- o que você procura?

sábado, 5 de dezembro de 2009

- no bar com o velho Buk [por Pelvini]

- gostaria de compartilhar uma composição de um grande amigo e irmão, Pelvini.

“Tô perdido”, é o que eu penso quando abro os olhos e vejo o relógio apontando que estou duas horas atrasado. “Merda, merda, merda.”

Levanto correndo. Tomo banho, esfrego a toalha no cabelo cheio de caspa, me visto rapidamente e saio correndo para o quintal. “SAI CACHORRO!”, exclamo enquanto abro o portão e saio desenfreado para a rua.

Viro a esquina suja, desvio de um bêbado dormindo na sarjeta, atravesso a rua. “Olha pros dois lados, filho da puta!” – definitivamente, não era meu dia. Atravesso mais uma rua rumo ao ponto de ônibus e quase sou atropelado de novo.

Quando o ônibus passa e eu entro, percebo – olhando para o cobrador, já encostado na catraca – que estou sem o dinheiro, sem o passe e sem qualquer coisa que valha a passagem.

“Vai ter que descer.”

Olho pra ele com cara de “é lógico que vou ter que descer”, mas não falo nada: desço no próximo ponto. Já cheio de raiva, começo o caminho de volta pra casa. Tiro a mochila das costas e procuro pela chave do portão e, quando a encontro, ela voa da minha mão e, caramba, cai dentro do banheiro. “Que dia fodido. MERDA.”

Falando mais palavrões em uma hora do que falo numa semana, percebo que estou com fome. Não vai dar pra entrar em casa tão cedo nem chegar ao lugar na hora combinada, então resolvo comer alguma coisa. Não tem uma porcaria de uma padaria ali pra eu tomar café – por isso, entro num bar para comer qualquer coisa rápida. Lugarzinho escuro, meio sujo, um velho de regata e pano nos ombros, e dois caras tomando café – em copos de cerveja – numa mesa aos fundos. Um já era senhor, de casaco puído, camisa manchada e jeans rasgado; o outro era um rapaz com ares latinos e camisa escura de manga longa.

“Vai querer o que?”, o dono do bar interrompeu meus pensamentos com uma grosseria pouco sutil.

“Tem o que?”

O velho pegou um pedaço de papel plastificado e jogou no balcão. Velho fodido, penso, já pensando em pegar o pedaço de papel que ele chama de cardápio, enfiar na goela dele e depois mijar em cima.

“Nem tente.”

A frase veio dos fundos do bar, do senhor com roupas batidas. O rapaz que estava com ele bateu na mesa com uma mão e remendou: “Qual é, Buk!”

“Falo sério. É o que vou mandar escrever na porra da lápide.”

Fiquei pensando se isso lá era conversa para ter numa manhã raivosa. Pensando a respeito, lembrando-se da chave no bueiro e do cobrador maldito – e olhando para a cara tediosa do velho de regata atrás do balcão – falar de morte seria um escapismo e tanto para uma manhã raivosa.

“Geralmente falta imaginação a esse povo que se diz valente. Não pra mim, porque eu não tenho medo de que tudo dê errado no fim. Os verdadeiros valentes, Gustavo, vencem a própria imaginação e fazem o que devem fazer”.

Puta papo de bêbado, pensei. O cara tava falando de morte, depois pulou para valentia… Ou ele achava valentia escrever algo do tipo na lápide? Já estaria cheio de vermes no cu e na boca, que diferença faria?

“Não vai pedir, não?”

“Estou escolhendo, dá licença.”

O velho bufou, se levantou e entrou por uma porta atrás dele.

“…apenas eu e minhas musas. É isso.”, emendava o rapaz na mesa. Eu, que estava ouvindo a conversa entrecortada, pelo visto perdia os trechos em que ambos falavam mais baixo – e não ajudou o fato do dono do bar ligar a porra do rádio numa rádio sertaneja. De qualquer forma, o rapaz tirava do bolso um pedaço de papel. O que eu ouvi foi mais ou menos o seguinte – um poema sendo declamado:

“Não é bonita, vejo. Mas a tua carne me excita quando a percorro, detalhadamente, aos beijos.”

O cara tá lendo poemas. Estão bêbados, os dois, pensei comigo.

“Vai pedir ou não?”, o velho saiu pela porta cuspindo.

“Traz um café”, falei. E cala a boca, murmurei, tentando ouvir o resto do poema.

“…quero estar em teu útero, onde repousa e habita a raiz de tudo que a faz linda: os teus desejos.”

Caramba. Escandalizado, vi que o senhor – Buk? – ria. Começou baixinho, balançando um pouco os ombros e terminou numa gargalhada quase de escárnio.

“Caralho, isso é ótimo”, disse ele, sem que eu pudesse identificar ironia ou sinceridade.

O rapaz parecia imerso num misto de orgulho e surpresa. No entanto, o tom de sua voz foi confiante: “Fala sério?”

“Falo, me dê isso aqui.”, o rapaz estendeu o pedaço de papel pardo para o senhor, que, enquanto o relia, ia falando: “Quando eu era jovem, aí da sua idade, passando fome e bebendo feito um porco chauvinista, meus refúgios eram as bibliotecas. E sabe o que achava lá?”

PÁ!, ele bateu na mesa.

“Um monte de merda! Os livros da biblioteca eram escritos por gente brincando de jogar com as palavras e aqueles que não diziam porra nenhuma eram considerados os melhores escritores. Era tudo uma mistura de sutileza, artesanato, forma, que era lido, ingerido e, pronto, acabou.”

“Aí você também tá me superestimando.”

“Fique quieto, eu não terminei de falar.”

“Velho pomposo.”, murmurei.

“…o problema é que ninguém quer dizer alguma coisa. Por que ninguém sai gritando quando escreve? Eu não entendia. Quer saber, Gustavo? Não encontro escritores com palavras fortes e boas e quentes há muito tempo.”

“Tá dizendo que eu…”

“Não, não estou dizendo que você é a porra da salvação da literatura. Mas que, na sua idade, a vida ainda dá material para que você seja mais um romântico fodido. E eu vou levar esse poema comigo. Está bom pra caralho.”

“Seu café.”, entregou o velho, num copo de cerveja molhado. O café parecia, juro por Deus, água suja com consistência de piche. A ideia me distraiu do que eu realmente pensava naquele momento: eu via, sentados ao fundo de um bar qualquer de um velho puto e mal-educado, mestre e discípulo conversando. E, pensei, o tal Buk estava mesmo acanhado de elogiar o rapaz Gustavo – como se aquilo fosse retirar algum traço de identidade do seu peito.

“A diferença entre a vida e arte, Gustavo, é que a arte é mais suportável.”

E, enquanto ele falava isso, vi no cardápio uma coisa que despertou mais ainda minha fome. Eu não queria nem imaginar como aquele pedido viria, se num pedaço de papel sujo ou dentro de um prato quebrado. “Mas o dia já está uma merda mesmo”, pensei.

E, já planejando me sentar em uma mesa próxima àquela conversa, olhei para o velho e pedi:

“Um misto-quente”.