- o que você procura?

sábado, 8 de janeiro de 2011

- o homem que nunca amou ninguém

Passaram-se oito anos desde o dia em que eu a vi pela primeira vez. Ela estava no cais, toda deslumbrante com sua silhueta esquálida e firme. A contemplei de longe, pois estava acompanhada de um outro cara. Naquela cena aflita, percebi que ele se empenhava em devotá-la toda atenção e seu rosto compadecia de uma expressão de idiotia, tamanho o amor e a paixão que o enfeitiçavam. Uma dor pontiaguda se extenuou do meu peito a minha garganta, obstruindo as palavras que eu nunca soube confessar a ninguém, mesmo às pessoas que eu considerei de máximo esmero em toda a minha vida. Me retirei então daquela cena linda, mas constrangedora, com a sensação de ser o homem mais solitário de toda cidade. E, no caminho encosta acima, lamentei por nunca ter amado alguém.
A verdade é que sempre tive bastante dificuldade em me envolver com mulheres e, por isso, desde muito cedo aprendi a compartilhar com a solidão e o silêncio meus sentimentos mais profundos.
Na escola, arriscava-me fortuitamente com aquelas garotas que se aproximassem fazendo comentários de janelas, apenas para conseguir um pedaço do meu lanche ou a resposta da prova de algumas horas. Nada acontecia. Não me notavam. Não me queriam. Num desses episódios, recordo-me do retrato que tiramos para o álbum de fim de ano, onde a professora decidiu nos intercalar como pares, homens e mulheres, mas quando chegara por fim a minha vez ela percebeu que eu sobraria só. A professora então me olhou com uma expressão de compaixão e pena, mas não soube o que dizer. Tentando dissuadi-la da vergonha alheia, simulei um mal-estar de náuseas para que me liberasse da foto. Ela me acudiu aliviada dizendo que eu poderia ir até a enfermaria e repousar. Ao sair, volvendo para a turma, notei que todos posavam como príncipes e princesas em seus melhores uniformes de moletom batido. Antes do flash inundar o ambiente cegando a minha razão, pude vê-los sorrindo um sorriso largo e complacente.
Quando alcancei a enfermaria eu estava realmente nauseabundo.
No colegial as coisas não melhoraram. Muito pelo contrário. Quando pensei que meus hormônios me transformariam no homem mais impubescente da escola, meu metabolismo me surpreendeu com uma seqüência de erupções de pus por todo o corpo. Fui hospitalizado uma semana depois com um diagnóstico de perdedor: acne vulgaris. Decidi me afastar da escola temendo passar de invisível à aberração. Meus pais deram de ombros e apenas me alertaram que essa escolha refletiria mais tarde nos caminhos de minha vida. Foda-se, pensei, e decidi que permaneceria recluso em meu quarto até o dia em que os vulcões de minha derme desaparecessem. A única exceção estaria aberta para os três dias de clínica. Lá me espremiam para verter todo excesso de pus e sangue que se espalhava da noite para o dia em meu corpo. Depois, ainda era cauterizado à brasa e finalmente untado numa pasta branca que inflamava minha pele esfolada provocando por diversas e diversas vezes febre e convulsões. E, mesmo assim, isso não impedia de eu acordar desesperado com  uma camada espessa de sangue seco das erupções noturnas colada ao lençol. Removê-la... era a pior sensação do mundo.
Quando completei cinco meses no meu quarto o tédio me consumiu. Não havia mais nada para ler ou ouvir. Toda coleção de livros e vinis que meu pai abandonara mofando nas estantes, depois que se tornou um homem de negócios ocupadíssimo, eu já havia lido e escutado. Até me tornei putamente fã dos escritores malditos e de bandas barulhentas e sujas dos anos noventa. Decidi então sair de casa e encontrar algo novo que pudesse complementar meu conhecimento literário e musical. Mas, antes, procurei no guarda-roupa algo que disfarçasse o meu rosto massacrado. Apenas encontrei uns óculos escuros no estilo James Dean e um boné de posto de gasolina.
- Bem, terá que servir!
Vaguei pelos quarteirões a procura de sebos de livros e vinis ansiando não ser reconhecido pelos efêmeros estereótipos adolescentes acadêmicos de minha cidade. Tolice. Pois, um ano depois, quando finalmente retornei à escola, me perguntaram esquizofrenicamente porque eu andava calado nesses últimos tempos. Não se deram conta de minha ausência.
Enquanto eu perambulava pelo centro, num dos becos da avenida principal encontrei uma garagem de portões oxidados que tinha pendurado a um arame uma placa com letras capital azul a palavra SEBO.
- Até que enfim.
Quando adentrei o velho cômodo, um senhor de lentes grossas e vesgo tragando um cachimbo matreiro me saudou sorridentemente.
- Bom dia, jovem – disse ajeitando os óculos – o que procura?
Olhei ao redor e vi uma quantidade delirante de vinis e cds usados, todos amontoados em caixas e mais caixas de papelão.
- O senhor também trabalha com livros?
Ele assentiu tragando sua piteira e disse:
- Fica no andar debaixo – e foi mancando o caminho em direção ao porão de livros. Enquanto descíamos os degraus caracol, o velho senhor me perguntou se eu procurava algo em particular, eu não soube responder, pois realmente não havia pensado em autores ou títulos.
- Quero me surpreender – blefei.
Ao final dos degraus ele acendeu a luz e me mostrou as estantes.
- Está por ordem de autores. Fique à vontade para escolher o que quiser, rapaz – e sem mais subiu novamente rangendo o ferro dos degraus. Não perdi tempo. Vaguei por entre os corredores lendo nomes e mais nomes de autores. Inicialmente adotei o quesito de ser surpreendido pelo tamanho, cor ou nome do título, mas percebi que não seria justo, afinal, alguns livros eram tão velhos e caquéticos que toda sua estrutura desbotada comprometia a beleza passada.
Depois de mais ou menos uma hora subi com dois livros amarelos.
- Quanto custa esses dois?
Cem Anos de Solidão e O Mito de Sísifo... Vou cobrar dez pratas pela sua coragem. Enquanto ele embrulhava os livros escutei de fundo uma voz fúnebre e grave que me comoveu bastante.
- O que é que está tocando?
- Morphine – e me mostrou o encarte azul e triste do álbum Like Swimming. - Talvez soe bem para o cara atrás desses óculos – disse apontando seu cachimbo para as minhas lentes.
Levei também o álbum.
E ele tinha razão. Naquele dia, Gabriel, Camus e Sandman me ensinaram mais sobre dor e angústia. 
Não demorou muito até eu me tornar um dos clientes mais assíduos do senhor vesgo. Suas recomendações de primazia começaram a guiar minha personalidade apática. Eu passei a visitá-lo todo final de semana, mas agora sem meu boné de frentista e meus óculos de rebelde sem causa. Ele permitia que eu ficasse no porão lendo o que desse na veneta. E, lá, eu permanecia horas e horas sentado num velho sofá alérgico e vertiginoso. Depois, quando a vista já estava cansada da tentativa de concentração sob a luz turva, eu subia e discutíamos as leituras, acompanhados de boa música. Confesso: aprendi ali mais do que nessas escolas de merda.
Foi então que num dos finais de semana, enquanto eu lia Sidarta do Herman Hesse, o ranger das escadas me desconcentrou. A confusão dos passos que descia os degraus era imensa e me assustou na solidão do cômodo. Vi no vulto da luminosidade uma garota desajeitada, tateando as paredes à procura de mais algum interruptor. Aliviado, me levantei e a acudi acendendo a luz que ficava próxima a escada.
- Pronto, pode descer tranqüila.
- Ai, cassete! Que susto! – gritou-me levando as mãos no coração – Não pensei que tinha alguém aqui embaixo.
Mesmo de longe, percebi que ela era muito bonita. E isso me consternou em aflição e desespero, pois meu rosto furado e vermelho logo poderia lhe enojar. E, por isso, rapidamente, voltei ao sofá e tentei me esconder atrás das páginas budistas, apoiando o livro em meus joelhos. Ela desceu vacilante e, quando posou nos tacos de madeira, se apoiando no corrimão, ao final dos degraus, pude notá-la detalhadamente. Seus cabelos eram curtos e desgrenhados. Escondiam seus brincos e suas orelhas, mas não alcançavam seu pescoço lânguido e ossudo. Na incandescência da luz, toda sua face era de uma harmonia sublime. E, além do mais, sua magreza e palidez combinavam perfeitamente à gestalt. Tudo nela era perfeitamente alinhado em pura delicadeza. 
- Essas são as estantes que aquele senhor disse que eu poderia encontrar meu livro?
Se tratando das únicas estantes de livros que tínhamos...
- Sim.
Sua movimentação inquieta e eufórica me excitava. Era nítida a minha falta de concentração.
- Ei! Você poderia me ajudar a procurar um livro?
Meu corpo começou a tremer e senti um mal-estar esfuziante que parecia torcer minhas vísceras. Uma vontade de verter em fezes me contorceu nas entranhas, tamanho o torpor do desespero e da ânsia. “Tenho que distraí-la. Preciso pensar em algo para que ela não perceba meu rosto”, pensei. Mas, porra, era meu rosto. Nele estava minha boca, meus olhos e meus ouvidos. E eram essenciais para uma conversa. Não teria como. Me levantei. Depois de respirar profundamente, marchei em direção à vergonha e à humilhação, pensando no que ela me diria e como ela faria para caçoar da minha aparência de besta.
- Qual é o autor ou o nome do livro?
- Então, eu quero um livro do Erick von Daniken, Eram os Deuses Astronautas? – disse-me enquanto folheava o gasto e despedaçado O Mundo de Sofia – O cara lá em cima disse que vocês o tinham e, poxa, é tão difícil encontrar esse livro. Preciso levá-lo a qualquer custo.
Eu já havia visto o Daniken por ali, mas não gostei da capa então não li. Bem, eu sabia onde encontrá-lo. E, por sorte, o livro não estava no mesmo corredor em que ela estava, assim foi fácil de evitá-la no primeiro instante, mas ainda precisaria lhe entregar o livro.
- Como farei para dar esse livro pra ela? – balbuciei. Pensei em deixá-lo sobre o sofá enquanto sairia do porão inventando uma desculpa para subir ao andar de cima. Pensei em dizer que o senhor lá do andar de cima havia se enganado, que o livro já fora vendido. Pensei em... - Ah! Você o encontrou! – ela me surpreendeu aparecendo em minhas costas.
- Sim, sim.
Não havia como escapar, por isso abaixei a cabeça para que ela não me olhasse diretamente. Eu tremia e suava muito. Estava assustado e com medo do que ela poderia me dizer. Ela permaneceu em minha frente rindo, agradecida, por eu ter encontrado o tão procurado livro. Elogiou a minha capacidade de encontrá-lo rápido e disse que voltaria em breve para conseguir mais livros. Eu apenas assenti a tudo calado, como um soldado ao lado de seu general.
- Até mais – e subiu as escadas cambaleando novamente.
Confesso que, minutos depois de certificar-me do silêncio do cômodo, me senti anestesiadamente bobo.
- Ela não riu da minha cara - repeti diversas vezes para todos os autores das estantes. Meus pensamentos recorreram à imagem daquela esguia menina astronauta descendo as escadas, lânguida e desajeitada. Quis volver à cena da entrega do livro diversas e diversas vezes.
- Ela disse que voltaria...
Depois de alguns minutos naquele transe de tresvario, corri às escadas e perguntei ao senhor vesgo se ele havia percebido para qual direção ela virara quando saiu do beco.
- Ela esqueceu alguma coisa, meu jovem?
- Não, nada.
Percebendo que poderia me expor, desconversei.
- Bem, vou para casa. Acho que já está na hora.
Vesgo me fitou desconfiado, pois eu estava caindo fora mais cedo do que comumente iria, mas não disse nada.
Mesmo sendo meu único companheiro de longas horas, não seria bom confessar o que senti por aquela garota naquele momento tão sublime. Na escola isso não deu muito certo. Por que daria agora?
Quando sai do beco, olhei para todas as três direções possíveis, mas não a vi.
- Hoje é sábado. Três horas e quarenta e sete minutos!
Apareceria sempre perto desse horário. E foi o que fiz: comecei a freqüentar o sebo perto das três da tarde, permanecendo lá até as oito, nove da noite. Mas nada dela dar as caras.
Às vezes a menina astronauta poderia ter aparecido ali na parte da manhã ou pouco depois do horário que eu havia ido embora. Quis perguntar ao vesgo, mas ele poderia caçoar de mim.
- É melhor eu mudar os planos.
Passei a freqüentar o sebo durante uma semana inteira na parte da manhã. Depois, na parte da tarde e, por fim, em dias alternados: um dia pela manhã; outro dia pela tarde. Quando me dei conta, já estava passando o dia inteiro no sebo do senhor vesgo. Mas... nada. Ela não deu as caras novamente.
- Por que você tem estado triste, jovem?
- Nada não – sabendo que não o convenceria com palavras curtas, completei –... Sempre fui assim, oras – Mentira! Eu não queria dizer, mas estava realmente triste e frustrado.
Vesgo riu.
- Na verdade, desde aquele dia em que aquela garota magrela apareceu aqui você está esquisito – sentou-se ao meu lado, olhando para a rua e acendendo o velho pito do cachimbo. Depois de tragar por alguns minutos, o velho vesgo sentenciou sua conclusão:
- Está apaixonado por ela, não está, garoto?
Ridiculamente assenti com a cabeça enquanto olhava para o turvo horizonte dentro de mim mesmo. Vesgo não soube se aquilo era um sim ou uma reprovação irônica. Mas ele não se importou e apenas riu. Embora tempos depois eu fosse me valer dessa única experiência superficial como base para todas as minhas relações futuras, naquele momento, eu não soube explicar se estava de fato apaixonado.
- Suar frio pensando numa garota para ter uma ereção de dois minutos não é necessariamente uma paixão – disse-lhe.
E saí.
Enquanto eu sumia na curva do beco, o senhor vesgo me observou compenetrado e espantado.
Nunca mais fui ao sebo. Nunca mais vi o senhor vesgo.
Burrice. Só porque me senti envergonhado por estar de fato apaixonado.
Naquele dia, no meu quarto, pensando sobre o que senti e sobre como reagi, tive vergonha de mim mesmo. Fui ridículo. E, para completar, tomei uma decisão ainda mais escrota: mudaria meu comportamento; não freqüentaria mais lugares nerds (como sebos, bibliotecas e livrarias).
A partir de agora eu trocaria tudo pelas modas da cidade, ou seja, os pubs e os puteiros. No começo foi bastante difícil: desabituar da leitura, dos lugares cativos e tranqüilos. Também admito que me custava compreender como as pessoas podiam se animar com diálogos vazios que não dariam em nada. Fingir uma amizade - porra - isso era demais para mim! Muitas vezes, quando alguém me abordava, eu suava frio, gaguejava e não sabia o que dizer. As pessoas, percebendo meu desajustamento, logo me esqueciam e sumiam no meio daquela multidão monótona.
No final das contas, uma coisa jamais mudou: eu continuava sozinho. Solitário.
Mudei novamente os planos: passei a ir a esses lugares apenas para beber, depois, quando ficava inebriado e entorpecido, ia aos puteiros. Nunca fodi com putas, confesso. Apenas ficava por lá até a noite alcançar o amanhecer. Pois, devo admitir: sempre tive medo de dormir durante a noite. Me sentia desamparado e angustiado nos arrebóis da penumbra. Durante o dia, a sensação era amenizada e me possibilitava um sono sem pesadelos. Meus pais sabiam, mas, como sempre, deram de ombros. Suas únicas preocupações eram em me deixar dinheiro para eu passar o dia. Eles sempre estavam muito ocupados promovendo seus vernissages falidas para ganhar mais e mais dinheiro em um ateliê na capital. E iam bem até descobrirem que eles financiavam obras famosas falsas. Tiveram que fugir para algum lugar inóspito. Mudaram de nome. Recebi, uma semana depois, após o desaparecimento deles, um atestado de óbito fidedignamente falso que dizia que meus pais haviam falecido devido a diversos traumatismos sofridos num acidente de carro. Como eu era o único herdeiro, o ateliê e a casa ficaram para mim. Tomei as devidas providências e, mesmo com aquele documento falso, tudo foi passado para o meu nome – para desespero dos meus falecidos pais. Mudei-me um mês depois para um apartamento pequeno, de três cômodos, no subúrbio da cidade. Aluguei a antiga casa e o ateliê para os almofadinhas da classe alta que consideravam os espaços ótimos para suas confecções de grife. Depois de dois meses, recebi uma correspondência desesperada dos meus pais dizendo que “tudo foi um grande equívoco” e que eu precisava repassar os imóveis de volta ao nome deles.
- Agora eles estão vivos... Filhos da puta!
Respondi dizendo que não passaria jamais: “Vocês morreram de verdade para mim” escrevi. Nunca mais ouvi falar deles. Espero que estejam em paz. Na verdade, espero que tenham morrido.
Devo admitir que me senti muito bem em ferra-los dessa maneira.
Apesar da solidão, eu estava bem. Honestamente, eu já havia passado dezoito anos da minha vida apenas recebendo dos meus pais o que o dinheiro consegue prover a qualquer homem com necessidades. E agora que eu tenho o dinheiro eles me são inúteis.
Inúteis como minhas noites insones regadas a angústia e medo.
A única maneira de conseguir dormir sem ser dominado pela angústia e o medo, era estar entorpecido pelo álcool. Por vezes, desesperado, abandonava o barulho do silêncio de meus cômodos e corria para o bordel mais próximo. Lá, batia no quarto número 8, que sempre me acolhia com reprovação e um sorriso experiente. Tornamo-nos amigos depois das diversas noites que passei ali, pagando para lhe contar desculpas descabidas do por que não poderíamos foder. Numa das noites ela desabafou:
- Como pode? Você me paga oitenta pilas para ficar contando histórias, homem? – disse-me nua com as mãos na cintura – Olha, se eu cobrasse para isso, teria virado terapeuta!
Pedi desculpas pelo engodo. Ela riu.
- Você é o primeiro homem que eu vejo pedir desculpas a uma puta.
Confessei-lhe então do porque eu aparecia ali na alvorada dos dias. Ela, com sua pose de donzela decadente, ouviu e concordou com olhos expressivos e negros.
- Mesmo você não gostando, vou continuar aparecendo aqui! Estou pagando, porra! – esbravejei inutilmente.
Ela gargalhou alto e até perdeu o fôlego. Me senti ridículo. Um pobre coitado que pedia compaixão para a terapeuta do amor. Ao recuperar o ar, ela colocou uma dose de vodka e tomou-a pura. Seu olhar fuzilante me penetrou alcançando as vísceras. Senti pena de mim mesmo. Então, de olhos fechados, ela veio cambaleando a minha direção, alisando seus cachos selvagens e assim ela se prostrou na minha frente já com o copo vazio. Suspirou profundamente e descansou sua mão em minha face.
- Você pode vir, meu bem, mas não me pague por isso.
Ela reclinou suavemente em minha direção e vi seus seios firmes e macios apontarem para mim. Ela me beijou o lábio demoradamente e, antes de sair do quarto apagando sua luz rouge, tirou-me os sapatos e me ajeitou na cama.
- Durma bem.
Foi a melhor noite da minha vida.
Quando acordei, vi que ela havia deixado sobre os pés da cama duas fatias de queijo e uma garrafa de café. Comi e bebi sem pressa. Fui ao banheiro do quarto dela e percebi que havia uma banheira. Pensei em descansar-me de molho por algumas horas naquela porcelana relaxante, mas logo me vieram à mente todas as bundas sujas, peludas e escrotas que já teriam repousado ali. Contentei-me apenas com um esguicho de água da pia no rosto. Depois de me vestir, escrevi uma nota e deixei sobre sua cômoda. “Obrigado pela melhor noite da minha vida”.
Dias depois ela me diria que sempre ouvia aquilo de seus clientes.
- E olha que trepávamos a noite inteira, hein! - me confessou rindo.
Enquanto avançava pelos cômodos e corredores do bordel, senti o odor de sexo inundar as minhas narinas.
- Que cheiro escroto de porra amanhecida! – Tive vontade de vomitar. Corri exasperado para a porta e, quando saí, minhas têmporas estavam em chamas, tamanha ânsia que senti. Por vezes, confesso, disse a mim mesmo que jamais voltaria ali, mas sempre que a noite me visitava na cama do meu quarto eu concluía que acordar cheirando a porra amanhecida era mil vezes melhor do que dormir acompanhado da morte.
Permaneci nessa vida de dormir no antro das putas por durante um mês inteiro. Algumas delas começaram assim a me aporrinhar. Sempre falavam de mim pelos cantos, como se eu fosse surdo. "Já percebi que ele quer tirar nossa amiga da zona" ou "Foder de graça todo mundo quer, mas se vir se engraçar pro meu lado vai ter", diziam diversas vezes. Foi então que, num desses dias, quando acordei, depois de comer as duas fatias de queijo e tomar meio litro de café, minha querida rameira, sentou-se ao meu lado e, depois de carícias e gracejos, repousou seus lábios perto do meu pescoço e disse em tom de confissão:
- Que tal se me levasse com você para dormir no quarto da morte?
Naquele instante o desespero me fulminou. O torpor e a consternação tomaram conta do meu semblante pálido e frio. Não percebendo a minha cólera, ela tornou a indagar:
- Hein, meu amor...
O eco de sua fala propagou pelo meu cérebro, como um derrame.
- Porra! Vai se foder! – urrei desesperado, arremessando-a no chão. Seu grito de dor atormentou os corredores que logo estavam cheio de putas batendo em nossa porta. No meu transtorno de fúria, abri a porta alucinadamente, empurrando todas as frangas que me seguravam pelos braços e pernas. Atravessei o cômodo, onde as porras inflamavam as minhas têmporas e corri para a rua. Quando virei à esquina abracei o poste e vomitei na sarjeta.
- Nunca mais volto nesse lugar, suas putas do caralho!
Temendo me dar mal, visto que as putas lambiam e sentavam no pau de todos os caras da cidade, além de serem protegidas pela corja de policiais cafetões que aliciavam todas dali, decidi mudar-me para a cidade vizinha, um pouco menor, que me possibilitaria ao menos cuidar dos meus bens de longe.
Dois dias depois de me estabelecer, avisei aos almofadinhas do meu novo endereço e pedi-lhes que não o revelasse a ninguém com a desculpa de que, embora eu fosse um homem próspero e rico, gostaria de permanecer no anonimato. Obviamente a desculpa não colou muito bem, pois eles sabiam que eu apenas era dono de dois imóveis na cidade e também porque os policiais já haviam me procurado no bairro e também em suas casas.
O lugar em que eu estava agora era um cortiço de quinta, a dez minutos de caminhada do centro da cidade. Tinha dois cômodos. O suficiente. Ali, logo vizinho a minha porta morava uma família de angolanos que, como logo descobri, tinha uma filha. Ela invadiu meu cômodo no dia em que me mudei para buscar uma boneca que não estava lá.
- Fodeu, não sabia que tinha crianças nesse andar! – Mas logo toda minha raiva se exauriu quando vi uma negra linda e carnuda buscando a menina da boneca. Era a mãe.
- Desculpe, senhor, ela é muito espoleta.
Naquele primeiro dia, passei a tarde toda fumando charutos em minha cadeira descansada propositadamente nos corredores. Era importante conhecer a rotina de todos antes de descansar. Principalmente daquela negra linda.
Quando caiu a noite, apareceu no cortiço um homem trazendo uma sacola de feltro. O cara era um armário. Devia ter cem quilos de pura massa. O observei perambular ogramente pelas escadas e corredores. Ele cantava Good Golly Miss Molly do Little Richard e passou por mim enquanto urrava o refrão.
- Boa noite, senhor! - disse-me empolgado.
Nesse instante a porta da casa da negra se abriu e na direção do negrão veio a menina das bonecas.
- Papai! – gritou o abraçando. 
- Puta merda - infelizmente ele era marido da musa de ébano que me visitara pela manhã. Permaneci ali, fumando. Menos empolgado agora que sabia que aquela negra linda tinha um marido.
- Tive esperanças dela ser mãe solteira.
Meu corpo já estava exausto, mas ainda havia resquícios da penumbra noite. E, como sempre, eu não podia dormir. Permaneci no silêncio, fumando, envolvido nas cinzas dos meus charutos, aguardando pela manhã. Foi quando, perto das cinco da matina, vi, novamente, saindo para ir trabalhar o angolano parrudo. Ele levava a menina - ainda sonolenta - nos braços.
Conforme apurei gradualmente nos dias subseqüentes, ele levava a menina à escola e depois ia trabalhar. Carregava e descarregava navios estrangeiros em troca de gorjetas e xepas. Sempre saia muito cedo e voltava muito tarde. Sua esposa ficava sozinha. até as três horas da tarde, quando sua filha voltava da escola puxando sua mochila escada acima.
Por dias e dias pensava naquela negra besuntada de suor e cansaço do sexo febril que teríamos se eu a dominasse. Pensava em seus mamilos cor de chocolate e na suas nádegas firmes e duras de potro selvagem. A cada minuto de alucinação esguia, tornava-se mais nítida a imagem de seu corpo bestial e pecaminoso, roçando sobre minha pele, minhas pernas...
- Não agüento mais! - E naquele dia de surto, perto das onze da manhã, acordei inteiramente suado, depois de sonhar com ela, nua em minha cama, de pernas abertas. Eu estava decidido a cometer uma loucura. Levantei-me descontroladamente excitado e corri para a porta da casa dela. Bati insandecidamente.
- Abra, pelo amor de Deus!
Andei em círculos alternando a cada punhado de passos a batida descomedida e desesperada à porta do pecado. Segundos que mais pareceram centenas de minutos demoraram até ela abrir com sua expressão de espanto e confusão.
- O que foi?! – disse desesperada. Ela estava como acordou: cabelos enrolados aos rolos da beleza e uma velha blusa de malha surrada pelo tempo. A agarrei sem lhe explicar minhas aflições e tormentos, beijando-a selvagemente. Ela resistiu me contra-atacando com golpes nas costas e na face.
- Me solta! Não é porque sou negra que você abusará de mim! Seu filho-da-puta!
 Eu não desistiria. Suas pernas envolveram-se ardilosamente ao meu quadril na tentativa de me derrubar. Arrestei-me pelos dois cômodos do cortiço dela tentando conter sua fúria com beijos em seu pescoço que recendia ao delicioso perfume de feromona. Sem mais tempo, desesperado pelo prazer, a joguei no sofá rasgando sua malha. Vi seus seios e mamilos, belamente torneados.
Seus olhos alardeados revelaram que ela já não mais sabia o que fazer e, por isso, se rendeu. Durante uma hora inteira os gemidos e urros confusos foram escutados por todo o cortiço. Meu frenesi foi tamanho que apenas me lembro de recobrar a lucidez depois de tudo terminado.
Depois, restamos no sofá, ambos esgotados.
"Se ela contar ao marido", pensei "sou um cara morto".
- Vá embora. Me deixe sozinha – disse-me quebrando o silêncio.
Em silêncio, recolhi minhas roupas e saí nu. Passei pelos corredores solitários daquela tarde de sol. E ali permaneci por alguns minutos, observando o céu, limpidamente azul. 
- Bom, não foi como eu pensei, mas ao menos dormi com uma mulher - ri - e isso merece um charuto. Quando entrei no meu quarto, acendi o prazeroso havano e me joguei na cama. Depois de tragá-lo inteiramente dedicado àquela foda descomunal, dormi.
Somente acordei com o bater da porta.
- Merda! - eu estava anestesiado e dolorido, mas mesmo assim me levantei e abri – ainda estava nu e não me dera conta.
- O senhor já encontrou minha boneca?
- Merda! – fechei rapidamente a porta, logo que percebera a minha insanidade. Desorientado de tempo e espaço procurei meu relógio. Já era tarde da noite. E estava fodidamente abafado. Tomei um banho gelado, rápido e tépido, apenas para curar a preguiça e fui ao centro da cidade. Os almofadinhas sempre apareciam em suas Harley-Davidsons vestindo jeans e jaquetas de couro, fumavam Pall Mall e bebiam uísques gringos falsificados. Isso quando não estavam com aqueles carros V8 comprados de desmanches, sempre apreendidos pelos policiais que depois os levavam para os rachas da meia-noite e só devolviam para os donos em troca de propinas, mas, até lá, os carros já estavam batidos ou simplesmente sem a maioria das peças.
À noite, caminhando pela rua, percebi que os bares de blues e jazz estavam cheios e, nesses casos, a cerveja era sempre mais barata. Além disso, sempre há vários negros habilidosos tocando e dançando suas músicas freneticamente, uns com os outros, e exibindo seus anéis e gargantilhas de latão.
Entrei em um perto da esquina e, logo depois do lobby, escutei os caras riffando as primeiras notas para um cover de Cross Road Blues do Robert Johnson. Admirado e empolgado, parei no balcão.
- Uma cerveja, por favor – ordenei para combinar com o clima infernal.
Fiquei ao canto, a meia luz, apreciando a música empolgada daqueles bluesmen que, com certeza, assim como o velho Johnson, também venderam a alma para o diabo. Depois de quatro garrafas e duas horas, vi entrar, esbarrando nos dançarinos, o grande e forte angolano do cortiço.
- Caralho! - Imediatamente, suei frio, mas logo me recompus, pois não podia me denunciar assim, descaradamente. Temia que ele já houvesse descoberto e me procurasse. Ele se movimentou desordenadamente pelo salão, dançava balançando o pescoço e a cabeça, olhando para as outras pessoas que também se agitavam. Ali do meu lado, ordenou uma vodka para o barman e, depois do trago, sacudiu sua pelve elástica. Puxava várias mulheres pelos braços e as rodopiava com delicadeza e agilidade. Quando dançava só, recitava as letras impecavelmente, como se fosse o mestre Robert Johnson.
Logo organizaram uma roda de blues para competir com ele e então a algazarra se formou. As pessoas, cada vez mais inflamadas de álcool, incendiavam o bar. Quando o repertório do Johnson acabou, alternaram entre Bo Didley e Chuck Berry para não perder o ritmo. A farra perdurou até a madrugada quando os dançarinos e músicos começaram a se retirar, cada um com uma mulher ganha na noite. O angolano estava abraçado a uma moça corpulenta e sorridente que lhe repetia diversas e diversas vezes sobre um quarto que ela tinha ali perto, há duas quadras. "Vamos para lá" dizia "você vai gostar". Ele nem sequer resistiu. A acompanhou. Decidi segui-lo. Até porque isso me confortaria e dissolveria todo o remorso que eu poderia sentir por ter transado com sua esposa.
Contornaram a esquina e se livraram da multidão dos bares bluseiros.
Estranhamente, reconheci aquela rua.
- Merda! Ele vai para o puteiro das loucas!
Atordoado, sentei-me na sarjeta que vomitara há tempos atrás me lembrando de quando me exasperei daqueles corredores que exalavam a sexo e porra amanhecida. Lá longe vi que eles entraram no puteiro, depois de acenarem para os policiais cafetões. Nesse horário os policiais intensificavam a guarda das putas, pois o movimento era bizarramente grande e eles não podiam permitir brigas, pois machucar suas putas prejudicaria o fluxo comércio.
Já não havia nada que eu pudesse fazer. E como temia ser reconhecido pelas putas, que circulavam na rua a todo momento carregando homens bêbados para o puteiro, fui embora para a minha casa.
No cortiço, subi as escadas calmamente até o meu andar, sem fazer barulho. E, por algum tempo, observei a casa de minha deusa. A luz ainda estava acesa, mas achei melhor não cometer nenhuma loucura, pois seus filhos estavam lá.
- Ainda bem que trepei com ela. Ainda bem! - disse enquanto procurava minhas chaves - Marido idiota!
Entrei para o meu quarto e sentei na minha pequena poltrona, olhando para as arestas da janela. Precisava me distrair das noites mortais. Acendi então uma vela e um charuto. Fechei os olhos e me dissolvi na imaginação. Muitas são as vezes que eu refletia sobre minha vida e sobre como cheguei frustradamente até ali. Sempre tive o desejo de corrigir a minha insignificância. Devia isso a mim mesmo. E eu sabia: o meu acerto de contas comigo mesmo tinha de começar logo. Eu estava farto dessa solidão. Dessa vida sem relação com qualquer outro ser vivente.
- Amanhã vou me mudar daqui, acertar minha vida. Prometo.
Tive vontade de chorar.
Senti saudades do velho vesgo e dos momentos de aprendizado que ele me proporcionara enquanto estive enfurnado naquele porão, lendo. Senti uma tênue dor no coração, lembrando-me de que ele ainda estaria lá com seus livros e suas músicas bucólicas e tristes. Queria lhe pedir desculpas. Tinha sido extremamente rude e infantil o abandonando daquela forma, só por causa do comentário sobre a menina astronauta.
- Ele poderia ter me ajudado... mas, não... - suspirei - eu tinha que estragar tudo como sempre.
Eu não podia deixar essas histórias inconclusivas tomar conta do resto da minha vida. Foi então que eu tive um estalo... "eu poderia comprar um carro com a grana que tenho guardado nesses últimos meses e viajar para onde ninguém me conheça. De lá, eu poderia receber o aluguel dos imóveis através do correio até conseguir uma casa. Poderia começar uma vida nova. Uma vida de verdade..."
De repente, ouvi, vindo do térreo, um barulho de bater de portas de carro e alguns gritos e gemidos. Despertei dos meus pensamentos assustado e emputecido e corri para a janela para ver quem eram os filhos da puta que me incomodaram. Quando olhei para o térreo, reconheci, deitado no chão, o angolano. Sua camisa branca estava embebida em sangue e dois homens o chutavam com fúria e horror.
- Cadê o dinheiro, caralho? - eram os policiais cafetões, recebedores de pagamento das putas.
Ele não tinha dinheiro. Talvez não soubesse que dormira com uma puta – o que duvido muito - mas o fato é que agora ele não tinha como pagar. Ele apanharia até cagar a grana para aqueles caras. Seus gemidos e choramingos de desespero eram altos e logo todas as luzes do cortiço se acenderam. Depois de muito chutar, os policiais o levantaram e marcharam o segurando pelo colarinho, subindo as escadas. Decidi desaparecer da vista da janela, pois poderia sobrar para mim. Apaguei a vela restando inteiramente a penumbra.
- Onde você mora? – urravam para o angolano - Onde você mora, seu filho da puta?!
- Pelo amor de Deus, não tenho dinheiro! Não tenho dinheiro na minha casa – disse num choro cada vez mais ordinário. Quando os policiais chegaram à casa dele o jogaram no chão e chutaram a porta para abri-la. Gritos e mais gritos de medo e desespero foram ouvidos naquela casa. Tive pena, mas não podia fazer nada. Realmente, não podia fazer nada... Sabia que todos ali estavam apanhando – e muito – e, se não dessem o dinheiro para aqueles caras, haveria morte. A cada momento o inferno era maior e os gritos se tornavam urros de pavor. Foi então que, no ápice daquela loucura atroz, escutei passos exasperados de alguém passar pelo corredor, correndo. Quase me borrei temendo virem ao meu quarto e, por isso, me arrastei como um verme para debaixo da cama. Lá permaneci com os olhos e os ouvidos selados pelas mãos até a luz do dia invadir meu quarto e minhas pálpebras.
Quando amanheceu, me sujeitei a sair do esconderijo. Já não havia nada, nem ninguém. Tudo estava morbidamente comum. De qualquer maneira, permaneci algum tempo observando o movimento atrás da porta entreaberta, desconfiado e atento, na tentativa de identificar qualquer movimento que fosse. Arrisquei minha cabeça observando os corredores e escadas, mas... nada. Voltei para meu quarto e retirei minha mala de dentro do armário. Arrumei minhas poucas roupas e objetos pessoais.
- Estou indo embora.
Nada me impediria. Conferi os armários para saber se não estava me esquecendo de nada e, para minha surpresa, encontrei uma boneca de plástico, velha e nua.
- A boneca que a menina tanto procurou.
Depois de organizar tudo, deixei a boneca em frente à porta do meu velho cômodo. Sabia que ela a encontraria ali.
- Bem, agora vou comprar um carro.
Enquanto descia as escadas carregando tropegamente a minha mala, tive uma idéia: conseguiria uma grana para a família de angolanos. A grana seria a que sobrasse da compra do carro.
- É... é melhor fazer isso ou aquele cara vai morrer.
Suspirei profundamente e fui até o centro da cidade. Naquela região os carros eram sempre iguais: V8 para os rebeldes e pick-ups para o resto. O bom é que nunca era difícil negociar a compra pelo fato de se ter pouca diversidade de escolha. E como eu estava de saco cheio, decidi tudo na primeira loja que orcei os preços. Não demorou muito. Trinta minutos entre papéis de pagamento e documentação. Escolhi uma pick-up: F-250, dos anos 70, a diesel, das mais baratas. Paguei em dinheiro vivo. E, antes de ligá-la, guardei minhas tralhas no truck.
O primeiro destino: o bar de blues da noite anterior. Lá tomei meu último café e conferi a grana que sobrara. Escrevi uma pequena nota dizendo "para as dividas" e envolvi no pequeno bolo de notas.
- Bem, com essa grana dá pra pagar outras três putas e ainda sobra uma grana para ele comemorar com bebidas.
Quando terminei o café, agradeci ao barman pelas noites de blues e rodei até o cortiço. Lá, ensaiei o que diria à negra linda, já que, pelo horário, seria a única em casa e, só assim, subi as escadas. Bati calmamente esperando que ela me atendesse. Nada. Sentei-me nos degraus. Poderia ter ido a algum lugar. Pelo horário, sua filha também já estava perto de chegar da escola. 
- Se ela não aparecer, darei o envelope com a grana pra menina, de modo que ela o entregue para a mãe. Mas o ideal é que ela estivesse ali... Até daria para conseguir uma trepada final, de despedida. Mas ninguém chegou. Ninguém atendeu a porta. Depois de quarenta minutos de espera sentado nos degraus da escada, percebi que a boneca que eu deixara na porta de meu velho cômodo não estava mais lá. Desconfiado, levantei e fui até lá. A porta estava aberta. Olhei sorrateiramente e vi que, lá dentro, deitada na cama, estava a pequena angolana abraçada a sua boneca de plástico. Me comovi. Ela então se virou, fitando-me calmamente.
- O senhor achou minha boneca, – disse-me erguendo-a com as mãos – obrigado.
Assenti com a cabeça. E me sentei à beirada da cama.
- Onde estão seus pais?
- Eles foram para o hospital.
- Para o hospital?
- É.
Suspirei levando minhas mãos aos olhos para disfarçar o choro. "Pelo jeito estão mortos!”.
Confesso que a minha preocupação não era a negra linda e a possibilidade de foda que tinha com ela, mas sim a menina. Ali, não havia ninguém para cuidar dela. E eu tinha certeza que os policiais a deixaram viva porque não a viram. De alguma forma não a viram por ali.
- O que aconteceu ontem na sua casa? Eu ouvi gritos.
A menina ficou em silêncio.
- É importante que você fale...
- Eu não sei – confessou de cabeça baixa – eu sai correndo quando eles começaram a brigar.
- Quem começou a brigar?
- Todo mundo.
Temia o pior. Mas para me certificar da hipótese, teria que ir ao cortiço dos angolanos. 
E foi o que fiz.
- Espere aqui, pequena.
Quando cheguei perto da porta, percebi que ela realmente fora arrombada pela fúria dos policiais. Entrei. Tudo estava destruído. Havia sangue seco por todos os cantos, no chão e nas paredes. Fora realmente um ato cruel. E não usaram armas de fogo, pois não escutei nenhum estrondo. Desesperado e confuso com tudo aquilo que acontecera, vasculhei rapidamente os dois cômodos procurando o que pudesse ser salvo de pertences para a menina. Revirei o guarda-roupa e tudo que pudesse ser utilizado eu arremessava pela janela. Antes de sair, vasculhei o lixo e, como não havia nada de importante, o espalhei pela casa para reaproveitar o cesto. Sai e guardei tudo que juntara dentro daquele velho cesto e então corri para o meu antigo cômodo.
"Não tenho dúvidas, eles estavam mortos".
- Menina, vamos! Seus pais ficarão por bastante tempo no hospital e pediram para que eu cuidasse de você.
Mentira.
E, honestamente, eu não tinha idéia para onde levá-la. O que diabos eu faria com ela? Mas se eu a deixasse ali, morreria ou teria - no mínimo - uma vida muito deprimente. Poderia se envolver com aquelas putas...
Puxei-a pelo braço e corri para a caminhonete. Apenas me acalmaria quando estivesse bem longe dessa cidade de merda.
- Pra onde a gente vai? – perguntou-me desconfiada, enquanto eu a sentava no banco.
- Para um lugar com calmo... talvez com praias, – respondi – você vai gostar. 
Joguei tudo no truck e dei a partida, seguindo as placas da rodovia principal que indicavam a saída da cidade.
- O senhor tem alguma coisa pra gente comer? – me perguntou abraçando sua boneca.
- Não.
Realmente não tinha nada.
- Logo pararemos. Prometo.
Já não podíamos arriscar parando em postos da cidade. Ela era uma presa fácil se reconhecida pelos tiras, que provavelmente já sabiam que aquela família morta tinha uma filha.
Enquanto rodava, tentei raciocinar sobre os possíveis lugares que poderia deixá-la, antes de dar início aos meus planos: o objetivo de uma nova vida. Uma escola de freiras seria uma ótima opção. Melhor que a idéia de internatos e orfanatos, que, na maioria das vezes graduavam marginais. 
- O que você acha de ir para uma nova escola?
Ela dormia. Teria que falar com ela sobre isso mais tarde.
Depois de rodar cerca de sessenta quilômetros, me dei conta de que já havíamos passado do perímetro de risco e estávamos temporariamente livres de problemas com a polícia.
- Ei, acorde! Vamos comer.
Adentrei um velho posto de petróleo que indicava ter um restaurante. Era o único. E no meio daquele espaço com odor de axila e mofo nos servimos do almoço excentricamente convidativo sob uma plaqueta que dizia: À vontade por $10. A menina e eu passamos uma hora inteira nos empanturrando de tudo que tínhamos direito e, depois, quando nossos estômagos já estavam estufados e pesados, terminamos com uma sobremesa de sorvete de fruta.
Pedi a conta.
Perguntei ao dono do bar se havia alguma pensão ou hotel por perto, o mais barato possível, apenas para dormir. Ele então me garantiu que o hotel mais próximo estaria a quarenta quilômetros e, mesmo assim, me custaria setenta mangos o quarto.
- Olha, você pode fazer como os caminhoneiros: durmam na cabine ou na carroceria. É o jeito.
E o pior é que ele tinha razão. Era a única saída. Eu não podia gastar setenta pratas com um quarto. Depois de pagar pela nossa modesta refeição fui com a menina até a caminhonete. Arquitetei de maneira amadora uma saída para que ela tivesse o mínimo de conforto no seu sono. Pensando em simular o que seria a estrutura de uma barraca de acampamento, amarrei um velho pano que me servia de lençol para cama nas quatro extremidades da carroceria, de modo que a única maneira de ficar ali era deitado. Desamarrei o velho colchão que trouxera e o forrei no soalho.
- Pronto, agora você pode deitar ai.
Ela me olhou de maneira desconfiada.
- Mas e se chover?
Ela tinha razão. Estaríamos fodidos. Acordaríamos encharcados.
- Não vai chover.
Ela assentiu e subiu à carroceria se rastejando. Acomodou sua boneca na extremidade do travesseiro e depois se deitou envolvendo sua mãozinha na cintura dela. Desengonçado, entrei no truck desarrumando o colchão e o lençol que a tanto custo ajeitara para a menina.
- Puta merda, que aperto!
Alinhei tudo novamente, como pude, e deitei-me ao lado dela. Eu estava decidido a ficar de olhos abertos até o outro dia, quando, talvez, durante as paradas para as nossas necessidades me possibilitariam um rápido cochilo, mesmo que de um olho só.
Permaneci ao lado da pequena, observando sua inércia. Senti sua respiração se alinhar gradualmente ao movimento do seu corpo: era o embalo do sono profundo, onde talvez ela tivesse o mínimo de paz e conforto que tanto merecia.
"Talvez não tenha se dado conta da morte dos pais", pensei. E não poderia lhe confessar isso agora. “Esses tiras filho da puta...”. Tive pena. Me emocionei. Como pode uma pessoazinha dessa passar por tanta desventura e sofrimento? “Não está certo, ela não pode sofrer assim”. Embora eu estivesse consciente que a penalização da menina fosse equivocada e ilógica, eu pouco podia fazer para reverter aquilo, não porque eu não tinha condições. Na verdade, a grana que eu tinha poderia nos sustentar tranqüilamente.
"Eu não posso fazer isso. Não posso tentar levar essa garota comigo. Já tenho meus planos e, neles, não cabe mais ninguém".
Talvez eu estivesse sendo frio, mas criar uma relação de dependência com essa menina implicaria em responsabilidades que eu não estava a fim de assumir.
"Eu teria que cuidar da sua educação, de sua saúde, suas roupas"...
- Enfim, responsabilidades que eu não tenho paciência nenhuma para me dedicar - balbuciei transformando meus pensamentos em voz. Temi acordar a menina. Era melhor eu sair dali, deixar a pequena dormir sossegadamente. Rastejei para fora e me sentei na calçada de paralelepípedos. Havia movimento de carros vindo da estrada escura. O vento uivava e me cortava a face, de tão frio. Alguns caminhoneiros estavam envoltos em suas cobertas, mamando suas cachaças e uísques que compravam das putas de beira de estrada. Para se distrair do frio, eles alimentavam uma fogueira com resto de madeira da estrada e também do lixo que acumulavam em suas viagens infinitas. Contavam histórias, cada vez mais surreais, que combinavam com seus humores alcoólicos e entorpecidos. Tive vontade de me unir a eles, mas não podia abandonar meu posto de vigia do sono. Permaneci ali, tentando me distrair daquele cenário frio, bucólico e trivial, mas, sempre que eu buscava pensar em algo diferente da minha vida até ali, me ocorria o medo solitário e angustiante das noites. E a cura para esse desassossego de angústias e medos sempre fora uma mulher.
- Mulheres...
A verdade é que nunca estive em um relacionamento sério. Sempre estive com putas que nem sequer eu comi. O contato mais próximo e sadio que tive com uma mulher fora com a menina astronauta, no sebo do velho vesgo.
- Como ela estaria agora?
Senti vontade de encontrá-la. Pensei no que diria a ela se a visse em algum lugar. A imaginava num vestido florido realçando sua beleza lânguida e esbelta. No rosto, ela me mostraria seu sorriso relapso e expansivo. Eu me aproximaria e divagaria sobre sua perfeição. Ela, comovidamente encantada, se renderia a mim... Então, eu lhe confessaria, na mais sublime poesia, o que senti desde a primeira vez que a encontrei no sebo do senhor vesgo.
Naquele tempo, muitas foram as noites que ensaiei pensando no que diria à astronauta quando a encontrasse de novo nas prateleiras de livros. Por tempos e tempos conservei um estado débil que era percebido por qualquer um quando eu andava na rua, ou me sentava em algum banco ou aguardava nas filas, ou mesmo enquanto eu assistia a uma peça de teatro ou a um filme no cinema. A minha insistência em reencontrá-la, poderia ter sido boba e inútil, mas, ainda sim, eu deveria ter ido até o fim...
- Vejo que você seguiu meu conselho e decidiu dormir no seu carro, hein! – era o dono do bar do posto de gasolina.
- Mais ou menos, até porque eu não estou dormindo.
Ele riu e, depois de cuspir na sarjeta e arrumar suas velhas calças, disse:
- Vou começar a servir o café da manhã em quinze minutos.
- Café da manhã?! – só quando conferi o relógio percebi que já havia amanhecido. Os caminhoneiros haviam dormido amontoados em volta da fogueira que agora era apenas um punhado de cinzas.
Precisava acordar a menina. Sutilmente puxei o lençol que envolvia o truck. Ela ainda dormia. Depois de guardar a maioria das coisas que utilizei para fazer a “barraca do sono”, a chamei.
- Ei, hora de tomar café.
Ela permaneceu algum tempo na inércia da preguiça, recobrando a realidade. E, antes de sair da caminhonete, ela arrumou os lençóis da cama que dormira e me deu para que guardasse no lugar devido. Fomos então para o restaurante do velho e nos servimos de torradas e pães, queijos, frutas e um bom café. Ela estava em silêncio e permaneceu distante durante todo o café.
- O que é? Precisa de mais alguma coisa?
- Não – respondeu-me de olhos fechados.
- Quer falar alguma coisa?
Depois de entrelaçar seus dedos diversas vezes, ela finalmente confessou sua preocupação.
- Aonde é que a gente vai? E por que minha família não veio com a gente?
- A gente vai tentar encontrar um lugar para você ficar, pois, como eu disse, seus pais estão no hospital.
Ela não disse nada. Apenas abaixou a cabeça.
Suspirei.
- Olha, provavelmente eles estão todos mortos. Sua mãe e seu pai, enfim, mortos.
Ela chorou. Não havia como consolá-la.
Me levantei e sai. Fui até o estacionamento.
Acendi um charuto e lá permaneci, observando as estradas vazias. Assim como ela eu também precisava de um tempo, de um espaço para processar a perda. Digerir aquilo tudo.
Depois que terminei o trago, voltei à mesa. Ela continuava ali, na inércia de seus pensamentos.
- Vem, você precisa tomar um banho.
Paguei o velho e perguntei onde poderia dar um banho na menina. Expliquei que tinha pelo menos uns dois dias que ela não tomava banho e isso não faria bem para a saúde dela. Ele assentiu.
- Espere um momento – disse pegando o telefone.
A conversa foi rápida e logo ele deu sua permissão com um sorriso.
- Minha velha disse que você pode banhar a menina lá em casa. É só dar a volta por trás do bar. Temos um puxadinho lá. Ela aguarda vocês dois.
Agradeci. Demos a volta e bati na porta. Uma senhora gorda e vermelha com cara de bolacha nos atendeu.
- Entrem. Já arrumei o banheiro para a sua filha. Lá tem toalha e sabonete. Fiquem à vontade.
“Minha filha?”, pensei, “de onde essa velha tirou essa?”. Bem, de qualquer forma era melhor assim. Pelo menos ela não pensou que eu financiava ou traficava garotas menores de idade.

- Pode ir lá tomar banho. Eu aguardo aqui atrás da porta.
Ela assentiu e lá se foi.

Enquanto eu esperava, percebi que a velha assistia à televisão. Mesmo não assistindo àquilo há anos tudo era a mesma merda de sempre: programas de auditórios, verdadeiros circos sociais, que oferecem dinheiro em troca de alguma bizarrice ou humilhação voluntária. Fiquei absorto àquela papagaiada e acabei cochilando, em pé, encostado na parede. Apenas recobrei a consciência quando a menina saiu do banheiro, envolta na toalha.

- Preciso me vestir, você pode me ajudar?

Bastante encabulado, entrei no banheiro e a ajudei. Seu corpo minúsculo me pareceu ainda mais frágil e angelical. Novamente fui perturbado pelo sentimento de que algo poderia acontecer com ela.

- Pronto. Vamos embora.

Agradeci à velha e fomos direto para a caminhonete. Antes de dar a partida decidi contar a pequena o que aconteceria dali em diante. Não podia mentir.
- Agora a gente vai achar um lugar para você ficar...

- Mas eu quero voltar pra casa – me interrompeu.

- Já disse que seus pais estão mortos! Todo mundo está morto!

Seus olhos lacrimejaram.

- Me desculpe. Mas, infelizmente é a única verdade que temos.

Liguei o carro e partimos. Rodamos cerca de quatro horas num silêncio triste. Eu ainda não havia terminado de lhe contar os planos. Mas não havia nada que eu pudesse dizer ou fazer para amenizar sua tristeza e aflição. Os tiras já haviam cuidado de foder com tudo na vida dela e, não sei por que, eu tinha a sensação de que estava apenas terminando o serviço, mesmo involuntariamente.
- Olha, o mais certo é que você fique numa escola. Como aquelas escolas de freiras. Lá pelo menos você estará livre de problemas, além de ter uma boa educação e um lugar para morar.

Ela fingiu não ouvir. Impávida, permaneceu olhando para frente, na direção das faixas amarelas que contornavam os limites do asfalto. Em suas mãos, estava sua boneca, encardida e decrépita. Boneca que soava como o símbolo vivo da angústia do seu passado e da sua vida atual. Essa angústia também era nitidamente percebida quando se olhava para a menina: na expressão dos olhos, no silêncio dos lábios ou na fragilidade dos atos tão rudimentarmente forjados para continuar vivendo sem chances de identificação com qualquer que seja o outro, que parece não fazer diferença diante de seus olhos.

Mas devo admitir que eu seria apenas mais um de inúmeros outros que poderiam sentir pena de sua realidade fatal,  que poderia ser pormenormente execrada nas páginas dos jornais, nas vozes dos cortiços e das esquinas, e também no discurso amoral dos envolvidos que, sem remorso algum, proliferam a cólera alegando, contraditoriamente, que os responsáveis por atrocidades semelhantes a esta deveriam ser punidos com a morte...

- Já estou farto dessa balela toda, caralho! – gritei.

Assustada, lágrimas deslizaram à face da menina. Era um choro mudo e piedoso. “Me desculpe, o que eu disse não foi para você” pensei em dizer, mas não faria diferença alguma e, portanto, permaneci em silêncio. Decidi parar novamente. Precisávamos dar um tempo de nós para nós. Quando estacionei, ainda permaneci algum tempo ali, sentado, em silêncio, pensando em como recobrar o diálogo, mesmo que truncado e vazio para amenizar a sensação de distância que havia entre nós e entre as estradas do estado. Às vezes percebia que seus olhos confusos me procuravam, mas nunca se pronunciavam. Eu também já não podia mais fingir que estava tudo bem. Não podia disfarçar e tentar dizer o que eu não queria.
- Vou ao banheiro – disse-me, abrindo a porta da caminhonete.

Assenti.
A acompanhei andando em direção ao banheiro e, para não perdê-la de vista, sai e acendi um charuto, enquanto a seguia, de longe. Foi então que, ao meu lado, um carro da polícia estacionou. Dele saíram dois tiras: eram os dois tiras-cafetões que matou toda a família de angolanos. Me desesperei, fiquei em choque, imóvel. Eles tagarelaram por algum tempo, enquanto fumavam seus cigarros, observando a estrada. Comecei a suar frio, temia que me reconhecem. Logo que terminaram o trago, foram em direção ao restaurante do posto. De longe, vi a menina fazendo o caminho de volta para a caminhonete.
- Fodeu! – gritei levando minhas mãos à cabeça.

A menina reconheceu os tiras, e correu ensandecidamente para trás do posto, em direção a mata. Desesperado, sai do carro tentando não perdê-la de vista.

- Ei, espere ai! Por que está correndo?! – gritou um dos policiais. Ignorei.

Corri para salvá-la do medo devastador que sentia.

Consegui alcançar o lugar que antes ela estava, mirando para todas as possíveis direções do horizonte, mas nada. Aflito, corri em direção à floresta indomada na tentativa de escutar os ruídos de seus passos, mas também foi em vão. Os policiais, que já estavam na minha cola, me alcançaram, derrubando-me no chão. Me algemaram. Me revistaram. Perguntaram diversas vezes porque eu corria, mas não respondi. Não podia nem pensar em abrir a boca. Eles insistiram por alguns minutos no inquérito, mas não cedi. Depois de diversas ameaças sem resultados, me lincharam. Me surraram muito. Enquanto eu apanhava, me lembrei do dia em que vi o angolano à porta do cortiço, já sem forças. Lembrei também do desespero de toda família que morrera nas mãos desses filhos da puta e que, com certeza, também me matariam. Chorei.

- Vamos matá-lo se não confessar porque corria em direção ao mato, seu idiota filho da puta!

- Foda-se, seus cretinos!

Ameaçaram disparar contra minha cara.

- Vamos brincar mais um pouco antes de explodir seus miolos – disseram.

Recebi diversos chutes, muitos deles na cabeça, até onde consigo me lembrar, e, então, desmaiei.
Foi a última vez que vi a menina. Jamais me perdoarei.
Acordei no hospital da cidade no final daquela noite. A enfermeira me relatou mais ou menos o que contaram a ela. Os policiais me abandonaram nos corredores da sala de emergência com a desculpa que eu fora encontrado no acostamento e que, provavelmente, eu havia sido seqüestrado e linchado.

- Graças a Deus eles te encontraram, o senhor poderia ter morrido. As noites aqui são muito frias e com esses ferimentos certamente você teria uma hemorragia.

Mal sabia ela que aqueles cusões eram os responsáveis por isso tudo. Mas, ao menos, eu não estava morto.
- Alguma pessoa veio me visitar? – perguntei na esperança de obter informações da menina.

- Não, senhor.

- Nem mesmo minha filha? – insisti.

- Ninguém.

Eu já não sabia o que fazer. Não tinha pistas. Temia pela vida da menina. 

- Quanto tempo levará até eu poder sair daqui, enfermeira?

- No mínimo dois dias.

Não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento. Então pedi à enfermeira que me trouxesse os jornais enquanto eu estivesse ali. Li todas as páginas que falavam dos crimes da cidade, mas nada fora publicado sobre mim ou sobre a menina. Procurei o nome dela na página de desaparecimentos e falecimentos recentes. Mas nada encontrei, nem mesmo rostos ou depoimentos semelhantes à pequena.
Quando finalmente recebi a notícia que deixaria o hospital, fui visitar os outros leitos, mas também não havia sinal dela por lá. Eu estava rendido. Decidi que faria uma última busca perto do local em que fui linchado por aqueles tiras cusões. Era perto do hospital. Apenas duas quadras de distância.
Chegando lá, minha caminhonete ainda estava no estacionamento do bar. Exatamente como eu havia deixado. Vasculhei os arredores. Adentrei a relva rondando em direções aleatórias, mas não a encontrei. Cansado, me sentei.

- Desisto.
Eu estava mais puto do que frustrado.
Pensei que talvez ela estivesse fugindo de mim e não dos tiras.

- Talvez ela nem tivesse reparado naqueles merdas.

A verdade é que eu queria culpá-la. De alguma forma eu queria culpá-la, como sempre fiz com qualquer outro que tentou mudar a direção dos meus caminhos ou que descobriu algo sobre mim. Me senti ridículo e fraco. Quis chorar, mas não consegui. Minha vida era vergonhosa. Não havia nada para se orgulhar. Tudo parecia ser um grande desperdício.

- Não posso continuar vivendo assim. Realmente não posso.

Levantei e fui até minha caminhonete. Antes de dar a partida, percebi que as roupas da menina ainda estavam ali. Recolhi tudo e joguei na lixeira do posto de gasolina. Então me lembrei que a sua boneca estava na cabine quando ela correu para a relva. Voltei para buscar também mais esse objeto de memórias, mas, para minha surpresa, não encontrei nada. Revirei todos os espaços, mas não estava lá.

- A menina voltou para buscar a boneca... não acredito.

Ri.
Ri alto e estridente. Um riso louco de alívio e satisfação.
- Espero que esteja bem, menina.

Eu tinha certeza de que ela tentaria voltar ao cortiço. Mas eu não voltaria.

Liguei a caminhonete e parti.
Era tempo de buscar enfim minha tranqüilidade.

Fiz uma longa viagem cruzando a geografia do país inteiro até decidir qual seria meu destino final. Não foi tão fácil como imaginei. Foram longos quatrocentos e sessenta e nove dias de procura. Nesse ínterim, apenas parava para as refeições, à higiene e também para informar aos almofadinhas do aluguel para que posto do correio eles deveriam enviar o dinheiro dos alugueis. Visitei os mais variados lugares com os mais variados climas. Mas, no final, felizmente, encontrei o lugar que considerava perfeito. Era uma cidade pequena e intimista. Apesar de ser rodeada por praias, era na maior parte do tempo frio e chuvoso. Somente no verão é que o sol dava as caras para eliminar a expressão de anemia do rosto de todos.
No dia em que cheguei percorri cidade inteira. E não foi necessário fazer esse percurso de carro. Comecei visitando as docas. Lá observei os imensos navios que aportavam. Vi os negros e os índios carregando e descarregando muambas de toda espécie. Me lembrei dos angolanos... Depois, fui ao pórtico e subi as escadas do píer, onde havia uma série de barracas de feira com ciganos que vendiam uma variedade de quinquilharias. Além dos produtos, eles ainda perguntavam aos turistas e moradores se poderiam ler seus futuros insignes e estereotipados. Havia também, no meio da multidão de pessoas, aqueles profetas bajuladores que sempre sentenciavam um apocalipse próximo.
Tudo era semelhante um verdadeiro circo. Do lugar menos desinteressante e inóspito até o mais criativo e exótico, as pessoas eram igualmente vivas e escandalosas. Mas apesar disso, me sentia cada vez mais vivo com aquela paisagem e com os sorrisos que dirigiam para mim.
Quando terminei de perambular pelos horizontes da cidade, perguntei onde eu poderia procurar um lugar para ficar. Num dialeto bizarro, alguns nativos me indicaram a subida da encosta. 
Subi então a encosta e, lá realmente havia diversos condomínios de casas e edifícios. Numa região mais isolada, perto do penhasco, alguns terrenos rochosos estavam à venda. Procurei pelo proprietário, que por sorte também era o corretor da vila e, na mesma tarde, e lhe ofereci uma oferta modesta.
- Me espata muito o senhor se interessar. Esse terreno está aí há muitos anos. A visão é linda, sei bem, mas devo advertir que o terreno é cheio de pedras e pedregulhos. Sem contar que fica numa zona de risco: num penhasco.

- É perfeito – disse-lhe contemplativo.

Milhares de planos me ocorriam naquele momento.

- Desculpe-me a curiosidade, senhor, mas o que construirá aqui?

- Minha casa. Cuidarei para que seja tudo perfeitamente alicerçado. Eu mesmo a levantarei. Sozinho.

- Sozinho? – espantou-se o velho corretor – assim o senhor levará anos.

- Não me importo.

Naquela mesma semana foi arrumado os papéis com a permissão de construção. E assim comecei meu longo projeto. O velho corretor, depois que se deu conta que eu realmente construiria aquilo sozinho, me conseguiu um cômodo, ali perto do penhasco por um preço de aluguel mais em conta.

Pouco a pouco, sem me preocupar, arquitetei toda estrutura. Nesse meio tempo, diversas pessoas vinham até mim e me perguntavam se eu precisava de ajuda. Outras observavam, por horas e horas, sentadas em suas cadeiras de balanço preguiçosas e calmantes. Traziam-me água, café e também refeições. Além desse alento, recebi inúmeros convites para participar de festas, bailes e cerimônias dos moradores daquela região. Aprendi a conviver com os outros, a rir e a conversar. Aliás, havia mais de um ano que eu não conversava com nenhuma alma. Estive recluso. Preso a mim mesmo no ciclo de auto-análise e alienação da realidade. Defendi-me do mundo, para ser honesto.
Numa dessas festas, enquanto solitariamente bebia observando o pôr-do-sol, o velho corretor me abordou sorrateiramente.

- A sua solidão me comove meu rapaz.

O fitei desinteressadamente por me distrair de mim mesmo.

- Tenho o observado nesses dois longos anos e você apenas se manifesta para agradecer. Todos nessa cidade perguntam de você, mas ninguém sabe responder quem é. A grande maioria dos que aqui moram não sabe nem mesmo seu nome.

Depois de tragar sua cigarrilha, medindo-me dos pés a cabeça, ordenou:

- Venha comigo.

Achei estranho, mas o segui. Descemos para o píer. Alcançamos o cais. E, de lá, ele me levou a um bar. Puxou uma cadeira, de modo que ficamos de frente para a praia, perto da encosta. Então, ele pediu para o barman nos servir duas doses de conhaque. Traguei lentamente.
- Por que você está aqui? – perguntou-me enquanto completava seu copo – Não acredito que seja apenas para construir uma casa.

Contemplando a praia enquanto tragava o conhaque, pensei no que poderia lhe dizer. “Estou fugindo do meu passado” não seria uma resposta contundente.

- Desde o momento em que você começou a construir aquilo, completamente sozinho, fiquei desconfiado – emendou galgando a mão no queixo.

O jeito era falar a verdade.

- Bem, eu...
Foi então que, nesse momento, fui interrompido por um golpe do passado. Reconheci, no anoitecer da praia solitária e gélida, a imagem daquele corpo esquálido e pálido. A menina astronauta estava ali, na minha frente. Estava como nos meus sonhos. De vestido florido. Esbelta. Seu pescoço longo e fino à mostra combinava com os desgrenhados e rebeldes, como sempre foram. Ela parecia feliz. Sorria graciosamente enquanto segurava as mãos de um cara. 
Me emocionei. 
Chorei incontidamente ignorando a presença do velho.
Depois de me recompor, lhe confessei a minha história. Falei sobre a menina astronauta, a família de angolanos e as putas.
- O senhor é a única pessoa para qual eu conto tudo isso.

- Sinto muito – choramingou o velho colocando a mão sobre meu ombro.

- Sente porra nenhuma! – gritei consternado. E saí. 
Novamente, fora apenas mais uma desculpa para me esconder dos olhos dos outros. Senti uma dor pontiaguda se extenuando do meu peito a minha garganta, obstruindo as palavras que eu nunca soube confessar a ninguém.

Enquanto eu desaparecia da vista da praia, ainda pude ver, uma vez mais, a mulher astronauta abraçando aquele cara...

Subi a encosta e me escondi nos esqueletos do meu projeto.

Eu estava só. Como todo sempre.

Jamais houve uma aproximação, de qualquer pessoa que seja, onde eu pudesse constituir um vínculo duradouro. Sempre que alguém tentava fazer isso eu arranjava uma maneira de estragar tudo. Mesmo agora, depois de ponderar sobre tudo que vivi, sei que sou o resultado fracassado de um passado desfigurado e incontido. Sou uma breve parcela de momentos arredios e descaracterizados cercado de incoerência e falta de personalidade.

Se eu pudesse reverter qualquer das situações que vivi... qualquer uma... tudo estaria mudado. Tudo seria diferente.
Pensei na mulher astronauta e no contato único e sincero de admiração que senti por ela. Nas minhas noites com aquela puta dócil. E na menina do cortiço.

- Quem nesse mundo pode viver só?
Foi então que me lembrei do velho vesgo. Assim como eu, ele era um cara totalmente solitário. Até onde eu sei, ele não tinha esposa e nem filhos.

- Ele levava sua vida no meio daquela parafernália de papéis e vinis...

Pensei sobre o dia em que briguei com o velho vesgo... Talvez naquele dia em que ele se sentou ao meu lado para falar sobre amor, sobre o que eu sentia pela menina astronauta... bem, eu não percebi, mas aquele dia era, na verdade, uma advertência. Um sinal para o presságio iminente de tudo que eu vivi amargamente até agora. E que ele, senhor vesgo, à sua maneira, também viveu ao longo dos anos de sua vida. Talvez ele não quisesse que eu cometesse o mesmo erro que ele cometeu.
- Agora é tarde. Tarde demais para essas lamentações de merda - sequei as lágrimas e me levantei.
- A partir de agora será como deveria ter sido.
Então, no meio daquela madrugada, sob o esqueleto das estruturas, dei início a um novo projeto. Realizei diversas modificações que me levaram outro ano inteiro de trabalho árduo. Para concluí-lo, foi necessária uma grana ainda maior e, por isso, tomei uma decisão bastante radical: vendi os espaços que alugava para os almofadinhas, e também desisti do cômodo de aluguel que pagava para o velho corretor da vila, pois já era possível morar sob o esqueleto do projeto.

As minhas preocupações foram empenhadas na conclusão daquilo tudo. E, mesmo quando eu estava perto do fim, ninguém conseguia imaginar o que diabos eu estava tramando. Estava lindo: um sobrado com varanda que se estendia pelas quatro paredes com portas e janelas amplas.
Pintei as paredes de amarelo. As portas e as janelas de marrom. E finalizei as telhas na cor vinho. Depois, contabilizei o que sobrou da grana, pois seria importante para o próximo passo. Na semana seguinte, planejei uma lista e, assim, fui ao píer. Lá conversei com os ciganos e os índios muambeiros.
- Vocês conseguem me trazer isso tudo para quando?

Eles me garantiram que demoraria apenas uma semana. Mas precisariam de transporte para carregar aquilo tudo. Cedi a eles minha caminhonete.

Na semana que aguardava os ciganos e os índios com a entrega do pedido, cuidei de todos os detalhes internos. Instalei a parte elétrica, construí alguns móveis e limpei eximiamente os espaços. Nada podia dar errado. Então, no meio da madrugada enquanto eu admirava meu sobrado fumando um charuto, escutei os ciganos e os índios subirem a encosta com a caminhonete carregada de caixas. Pedi para que as acomodassem nos espaços vazios dos cômodos. Satisfeito, acordei a forma de pagamento.
- Querem ficar com a minha caminhonete como forma de pagamento? Para mim, ela não será mais útil.
Eles concordaram. Precisavam mais do que eu.
Desembalei todo o conteúdo das caixas e organizei da melhor maneira possível dividindo os espaços categoricamente. Eu nunca fora tão empenhado na execução de uma atividade como estava sendo ali, com tudo aquilo. Demorei 4 dias para organizar tudo.
Contemplei o resultado da minha árdua produção.

- Três anos... Três longos anos... Mas, enfim, está tudo terminado: lá em cima, os vinis, e aqui embaixo, os livros.
E, na altura dos olhos de todos que subiam a encosta, pendurei uma placa com letras capital azul com a palavra SEBO.
- Em memória do velho mestre.