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quinta-feira, 11 de março de 2010

- o crucificador

Todos assistiam,
bastante assustados,
ao tamanho do monumento
que aquele homem levava,
como um mastro.
Senti um mal-estar e,
por um momento,
eu fui hipnotizado
pelos seus olhos fissurados.
Ele, quase desnudo,
e ensangüentado,
ali, na minha frente,
cedeu, caindo desajeitado
na direção do sol
de intensa luz.
Suas feridas,
de diversos dias,
abertas e reabertas,
jorravam sangue e pus.
No chão, de olhos fechados,
ele ignorou aquele público
que o seguia desde o passado.
Então, enfim eu me aproximei
e aos outros ordenei
que o deitassem na cruz
que ele deixou cair ao meu lado.
Pedi que, vagarosamente,
o abrissem os braços,
de modo que ficasse rente,
e que me trouxessem o martelo
e os pregos forjados a aço.
Observei seu corpo teso
para saber se estava mesmo
ocupando todo o espaço.
Depois, ajoelhei-me,
perto de sua face
e o chamei perto dos ouvidos;
e, embora ele não me escutasse,
eu sabia que ainda estava vivo,
mas não interromperia sua meditação
para falar comigo.
Então eu tomei a sua mão
e mirei o prego em sua palma.
Bati!
Pude ver o aço perfurando
os ossos e a articulação
e, instantaneamente,
ecoou seu grito,
vindo do fundo de sua alma.
Os outros o seguravam
como forma de pretexto,
pois sabiam:
eu ainda estava no começo.
Segurei o segundo palmo
observado por olhos que choravam
e, novamente,
perfurei o alvo...
ele suspirava e gemia,
tamanha a euforia.
Me apressei às suas pernas
e posicionei seus pés vermelhos
um sobre o outro.
Pedi para que o segurassem
na altura de seus joelhos,
pois perfuraríamos onde mais doía.
Mas, eu sabia,
ele seria o primeiro
a suportar mais essa agonia.
Então, mais uma vez eu bati
cravando toda estrutura,
desde sua reles pele,
até a madeira dura.
E ele nem mesmo reagiu.
Mas na expressão dos outros
estava figurado o que aquele homem sentiu.
Me levantei limpando a veste
e os outros ergueram o pregado,
como um estandarte.
De modo que ficasse exposto
como uma obra de arte.
A massa se calou
e o admirou por toda tarde.
O céu enegreceu.
Veio a tempestade.
Muitos abandonaram o local.
Permanecendo apenas seus amigos.
E sua mãe.
assistindo a carne sendo lavada,
revelando sua forma visceral.
Ele já não se movia.
E pelo que me parecia
já estava morto.
Pedi para que averiguassem.
Então o perfuraram
na lateral do corpo.
Havia apenas água na sangria
e nenhuma expressão em sua face.
Graças a Deus, havia acabado.
Ordenei que o removessem.
Depois dispensei todos os soldados.
Eu estava física e mentalmente cansado.
Que alívio...
O que me confortava
era saber que eu chegaria em casa
e teria alegria
ao lado da minha família.