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domingo, 1 de agosto de 2010

- para sempre

Quando eu cheguei para o seu velório todos já haviam chorado. Mesmo os que não eram próximos a ti, depois de longo esforço, derramaram suas lágrimas para prestar condolências. Avisaram-me tarde demais. Todos me olharam quando me prostrei de frente ao seu túmulo, com as mãos no bolso. Seus amigos e familiares não me conheciam. Eles jamais haviam me visto. E como explicar a eles que eu sabia muito bem quem era você e quem eram eles? Quando me lembrei disso, ridiculamente eu sorri. E todos me desprezaram. Principalmente sua mãe. Que tremenda falta de respeito para minha filha, a ouvi dizer. Mas, assim como você, eu não me importei aos comentários dela. Apenas fechei meus olhos. Pensei na noite anterior em que havíamos assistido a um filme do Bergman. O Sétimo Selo. E, após o filme, você pedira para que eu lhe contasse mais sobre esse meu desejo inculto e dilacerante pela compreensão da morte. Me deitei ao seu lado para explicá-la minha compreensão, enquanto você segurava a minha mão junto ao seu rosto, balançando a cabeça em aprovação e se atentando aos detalhes da minha face, como você sempre fazia. No meio do meu monólogo você me interrompeu com um beijo, calando meus anseios fúnebres e doentios. Não se preocupe, disse-me, a morte é como esse instante; como esse espaço de incompreensão entre nossos corpos. Esse exato momento. O agora. Eu odiava suas descontinuações românticas, mas consenti. Me silenciei e a abracei. Depois de algum tempo você quebrou toda monotonia do sossego com seu riso expansivo. Tá vendo, como eu posso acreditar na morte com um abraço desses, forte e caloroso, capaz de me complementar para além da minha anatomia, penetrando meus poros, minha corrente sangüínea, meu sistema nervoso e o meu pensamento, que me leva a você? Eu sorri e a abracei mais forte. Subitamente, naquele breve instante, fui acometido por um medo irracional: tudo o que você me dissera era coisa da minha imaginação. De mim para eu mesmo. Me angustiei. Senti culpa. Pedi desculpas. Embora não compreendesse porque eu pedira desculpas, você me calou com outro beijo, dessa vez bastante longo. Deslizou então seus dedos finos e delicados por entre os botões da minha camisa, sussurrando ao meu ouvido o pedido para que eu a tirasse. Eu neguei com um sorriso faceiro e a rendi, retendo em minhas mãos seus braços frágeis. Admirei-a lentamente. Sua beleza virginal, selvagem e comedida. Percorri minhas mãos por sua face, pescoço, seios, ventre, pernas até alcançar seus pés. Eu sentia o seu pulsar por meio de sua respiração, longa e intensa. Você se levantou. Beijou o meu pescoço, envolvendo suas pernas ao redor do meu quadril. Envolvi a sua nuca com a minha mão, dominando seus movimentos. A beijei loucamente. A despi de sua camiseta e sua saia. A contemplei de sutiã e calcinha. Sua linda palidez realçava-se incrivelmente. Você me tirou a camisa e o jeans, atirando-os ao redor da sala. Então eu a dominei em meus braços e a carreguei para o quarto. Estávamos bem. Você ligou o rádio e colocou Whiskey for the Holy Ghost, do Mark Lanegan, depois que lhe contei a história dele. Até que ele canta bem, para um cara que não sorri, você me disse ao escutar The River Rise. E iniciou uma estranha performance de passos descompassados para uma música que, definitivamente, não foi feita para se dançar. Eu tentava detê-la, mas você insistia, queria que eu dançasse também. Dance comigo, por favor. Suspirei levando a mão ao rosto, tamanha a vergonha, mas me levantei, por fim, e, desengonçado como um bêbado, permiti que você me conduzisse pelo quarto dançando The River Rise. Eu estava atento à sua alegria. À sua face. E, naquele momento, olhando dentro de seus olhos, eu pude penetrá-los e transcender os seus e os meus sentidos, divagando no limiar de nossa existência. Eu estava rendido ao maior de meus desejos: você. Ei, meu querido, a música já acabou. Eu apertei forte suas mãos, pois estava voltando de um transe descomunal. Pensei em lhe dizer o que havia ocorrido, tudo que me veio à mente, mas você já estava calçando suas botas e correndo para a sala, para buscar suas roupas. Suspirei profundamente e me sentei na cama. Estou envolvido demais. Isso não é bom. Vamos, vista-se, tenho que estar em casa às oito da noite, sabe disso. Então me troquei, peguei as chaves do carro para te levar de volta ao seu querido marido. No carro, percebi que você me olhava bastante. Parecia incomodada. Por que você sempre fica nervoso quando não transamos? Negaceei com a cabeça, mas, certamente, você já estava convencida de que eu estava puto porque não transamos. É sério, não é por causa disso. Fingiu me ignorar com seu olhar fixo para as luzes do cruzamento. Porra, por que você sempre acha que eu resumo nosso relacionamento a uma simples foda? Porque você sempre faz isso, é por isso. Novamente quis lhe confessar o que havia sentido enquanto dançávamos, de maneira estúpida, mas, você, com certeza diria que era apenas um pretexto para evitar a discussão. Sabe, quando você estava falando sobre a merda da morte eu me senti uma idiota, pois pensei que te convenceria a não se importar com isso. Eu te disse como me sinto bem ao seu lado, que estarei aqui sempre para te proteger, mas você... você continua nessa mesma merda, com seus motivos estúpidos e sem real profundidade. Você parece não se importar comigo. Eu não sabia o que dizer. Talvez não houvesse o que dizer. As suas lágrimas me anulavam, realmente revelavam como eu era patético. Depois de algum tempo naquele silêncio súbito, adentrei à sua rua. Bem, chegamos. Você desabou. Queria que eu reagisse e eu nada fiz. Espero que você morra, seu filho da puta. A vi entrar para a sua casa, correndo. Permaneci com o carro parado em sua calçada por alguns minutos, pensando se eu deveria ou não bater à sua porta, enfrentar seu marido, seus filhos, e ir até seu quarto e te consolar. Presumi que isso seria burrice e apenas deixaria tudo ainda pior, então fui embora.
E agora estou aqui. As pessoas se preparam para levá-la. Ouço seus filhos gritando ensandecidamente para que você volte, para que você não vá embora para sempre. Seus pais os abraçam. Eles tentam consolar os netos, mas também estão inconsoláveis. Seu marido, seu pai e algum de seus familiares se aprontam para carregarem-na ao seu leito fúnebre, a sete palmos. Seu descanso. Acompanho de longe a movimentação silenciosa e triste dos corpos que choram. Todos carregam suas flores: crisântemos, cravos e lírios. Um padre relembra alguns momentos de sua vida e as pessoas se comovem ainda mais. Eles a amavam. A amavam... Mas eu sei que não era recíproco. Depois, você foi abençoada pelo tal padre; as pessoas jogaram-lhe as flores; choraram; depois, muitos se retiraram. Seus familiares permaneceram por longas duas horas, até que seus pais e seus filhos foram levados para sua casa e apenas seu marido permaneceu sentado, esperando. Me aproximei. Meus pêsames. Ele me olhou e assentiu pesarosamente com a cabeça. Sabia que ele desejava estar só, mas eu precisava falar com ele. Era uma tarde agradável e o silêncio sepulcral era ocasionalmente rompido pelas árvores, corvos e abutres. Creio que eu tenha matado sua esposa... e não há desculpas para isso. Ele não se moveu. Permaneceu observando o trinar dos pássaros e das árvores. Nos encontrávamos há mais de dois anos... Então ele suspirou fundo e gemeu uma dor profunda que lhe esvaía por toda expressão. Disse a ele onde eu estava morando e que lhe aguardaria para uma conversa. Então, me retirei, fui para casa. Enquanto me distanciava do cemitério, a sensação de pesar e perda me consumiu, mas já não me sentia mais culpado. Quando adentrei meu apartamento, me deitei no tapete e me lembrei da nossa última noite. Eu podia vê-la vagar de calcinha e sutiã por todos os cômodos, com seu sorriso estridente, com seus gestos expansivos e envolventes. Permaneci deitado por horas e horas, sem perceber que a noite havia chegado. Então, me levantei e fui até o nosso quarto para retirar do guarda-roupa tudo que era seu e guardar numa mala. A campainha tocou. Não reagi, pois eu sabia quem era. Sabia que entraria mesmo que eu não atendesse. Vagarosamente dobrei todas as suas vestes e coloquei dentro de uma mala. Liguei o rádio e coloquei The River Rise. Esperei. Escutei passos arredios pelo corredor e vi quando as pernas estacaram à porta. Por que você fez isso comigo?, me perguntou. Ele empunhava uma arma na mão esquerda. Então, contei a ele detalhadamente como nos conhecemos, porque começamos a sair e quais eram nossos planos. Não me arrependo do que fiz. Apenas me sinto mal pelo fato de ela não estar mais aqui. Em não tê-la mais comigo. Serenamente, fechei meus olhos. Eu morreria. E se ela estiver certa, talvez a encontre em algum lugar, onde não me preocupe mais em morrer e poderemos, enfim, estar juntos. Para sempre. Me desculpe, ele lamentou em murmúrios, gemendo um choro fraco e ressonante. Escutei um estrondo. No meu pensamento, você sorria. Então, quando enfim o som se dissipou, depois de se pronunciar por todos os cômodos, abri os olhos, lentamente. Ele desabava vertendo sangue pelas têmporas. The River Rise ainda tocava. Incólume, me deitei ao lado de seu marido. Agora eu também estava embebido em sangue. Fechei meus olhos e senti novamente o mesmo torpor que sentira quando invadi seus olhos, mas agora eu já não conseguia penetrá-la, e nem transcender para além dos nossos corpos. Chorei. Foi quando me lembrei do que dissera “A morte é como esse instante; como esse espaço de incompreensão entre nossos corpos. Esse exato momento. O agora”. Então compreendi que estava condenado a viver nesse breve instante, nesse exato momento, no agora. Para sempre.

6 comentários:

  1. simplesmente a coisa mais linda que eu já li... nossa,deu até um nó na garganta!

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  2. E então ele venceu, uniu-se a ela na morte.

    E a ti, só restou um futuro formado de momentos de "agora".

    Deliciosa leitura.

    Meus parabéns!!!

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  3. Confesso que tenho preguiça de textos grandes, mas foi a melhor coisa que fiz essa noite ou essa semana.

    Lindo.

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  4. Você é além-elogios, meu querido amigo.

    Abraços (:

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