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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

- desalienar-se

Enquanto eu caminhava descalço sentia entre meus dedos a areia úmida que o mar trazia e levava dos continentes perdidos. É uma sensação única de lascívia que apenas pode ser experimentada quando se está só, consigo mesmo. E é assim que eu gosto de estar: comigo mesmo. Sempre fui apaixonado pela solidão e me empenhava ao máximo para conservar apenas contatos estritamente necessários para a minha sobrevivência.
Não carrego mais nada que me lembre da hostilidade do mundo, do rancor ou do ódio. Em contraposição, também me exauri de tudo que pudesse rememorar aos desalentos capitais e inumanos que tanto assombrava o meu cotidiano. Lembro-me bem, quando eu estava para abandonar esta vida de absurdidades concretas e neuróticas, minha esposa me acordou, no meio da madrugada, com sua voz trêmula e sincera, gaguejando seu pedido mais intenso de amor: “Fique comigo, não vá embora! Se você me ama de verdade fique aqui: esta é nossa vida.”. Já não era mais a minha.
Aliás, nunca estive confortável com a idéia de moral e de ética imposta pela sociedade laica. As resoluções sociais umbilicais. A mídia ambidestra. A educação científica mística. A saúde doente. Esta ilusão real que contamina até o âmago das vísceras de todos que pactuam com essa mediocridade ínfima, balizada de eufemismos hiperbólicos e contradições contundentes, transformando opiniões egoístas em pré-conceitos e tradições. Me perdoem: não agüento mais isso tudo.
Eu prefiro ouvir o silêncio do vento; o chiado das ondas que quebram incessantemente; o gorjeio dos pássaros que preferem o sol do sul; pois não há nada mais sublime do que o contato com tudo o que naturalmente existe e se transforma diante dos nossos olhos, possibilitando reflexão íntima sobre as infinitas possibilidades de amadurecimento de nós mesmos. E toda essa reflexão é capaz, por si só, de propiciar sentimentos tão puros que se torna impossível doer, angustiar-se, sofrer ou macular-se de qualquer forma, pois o que repousa no âmago de cada um de nós é a paz infinita, resultante da contemplação, do amor que nasce e renasce.
Se soubéssemos da magnitude que somos, não ousaríamos em nenhum momento nos flagelar.
Não estou mais a fim de ostentar a sabedoria como uma riqueza abstrata e poderosa. Sabedoria capaz de converter massas em sinuosos cidadãos cultos, adoradores de críticas irrelevantes e austeras. Massas que são ávidas em reprimir grotescamente as manifestações simples – tão poéticas e sublimes, valem mais do que qualquer dicionário ou manual de revoluções. O julgamento é o pior de todos os males. E nele repousa a ignorância e a limitação dos nossos ânimos. A humildade, por outro lado, proporciona o alcance infinito, de inigualável comparação, pois apenas requer do outro a disponibilidade e a sinceridade, ou seja, a empática sensação de ser com o outro, o eterno instante que durar.
Por isso, a partir de agora, sou o que sou, sem jamais deflagrar o meu íntimo, o meu sincero ser. Podem chamar a isso de alienação, mas alienar-se é dar ouvidos a julgamentos que não são pensamentos seus. Alienar-se é pensar passivamente, é deixar que a ação o envolva somente. Mas é necessário movimento. O agir. É necessário o ‘pensar’ e não o ‘ter pensamentos’.
Até água parada apodrece. Imagine então o ser humano...
Por isso penso. E aprendo com o mar.