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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

- teatro do sexo

- Então... eu não vou mais ao teatro com você.
- Porra, agora que você me diz isso? Eu já estou vestido. E estava saindo daqui para buscá-la.
- Pois é, me desculpe, mas não vai rolar... hoje não vai rolar.
Honestamente eu não quis saber o motivo. Geralmente, essas coisas acontecem quando a mulher repentinamente se dá conta de que não está mais com tesão e, para não romper bruscamente, começa com uma série de evitações que culminam para um fim, daqueles em que você com certeza será o único culpado. Dava até para imaginá-la, nesse exato momento, desistindo dos saltos, do vestido e da meia-fina; e depois indo ao banheiro para desmanchar a face maquiada.
- Que merda!
Mesmo assim eu sairia. Não ia ficar em casa só porque você havia me dado um fora. Peguei meu maço de cigarros, minhas chaves e desci as escadas. Enquanto descia, pensava aonde eu poderia ir. Talvez não fosse prudente ir ao teatro sozinho. Essas coisas apenas são boas quando se pode comentar. Sabe, para criar um clima excêntrico e preliminar ao sexo casual. 
- Mas, foda-se, vou de qualquer jeito.
Enquanto eu saia para a rua, acendendo meu cigarro, escutei um chamado vindo da esquina.
- Ei, cara, espere ai!
Quando a voz me alcançou percebi que era meu velho amigo cigano, de dentes amarelados e fumante veterano de Marlboro Light. Ele estava vestido de terno e, como sempre, de maneira bem eloqüente, me cumprimentou com um tapa no ombro me pedindo o isqueiro. Tragou profundamente.
- Só caras como eu e você sabem como essa merda é prazerosa.
Eu realmente acho o cigarro um dos maiores prazeres do planeta, mas considero o Marlboro Light um cigarro de manicures e maricas clichés.
- Aprendi a fumar com você, cara, se lembra? - E novamente me golpeou o ombro.
- Lembro. E eu aprendi a fumar com o Bukowski.
Ele riu, mas não entendeu, pois não sabia quem era o velho Buk.
Depois de alguns tragos ele me contou sobre o seu novo material que chegaria na cidade essa noite.
- Cara, essa vem do Sri Lanka. E é virgem! Hoje será a grande estreia.
Odiava quando ele se referia às mulheres como uma simples mercadoria, mas já era seu costume.
Cigano era dono de uma casa de sexo e sadomasoquismo que funcionava na cidade apenas às terças e às quintas. A maioria das mulheres que apareciam por lá eram putas velhas e aposentadas, exímias na arte de punir aquele que quisesse ser castigado. Mas, ultimamente, para enriquecer mais rápido, ele tinha se aliado a um federal aposentado do consulado, que aliciava mulheres de países pobres em troca de dinheiro. Quando chegavam aqui elas eram expostas às picas perversas de homens de classe média, que traiam suas esposas neuróticas e mal comidas.
Tudo bem, eu sabia de tudo isso, o que me tornava um delinqüente passivo, mas, honestamente, eu não me importava muito.
- E então, vai ou não vai, cara? Hoje é por conta da casa.
Ponderei sobre as minhas expectativas naquela noite enfada e logo conclui que não tinha nada a perder.
- Por que não? Nunca vi mesmo uma puta srilanquesa.
Quando cheguei ao antro acompanhado do cigano, ele ordenou a umas cafetinas nuas que trouxessem incenso de canela e flores vermelhas ao ambiente. Também pediu que reduzissem a luz, pois, quando a nova virgem chegasse, tudo deveria estar perfeitamente alinhado à convulsão sexual das glandes e dos grandes lábios alvoroçados. Ele então me conduziu a alguns quartos e me explicou porque nenhum deles tinha porta.
- Algumas pessoas que aparecem aqui se sujeitam a fantasias violentas e terríveis. Já vi mulheres tentarem empalar seus parceiros com cabos de vassouras até eles urrarem num misto de prazer e desespero. Como também já vi caras arrancando tetas de mulheres que pareciam bestas no cio. Às vezes a mutilação é um prazer sem fim. E se você não quiser que esses mutilados do amor saiam mortos daqui, deve retirá-los o quanto antes para que morram nos becos, como se houvessem sido estuprados, entende?
Assenti, mas não pude conter a expressão de horror e desconforto só de imaginar uma pessoa saindo dali direto ao hospital com uma vassoura no rabo e uma teta na mão.
- Vem, vamos beber – disse-me, e me levou para o cômodo que parecia um bar. Lá também havia belas mulheres circulando em pelo, sem pudor algum. Perguntei se elas faziam parte do show e ele me respondeu que essas não, elas não podiam dormir com ninguém, - a não ser com ele mesmo - pois eram as funcionárias responsáveis pela saúde de suas putas. E completou:
- As verdadeiras putas dessa casa moram em hotéis a duas quadras daqui. Só aparecem para os programas e espetáculos, depois vão embora.
Fiquei curioso e lhe perguntei porque elas não moravam ali e ele logo me confessou que precisava ser o mais discreto possível e também não podia tê-las como escravas, presas àquela casa.
- A vida dessas mulheres vai além de picas com dinheiro, meu amigo.
Isso é verdade.
Depois de beber um bom scotch e duas rodadas de cachaça com mel - bebida preferida das putas amorosas - o cigano me pediu para ir ao salão de eventos e me ocupar de uma das cadeiras vip, perto do palco, pois o espetáculo começaria em vinte minutos e ele precisava se preparar para receber a estreante da noite. Enquanto eu saia, notei que ele assobiou para uma das suas cafetinas e ela lhe trouxe seu Marlboro Light. Quando adentrei o salão, as cafetinas estavam devidamente distribuídas, como arranjos de flores desabrochados, e seus perfumes recendiam ao mais delicado aroma de sexo e prazer. Escolhi então uma cadeira ao canto do palco, onde poderia fumar e beber sem ser constantemente notado pelo público viril. Enquanto esperava, as cafetinas me serviram outro scotch.
- Se o senhor quiser mais, me avise, meu amor. E então ela se retirou molhando a minha face com um beijo. 
Logo as pessoas começaram a entrar. Evidentemente eram muito mais ricas do que eu e estavam ali somente porque esse é o tipo de prazer que se tem apenas com dinheiro. Enquanto se acomodavam, as cafetinas abordavam com uma taça de champange.
- Cortesia da casa – diziam sempre.
Para aqueles que traziam companhia, as cafetinas cuidavam para colocá-los em lugares reservados, de modo que ficassem explicitamente à vontade. Em exatos vinte minutos a casa estava cheia e as flores desabrochadas já haviam retornado aos seus respectivos cantos. Foi então que a luz do palco se acendeu, num tom avermelhado, e o cigano apareceu com um microfone nas mãos. Ele saudou a todos que deram o ar da graça para conhecer sua mais nova moça do oriente.
- Quando essa mulher entrar no palco todos gozarão! - disse.
Ansioso, engoli meu scotch já ordenando outro. Nesse momento Cold In My Bed na voz de Bernadette Seacrest começou a tocar num velho rádio e um transe fúnebre e sensual envolveu o ambiente. Uma sombra de semblante cor de mel adentrou ao palco em passos silenciosos e comedidos, envolvido numa seda cor de sangue. Meu coração se aplacou e acelerou até as batidas alcançarem a minha garganta, calando toda e qualquer expressão eufórica que eu tentasse declarar. Enquanto a música nos embalava, os braços lânguidos da virgem roçavam sua estrutura e nos revelava lentamente sua anatomia. Quando olhei para trás vi alguns casais se atracando com um prazer bestial e alguns homens atinados com as calças arreganhadas gemendo pela musa que ainda não tinha face, mas que, a cada momento, revelava-se dona de um dos corpos mais belos do oriente.
Ela então começou seu ritual para desmontar sua máscara de seda e meus olhos vidraram numa hipnose jamais experimentada. Vi seus lábios: eram carnudos e macios e eu desejei possuí-los com uma fúria esfuziante. E então ela revelou seus olhos, amendoados e negros como jabuticabas maduras e suculentas, arfei naquele instante. Foi quando escutei gemidos feéricos que se misturavam à música. Alguns homens exaustos e precoces jaziam ao chão, vencidos pela deusa asiática. Foi então que, surgindo do fundo do salão, um homem veio em direção ao palco. Ele tinha uma expressão incógnita de torpor e sedução. E, quando subiu as escadas, se ajoelhou ao lado da ninfa srilanquesa. Fechou os olhos, abrindo os braços. Ela acariciou aquela face sisuda e depois a estapeou selvagemente.
- Isso, fode ele! – gritou uma dama atrás de mim – Fode ele bem gostoso, minha querida.
Ela então o domou pela gravata, rendendo-o como um cão obediente, e lhe rasgou a camisa de botões. Depois, violentou os pelos do seu peito puxando-os com suas unhas afiadas e meticulosas.
- Fica de quatro, caralho! – gritou alguém do fundo. E ele obedeceu.
Posicionado como um potro esguio, a dama lhe deu chutes e mais chutes em seu saco escrotal e ele gemeu de maneira aguda, num misto de tesão e opalescência. Já bastante alucinado pelos delírios do prazer, ele se estendeu deitando-se no palco, acariciando suas bolas doloridas e roxas, dando início a uma masturbação frenética. Muitos que assistiam à cena o acompanhou nas fricções desatinadas, arrulhando loucamente, como se recebessem o espírito santo. Nesse momento, a virgem se posicionou abrindo as pernas na altura da pélvis dele e desceu lentamente roçando seu púbere imaculado sobre a glande de fogo do homem-cão. Passamos a urrar alucinados como bestas e animais ferozes num cio insaciável. Então ela domou aquele instrumento em chamas, segurando-o em suas mãos macias. Cuspiu em toda a extremidade do consolo febril, espalhando sua saliva até alcançar a lubrificação desejava. Serenamente, ela cerrou os olhos, mordeu os lábios, de maneira ímpia e ardilosa e, num movimento rápido e preciso, acomodou-se no falo que violentou sua pureza a sangue e sêmen. Ela gemeu e gritou mais alto que todos nós. E, nesse exato momento, foi como se todos os presentes a houvesse penetrado no mesmo instante!
Atingimos o maior orgasmo da história dos lupanares.
Enquanto o torpor do ápice nos dominava, as luzes se apagaram e os dois personagens do nosso delírio desapareceram na escuridão.
- Não haverá mais nada essa noite, meus queridos. A minha ninfa oriental acabou com todos vocês! - disse o cigano satisfeito.
De fato não precisava de mais nada.
Acendi um cigarro, bastante trêmulo e exausto. Precisava me recompor. Observei no meio daquele alvoroçado bacanal que, embora muitos estivessem ofegantes e esbaforidos, ainda guardavam nas faces suadas a expressão de alegria e saciez. Alguns foram ao encontro do cigano e agradeceram pelo maior espetáculo de todos os tempos. Ele assentiu, orgulhoso de sua obra-prima. Outros, platônicos, desejavam ensandecidamente ver a dama que lhes proporcionara o maior orgasmo de suas vidas, mas o cigano argumentava que ela já guardava repouso e não poderia ver ninguém nos próximos dois dias. Parcialmente recomposto de minhas forças, confessei ao cigano que aquele, sem dúvida, fora o espetáculo mais bonito que eu já assistira em vida e jamais o esqueceria.
- Agora sei como Sade se sentia - disse-lhe.
- Sabia que você ia gostar, meu caro. Vai-te em paz.
Me despedi promotendo voltar.
Enquanto eu caminhava de volta para minha casa, apenas conseguia pensar naquela deusa libidinal e em toda a sua fúria lasciva. Desejei, apesar das circunstâncias, ter sido eu o homem do consolo de fogo que lhe invadira alma pela porta primeva do prazer. Mas, ao recobrar a razão, percebi que não teria coragem de me submeter àquelas penas e castigos de eunuco.
Ao chegar no hotel, subi exasperadamente para o meu quarto procurando minha cama, pois precisava descansar.
- Será que no Sri Lanka existem mais mulheres como ela?
Meu telefone tocou.
- Alô.
- Oi, apenas te liguei para pedir desculpas por não ter ido ao teatro. Estou aqui cheia de remorsos, sabia?
Tive vontade de rir, mas segurei.
- E então, como foi a peça?
Não resisti e admiti:
- Olha, foi foda, literalmente foda.
Desliguei e fui dormir.

6 comentários:

  1. Ah para , vc escreve bem demais! Adorei!!!

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  2. Olha a safadeza!


    UEHEUEHEUEHEU



    brincadeira!


    :p

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  3. hUASh..coisa doida...apronta-se pensando que vai ao teatro e termina assim...

    bom texto...bom final..

    abraço

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  4. você me lembra Caio Fernando Abreu.

    belo texto!

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  5. Fechou a trinca, Luís. Foi direto ao que interessa.

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