo ou um abraço que fosse. Mas obviamente ela não entenderia. Não haveria de entender que eu estava forjando uma cena romântica. Afinal, quem poderia entender? Então eu abri meus braços e recitei um poema de Bukowski. Me emocionei. Creio que ela não percebeu porque eu estava de olhos fechados – e pateticamente ainda conservava os braços abertos. Escutei um suspiro profundo vindo de seu peito acalentado e esperei. Esperei como uma criança arredia espera com as mãos abertas por algum presente que sabe que vai ganhar. Mas não ganhei.
Abri os olhos, bastante sem graça e um pouco trêmulo, e a olhei envergonhado.
- Foi lindo – ela disse.
E, quando dei por mim, ela também estava com os olhos fechados e de braços abertos – sabe-se lá há quanto tempo. Confesso que na hora eu quis rir, mas estragaria aquele momento único. A abracei. Forte. Carinhosamente forte. E imaginei nós dois deitados debaixo do pórtico, nus e indiferentes a todo aquele ambiente austero e romântico. Além dos meus pensamentos, naquele abraço, eu senti o seu corpo firme e aquecido. Senti o seu perfume delicado e incinerante exalando de seu pescoço e cachos densos. Eu não queria que aquele abraço acabasse e, ali, envolto, recitei sobre nossa noite e sobre aquele momento. Sobre ela. Unicamente sobre ela. As ondas pareciam me acompanhar no compasso dos versos e estrofes e aumentavam o sentido das palavras toda vez que a marola alcançava nossos pés.
Flutuávamos rendidos aos versos.
Confessei ferozmente sobre toda a minha intenção. Sobre o desejo carnal e insinuoso que eu sentia por ela. Qualquer outra mulher me chamaria de crápula e pervertido, me esbofetearia e cuspiria em mim, mas ela, minha doce maldita, compreendeu sublimemente, respondendo-me com um beijo demorado nos lábios.
Correspondi percorrendo o seu pescoço com beijos lentos e clamei aos seus ouvidos um pedido provocante e sensual:
- Vamos para debaixo do pórtico?
Naquele momento ela corou e riu. Mas percebi que não me negaria isso. Então ela me segurou pelos braços e correu comigo como um cão acoleirado, levando-me para debaixo do pórtico e me jogando na areia, compreendendo que ali seria nossa cama. Ela se ajoelhou em minha frente, de costas, e assim eu desabotoei o seu vestido, despindo-a completamente numa lentidão perfeita. Eu inalei todo seu perfume de corsa em seu vestido florido e o acomodei na areia reluzente para que ela se deitasse. Ela volveu para mim vagarosamente e pude ver seus lindos seios macios e perfeitos, que percorri com dedos meticulosos e depois os envolvi completamente na palma de minhas mãos. Percorri seu ventre em chamas com meus lábios úmidos, deslizando até o abdômen e, pouco antes de alcançar seus púberes atilados, observei a sua face orgástica. Foi, de fato, a cena mais linda daquela noite.
Então eu reparei que seu sexo era lindo como uma flor selvagem e com a minha mão e meus lábios eu a provei.
...Você me abraçou forte e senti as suas unhas cravarem em minhas costas, suas pernas envolvendo a minha pelve, tragando o meu corpo para dentro de si. Você tirou minha camisa depressa sem se importar com os botões e, na sua fúria lasciva, pediu para que eu tirasse logo o jeans – o que fiz com uma agilidade só conseguida naquela noite. A maré aumentava e nosso tesão também. Completamente desnudos eu a deitei calmamente sobre seu vestido e percorri as suas pernas sedosas até chegar aos seus pés - confesso que nunca vi pés mais lindos em toda a minha vida. Depois, subi furtivamente beijando-a até alcançar sua virilha.
Você abriu as pernas... e assim eu alcancei o seu intimo.
Seus movimentos eram calmos, porém esfuziantes, e a cada segundo mais parecia que iríamos nos fundir, tornando-nos uno e orgástico. O delírio do prazer aumentava nos movimentos compassados e perfeitos. Nossa respiração e sussurros se tornavam cada vez mais ávidos e vorazes e atingiram o seu ápice quando ambos vertemos em nossos elixires do sexo.
Nossa respiração nos impedia a fala, totalmente ofegantes. Então rimos um para o outro, saciados.
Olhei em seus olhos colocando os seus cachos atrás de sua orelha e pedi para que você jamais sumisse de minha vida. Pedi para fôssemos uno para todo o sempre. Você concordou com um sorriso e com seu olhar contemplativo. Disse que me adorava e que não me deixaria. Fez-me prometer o mesmo e, obviamente, eu consenti.
Conversamos ainda nus e exaustos até cairmos no sono – ela deitada sobre meu peito.
E ali eu tive um sonho perene e calmante, que voltou no momento em que eu estava de olhos fechados, de braços abertos, com a onda me fazendo flutuar. A diferença era que o sonho de imagem simples consistia no nosso abraço nu, flutuando na maré alta. E eu realmente sentia a água em meu corpo, nos envolvendo. Então eu acordei. E percebi que estava abraçado a ela, envolto realmente da água daquele mar.
Era madrugada.
Era maré alta.

Um comentário:

  1. - Nem Dionisio seria capaz de escrever isto! Meus parabéns! Há muito que não me supreendo lendo algo.

    Bom demais!

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