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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

- o livro das musas [cd & vinil]




Havia um tempo, eu estava pensando em chamá-la para sair, mas a minha timidez não permitia. Não sou muito objetivo quando falo com mulheres, ainda mais com aquelas que têm uma beleza renascentista perfeita. E ela era assim.
Éramos muito diferentes um do outro e provavelmente não teríamos assunto algum para esticarmos uma conversa. A começar pelo fato de ela andar com suas roupas características do século XVII, como se o Iluminismo ainda imperasse nos dias de hoje. A maioria dessas roupas era de tonalidades regadas de preto, combinando sempre com seus espartilhos feudais. Sua palidez, por falta de sol, tornava-se iluminada, contrastando com o tom sombrio. Seus olhos tristes eram sempre sinceros e pareciam pedir amor. Até hoje, confesso, nunca vi olhos semelhantes ao dela.
Eu. Bem... eu conservava apenas meu jeans batido e meu velho All Star de três anos de uso, rasgado dos lados, combinando com a falta de barbeador e pente. A única semelhança é que éramos dois contrastes absurdos no meio do grande público.
O bom era que eu podia encontrá-la facilmente, pois ela trabalhava numa loja de CDs e LPs usados ao lado da minha escola. Quando o sino da porta da loja dela tocava ao meio-dia e oito, era eu entrando para “olhar” se havia chegado algum material novo. Tenho certeza que ela sempre soube que eu aparecia na loja com outro interesse. Até porque na maior parte do tempo eu permanecia mudo, compulsoriamente manuseando os álbuns enfileirados em ordem alfabética, divido por vertentes musicais. Ao lado dela, estava os Metais da vida, seu estilo favorito. Ali havia de Black Metal a cristãos vestidos de Ozzy Osbourne; só depois eram dispostos os clássicos do Rock ‘n’ Roll, do Pop, do Jazz e do Blues e, por fim, num canto apertado, numa plaqueta com a inscrição “Alternativo”, é que era possível encontrar meus títulos favoritos. Quase sempre empoeirados de desuso – e, conseqüentemente, também mais baratos do que qualquer outro estilo musical. Quando me interessava por algo para puxar assunto – depois de ir de A a Z cerca de duas ou três vezes – minha voz trêmula pronunciava uma frase lacônica que demonstrava o oposto do que eu realmente queria dizer:
- Quanto custa esse daqui, do Mudhoney [Olha, eu não venho aqui para comprar nada! Esses álbuns, são na verdade, uma efêmera desculpa para que eu possa vê-la, até o dia em que eu criar coragem e chamá-la para sair]?
- 10.
- Tem mais [Aliás, acho que vai ser hoje: Você toparia sair comigo?]?
- Não, infelizmente.
- Ok [Melhor não dizer nada...].
Paguei os dez mangos em silêncio e sai. Uma vez por semana levava algum álbum, mesmo que fosse somente para compensar a minha rotina diária de visitas. Mas cada dia que passava me sentia mais e mais frustrado por não conseguir chamá-la para sair. Sempre que deixava a loja sem ter dito o que eu realmente queria, um desespero iminente bambeava minhas pernas, descompassava os meus passos e num instante a melancolia me consumia até o final do dia. Eu me sentia como o último romântico do mundo que perdera sua amada para a infinitude dos tempos. Era necessário tomar coragem. Era preciso dizer aos olhos tristes dela que eu poderia fazê-los sorrir.
No caminho à escola eu ensaiava frases de efeito, inventava lugares que visitaríamos e até conversas que teríamos enquanto estivéssemos curtindo nosso tempo. Às vezes eu era pego no flagra e precisava disfarçar bestialmente para que não percebessem que eu pensava nela.
- Ei, que é que você está falando sozinho aí?
- Não é nada não. Estava cantando Sonic Youth... – um silêncio constrangedor me fez perceber que ele não havia engolido essa – aliás, preciso comprar algo deles, vou na loja de usados – tentei uma fuga ligeira, sem explicações.
- Espere aí, eu vou com você!
Me dei mal. Teria que estar acompanhado quando queria estar sozinho.
No caminho, meu colega foi me contando sobre os álbuns do Sonic Youth convicto de que eu realmente levaria algum. Quando adentramos a loja ele já havia até definido qual álbum eu deveria levar.
- Sem dúvidas é o Daydream Nation.
- Verdade, acho que vou levar esse ai – eu já tinha.
O fato é que pouco me importava o Sonic Youth naquele momento, nem se eles estivessem ali, ao vivo na loja de usados, seriam mais importantes que aquela garota. E sobretudo naquele dia, pois ela estava linda: sua camisa do Alice in Chains combinava perfeitamente com seus olhos tristes.
Disfarcei por algum tempo, verificando as estantes do “Alternativo”. Passei três vezes pelo Daydream Nation, enquanto meu colega vociferava para a loja o quão belo eram as guitarras desafinadas naquele álbum nostálgico.
- Calma, cara, ainda vou olhar mais coisas, depois me decido se levo ou não o Sonic Youth.
Me aproximei das estantes de Metal, onde poderia ficar mais perto dela. Meu colega veio junto e percebi que ele estava rindo muito com as capas grotescas do Cannibal Corpse. Seu riso estridente se tornava insuportavelmente alto quando ele pegava o álbum nas mãos para ler também o nome das músicas.
- Pega leve, cara! – sussurrei em seu ouvido - aqui é cheio de pessoa que gosta dessa banda. Não estou a fim de ficar igual a alguém dessa capa ai.
- Não estou rindo da banda, não – ele disse – estou rindo é daquela menina do caixa.
- Por que, cara, ela não está fazendo nada.
- Ei, espera ai, você conhece a garota do caixa?
- Não [Infelizmente...].
- Poxa, cara, aquela gordinha andava com uma camiseta do Cannibal Corpse na nossa escola no ano passado. E o pessoal a chamava de caveira gorda.
Depois de dizer o apelido dela, ele riu outra vez, estridentemente, apoiando seus braços no meu ombro.
- Cara... caveira gorda! – repetiu rindo ainda mais alto – não é a toa que ela mudou de escola.
Eu não disse nada.
- Ei, cara, aonde você vai?
[Meus colegas sempre gostavam das meninas populares, corpos magros e delineados. Sempre achei essas meninas fenomenais – não posso ser hipócrita em negar isso – mas sempre que alguma delas abria a boca, eu me decepcionava. Eu me dava melhor com aquelas que não necessariamente eram bonitas, mas que conversavam bem sobre qualquer coisa e que não prezavam apenas por maquiagens e roupas. Com o tempo, essas meninas passaram a ser as minhas favoritas, minhas musas. “Poxa, você gosta daquela mina vara-pau?”, “Cara, ela não está acima do peso, não?”].
- Vou chamar a caveira gorda para sair!
Não sei o que passou na minha cabeça naquele instante. Se foi a indignação do que foi dito pelo meu colega, ou se foi a compulsão abafada dos dias anteriores. Mas, de fato, eu estava mesmo indo em direção a ela.
Na frente dela, não suspirei, nem nada, apenas disse:
- Olha, eu sei que pode parecer estranho, mas já faz um tempo que eu estou para te dizer isso. Eu venho aqui todos os dias e, na verdade, muitos desses dias – bem, na verdade acho que todos – têm somente o mesmo propósito: te ver. Já ensaiei diversas maneiras de te dizer isso, mas todas me pareceram patéticas. Achei até que você fosse me considerar um completo imbecil quando tivesse, enfim, coragem de dizer algo. Mas o fato é que eu não tenho nada a perder e seria ridículo deixar de me expressar para você falando o que realmente sinto. Talvez você considere isso bem louco, mas, desde a primeira e única vez que entrei aqui no intuito de comprar algo, quis chamá-la para sair. Recuei porque temi que me fosse proibido de entrar aqui outras vezes, para fingir alguma compra e então contemplá-la. Agora não posso mais disfarçar: eu realmente gosto de você.
Ela permaneceu me olhando, estática, com seus lábios semi-abertos. Então me dei conta que me esquecera do principal: chamá-la para sair. Pensei em complementar com “Você topa sair um dia desses para conversarmos?”, mas achei que seria muito americano, então fiquei em silêncio, para ver qual seria a reação dela. Ela abaixou seus olhos tristes em direção ao caixa e assim permaneceu por algum tempo. Eu não soube precisar o quanto, pois, para mim, tudo naquele momento parecia eterno.
Seus olhos tristes riram tímida e delicadamente.
Aí então eu soube, poderia chamá-la para sair.
- Você topa sair comigo um dia desses? – quase um James Dean.
Ela afirmou com a cabeça, de maneira bem lenta, sem perder seu sorriso.
- Legal. E quando seria melhor para você?
- Você pode me esperar na porta da loja às sete da noite, hoje? É o horário que eu fecho.
- Sim, claro... então, até mais.
Eu estava contente. Não conseguia disfarçar.
Passei pelo meu colega e ele não disse nada, apenas permaneceu no mesmo lugar em que estava, segurando o Daydream Nation na mão.
- Eu já tenho esse álbum, cara, e o melhor é o Dirty, e não esse ai – e saí.
Enquanto caminhava, eu pensava no que havia feito: eu jamais saberia precisar, quantificar, mensurar ou expressar de forma empírica o que eu acabara de fazer.
[Nunca fui capaz de me expressar tranquilamente para as mulheres que eu admirei ou gostei. Desde o início da escola, com aqueles namoricos bobos de pegar na mão. Eu sempre permanecia de longe, contemplando as menininhas dividirem seus lápis com todos os meninos que, depois, me viriam dizer que eram suas namoradas e, eu, com os meus impecáveis aquarelas, enciumadamente observava o namoro de todos os outros. No colegial, não foi diferente. O que mudava é que, além de não pegar ninguém, eu também não tinha dinheiro, pois não conseguia encontrar trabalho. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a freqüentar os pubs clandestinos de terminais de metrôs e becos. Estive rodeado de mulheres ilícitas – putas – e de caras que se alimentavam de cigarros mágicos, de variadas cores e cheiros. Sinceramente, nunca experimentei porque aquele cheiro de sujeira com fumaça me enojava bastante e não porque fizesse mal. Não enobreci meu caráter andando com esse pessoal, mas também não fiquei menos pobre. Tive ganhos, não posso negar, pois conheci algumas bandas bacanas, freqüentei lugares proibidos para menores de idade e ainda ganhei alguns presentes de figuras que me pagavam para vigiar entradas e saídas de lugares escrotos que, provavelmente, ninguém jamais pisaria o pé em sã consciência. No mais, não comi ninguém, nem tive aventuras sexuais burlescas que fizessem da minha adolescência um libertino fugaz, cheio de histórias para contar e que desse orgulho para os colegas de classe. Alias, esses meus colegas nunca souberam dessa minha vida noturna e, provavelmente, não sabiam nem mesmo quem eu era, pois eu estava sempre na minha, escutando minhas músicas ou lendo uma revista de banda. Esse embotamento social, carregado de carência afetiva, provavelmente, me transformou num cara propício a se apaixonar facilmente pelas mulheres que demonstrassem carinho de maneira inocente e despretensiosa, ou seja, naturalmente. Sofri muito com isso, pois todos os dias era um Platão diferente. A todo momento eu estava com o coração partido, doendo de ciúmes devido a paixão imaginária. Não precisava muito: um compartilhamento mútuo de idéias, um olhar compenetrante e carinhoso ou mesmo um pedido de desculpas. Pronto! Eu estava amando...].
- Oi.
- Oi.
Ela trazia nas mãos um livro do Edgar Allan Poe.
Eu não era muito de ler nada. Preferia meus CDs e LPs.
- Você já leu Edgar Allan Poe?
- Sinceramente, não.
- É um dos meus favoritos. Você deveria ler quando puder – disse ela tomando a direção do centro da cidade.
Com minhas mãos no bolso da jaqueta, acompanhei os passos dela.
- Pode deixar, vou ler sim.
Particularmente, não tinha nada a acrescentar numa conversa quando o assunto era literatura. Eu não gostava de ler. Sempre era acometido de um sono brutal só de folhear um livro sem figuras, imagine só lê-los.  Percebi que isso poderia se tornar um empecilho, pois logo no primeiro contato ela já disse que gostava de ler. Pensei em algo que pudesse acrescentar, mas nada me ocorreu. Temi que o silêncio prejudicasse nosso início, mas também não soube como calá-lo com palavras inteligentes.
- Sobre o que é a história desse livro que você está lendo?
- É uma coletânea de contos. É um autor um pouco sombrio, nebuloso, mas que gosto muito.
Pelo jeito ela realmente devia gostar de coisas obscuras, visto pelas suas roupas, seu gosto musical e, agora, pelo efêmero conteúdo literário que revelava gostar.
- Preciso ser bem honesto quanto à literatura: eu não sou muito fã. Gosto mais de música, de barulho – gesticulei como se solasse uma bateria imaginária.
- Eu também gosto muito de música; – ela complementou rindo – sempre achei que a música fosse parte da minha personalidade. Sei que as pessoas dizem que escuto bandas escrotas, mas gosto mesmo daquilo, sabe? Não que minha personalidade seja obscura como tudo que ouço, mas acho que preciso disso para pensar.
- De qualquer forma, músicas enegrecidas e sombrias sempre rememoram pensamentos obscuros.
- É. Pode ser.
Percebi que ela não gostou muito do que eu acabara de dizer, mas, ainda sim, era verdade, por mais que fosse um julgamento premeditado. Por decorrência dessa fala infeliz, andamos silenciados por cerca de trinta minutos, até que precisei irromper nossas ausências por causa do meu estômago vazio.
- Que tal comermos alguma coisa?
- É uma boa idéia.
- Você conhece algum lugar legal que possamos ir?
Ela olhou para o relógio e acenou dizendo que sim e, então, eu a acompanhei.
Depois de percorrermos alguns becos e ruelas, finalmente chegamos ao destino.
- É aqui.
Ao olhar para dentro do ambiente do pub, percebi que não havia muita diferença da escuridão da noite para a escuridão das mesas. Era como se a meia noite tivesse sido pintada nos quatro cantos do concreto, traduzida em uma realidade soturna e mórbida.
- Uau! É como estar num filme do Ed Wood.
- Você acha?
- Bom, é realmente vampiresco, não acha?
Ela riu, desapontada. E me levou para uma mesa perto das caixas de som. Estava tocando Isolation do Joy Division. Enfim algo que eu me identificasse.
- Ei, eu gosto dessa banda! – disse enquanto batia meus dedos ritmados de acordo com o som – é uma pena que esse cara tenha se matado.
- É. Realmente. Era uma boa banda. Mas acho que o suicídio dele foi totalmente justificável.
- Justificável? – seria, talvez, uma pergunta retórica com direito a expansão de eco para o pub inteiro, mas com certeza, também seria prudente ouvir uma resposta dela com argumentos bem sólidos.
- É, justificável, sabe?
- Não, não sei. Olha, me parece pouco plausível a justificativa do suicídio. Tudo bem que eu não conheço o sofrimento em essência, porque eu não vivo num limbo, numa Sodoma ou numa Gomorra, mas daí dizer que o suicídio é justificável, é muito banal.
- Como você pode dizer isso? – ela suspirou – Muitas são as vezes que nossas dores e sofrimentos beiram o insuportável, inflamando o íntimo de uma forma perversa e descomunal. E, muitas vezes também, nessas horas, estamos sós, sem ninguém que preste atenção ou ajude de maneira sincera. O sofrimento passa a ser ainda maior, porque todas as ilusões e pesadelos primitivos nos tragam para a escuridão dos dias, que, aos poucos, vão se tornando comuns e corriqueiros. Não sei se você pode entender, mas quando isso acontece, quando as dores e os sofrimentos solitários passam a se tornar rotina, os aderimos como realidade e, assim, qualquer sobressalto de alegria e luz nos parece estranho e vulgar e passa a ser inaceitável.
Eu não soube o que dizer, mas, diante daquele ensaio pessimista, meus pensamentos foram os mais diversos possíveis. Era difícil aceitar tal posição psíquica. Afirmar que a dor e o sofrimento são justificáveis. Não acredito nisso. Transpor questões pessoais de desespero e projetá-las à realidade nua e crua, afirmando que são conceitos gerais de uma sociedade, não é certo. Assim, o seu problema passa a ser também o do outro (sem o consentimento real de nenhuma das partes) tornando o julgamento inevitável. Quis confessar a ela que o ‘nós’ de suas palavras certamente não correspondia à soma da minha opinião, mas algo pedia para que eu me detivesse e apenas concordasse com suas justaposições de vazios dolorosos.
- Eu entendo – resmunguei sonoramente.
Novamente ela suspirou, alisou seus cabelos e, com seu corpo dormente, descansou os ombros apoiando os braços sobre a mesa. Era como se ela carregasse o mundo em suas costas e, depois de uma longa jornada nômade, com aquele movimento do corpo, despejasse ali a bagagem do mundo e dissesse “veja o que eu trago: sirva-se, pegue o que quiser, tire isso de mim”. Eu apenas olhei, timidamente, com um sorriso escondido no canto dos lábios. Queria lhe dizer que estava tudo bem e, às vezes, com um sorriso involuntário e honesto, podemos transparecer a tranqüilidade sublime.
- Temos que acreditar que vale a pena. Amanhecermos um dia de cada vez.
Ela negaceou com a cabeça e, mesmo sem dizer nada, percebi que do seu íntimo reverberava uma dor ancestral, mas velha do que sua idade adolescente. Seus sentimentos estavam embotados. Eram da cor de suas roupas, do pub que visitávamos e podiam ser lidos através de seus olhos tristes – a única característica viva de seu enrijecido escafandro de carne.
- Eu gosto mesmo de você, sabe. Mesmo você me falando de sua dor, de sua solidão. Mesmo você alegando que não há nada de belo nisso tudo, de que talvez a alegria não valha a pena e que a dor e o sofrimento são inevitáveis, ainda assim eu gosto de você.
- Eu não entendo... não entendo como você pôde se apaixonar por mim sem nem mesmo me conhecer. Se eu lhe contasse a minha história você provavelmente sumiria da minha vida, sem deixar vestígios. Você não sabe quem eu sou e mesmo assim diz gostar de mim... Como isso é possível?
Eu não disse nada. Sabia que ela ainda não havia terminado seu prólogo e, por isso, apenas cruzei as pernas, coloquei as mãos nos bolso da jaqueta e esperei. Ela chamou o garçom e, assim como ela, me servi de café puro. Tragamos vagarosamente.
- Bom, acho melhor jogar limpo com você, não é mesmo? Desde quando o percebi na loja da primeira vez, você me pareceu ser um cara tranqüilo e inofensivo. Não seria nada honesto de minha parte começar mentindo.
- Então começaremos muito bem.
- Antes de eu falar qualquer coisa, eu gostaria de saber apenas uma coisa de você, mas, pode ficar tranqüilo, pois, independentemente do que você me disser, ainda sim serei sincera.
- Tudo bem, o que você quer saber? – traguei meu café.
Depois de girar sua xícara com suas unhas vermelhas, ela perguntou:
- Por que gostar de mim?
Eu tinha milhares de resposta para essa pergunta, mas decidi ser honesto, sem maquiagens e firulas de cinema.
- Até momentos atrás, antes de iniciarmos essas conversas, eu achei que fosse uma atração puramente carnal, pois, como você mesma disse, não havíamos nos falado. Mas percebo que não são hormônios o que sinto por você. É algo mais profundo e intrínseco, que não cabe nas palavras ou nas conjugações verbais, é algo que não corresponde a uma ação concreta do meu corpo. Não posso descrever o que eu sinto com o nome de um sentimento, pois é mais profundo que a carne, fazendo com que eu enxergue além dos meus olhos cenas que apenas consigo imaginar quando olho para você.
Ela riu, docemente.
- Eu não sei o que dizer – complementou balbuciando timidamente.
- Não há necessidade de dizer nada. Não preciso de correspondência ou de reciprocidade. Eu apenas precisava lhe dizer isso, de qualquer forma.
Ao afirmar estas palavras, devo assumir que realmente estava sendo sincero, pois, assim que eu me pronunciei me senti leve e tranqüilo. Revelar a ela o que eu sentia me libertou intimamente.
- E realmente eu não posso ser recíproca ao que você disse... – confessou-me de olhos fechados – me desculpe.
Vi seus olhos marejarem, mas não disse nada. Apesar de eu realmente não esperar reciprocidade alguma, ainda sim me comovi com o não dela. Tentar replicar com algo apenas faria meus olhos marejarem também.
- Ele vem da Espanha para me buscar. Me desculpe não ter dito nada antes. Eu já namoro tem algum tempo e estamos planejando morar juntos.
Novamente, o silêncio conversou conosco.
- Algo mais, rapaz? – interrompeu o garçom.
- Não. Obrigado. Perdi a fome.
Nos levantamos e saímos.
- Posso levá-la até sua casa?
Ela não respondeu nada, mas mesmo assim eu a acompanhei.
Já passava da meia-noite. A rua estava úmida do orvalho da madrugada. Caminhamos sem pressa e sem voz. Percorremos alguns quarteirões até chegar a sua casa – o que deve ter durado cerca de uma hora.
- É aqui que eu moro – ela disse tirando as chaves do seu bolso.
Ela me olhou por alguns instantes enquanto segurava a porta. À distância, com as mãos no bolso, apenas me virei e saí.
- Amanhã eu vou embora. Se você se lembrar de onde eu moro, por favor, venha se despedir de mim. Sairei daqui às oito.
Eu não respondi, apenas continuei andando. Aliás, andar foi a única coisa que fiz depois que a deixei em sua casa. Eu estava ressentido e frustrado pelo fato de saber que ela simplesmente sumiria da cidade. Não estava me importando pelo fato de ela ter namorado ou se casar. Eu não a veria mais, essa era a questão.
Quando se gosta de alguém, quando verdadeiramente se gosta de alguém, a dor não é uma questão de escolha. Ao chegar a essa conclusão, pensei sobre o que ela e eu conversamos a noite toda. E só agora me dava conta de que, o que ela me dizia (o tempo todo), a respeito de dor e sofrimento do íntimo, era sobre seu amor espanhol, que não estava ali para acalentá-la e protegê-la e, por isso, ela doía.
- E pensar que às oito horas tudo aquilo se extinguirá, independente de minha presença.
Não sei quanto tempo eu pensei em seus olhos tristes, na sua postura curvada e arredia e nas palavras cortantes, mas logo a manhã veio e, quando eu olhei para o relógio, as oito horas já haviam passado há muito tempo. Corri para o pub onde estávamos e pedi um café com Joy Division. Quando terminei, sai e percorri os caminhos que fizemos naquela noite. Passei em frente a casa dela, onde já estava o anúncio de venda com o nome e telefone da imobiliária. Como num luto de velório, permaneci por algum tempo ali, observando a inércia da porta que não abriria. Decidi voltar para o momento inicial de nossa noite. O único local que não poderia me esquecer de despedir-me: a loja de CD e Vinil. Quando já chegava perto, do outro lado da rua, percebi que a loja estava aberta. Atravessei apressadamente. Na frente da porta, olhei para o relógio: era meio-dia e oito. Entrei.
Não a vi. Em nenhum dos quatro cantos ela estava. Contemplei o espaço em sinal de despedida, pois nunca mais adentraria ali novamente. Depois de recordar algumas cenas de seus olhos tristes atrás do caixa, parti em retirada.
- Hola, puedo ayudarte? – escutei alguém dizer enquanto eu saia.
Não ousei olhar para trás.
Nunca mais a vi.

10 comentários:

  1. Que estória!

    Nossa, me mostre as outras Musas, por favor! Bom demais! Parabéns!!!

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  2. cara essa história é massa, e outra coisa que me chamou mt atenção enquanto vc falava do cd do sonic youth, tbm considero o dirty mt melhor, tenho um blog de poesia e por mais uma coincidência escrevi algo esta semana em que citava o sonic youth passa lá depois pra ver, abs! ah já ia me esquecendo to seguindo teu blog!

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  3. Você tem uma habilidade de descrever as coisas, que sinceramente, só posso chamar de dom. Fiquei envolvida em cada palavra.

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  4. Dilacerante, como uma espada de Samurai.
    Como os olhos triste da mulher amada que almejam o amor de outro.

    Devastador e esplêndido.

    Abraços ao querido escritor!

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  5. adorei, quase que vi aqui a minha adolescência
    de Sonic Youth recomendo o antigo álbum Sister e o menos antigo A thousand leaves
    de Joy Division também não me importava de ter lido a música Isolation

    abraço
    LauraAlbertto

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  6. Você tem magia nas mãos e na alma ... está bem bonito! Eu também sou assim, por momentos triste e a maior parte das vezes estou vestida preto.

    As vezes apaixonamo-nos assim sem saber porquê ... é como se ouvesse um elo transparente que nos ligasse a outra pessoa só num olhar! Terá talvez a ver com vidas passadas! ;)

    E porque será que quando sentimos amor, assim simplesmente por outra pessoa é tão dificil de expressar? Quando o mais simples é faze-lo! É claro, há o medo da resposta, mas porquê ter medo quando só há três possbilidades de resposta, sim, não e talvez?

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    1. - por que não dizer que há relações com as vidas passadas? até porque somos infinitos, ou seja, não existe começos, meios ou fins.
      Talvez a dificuldade em se expressar esteja de acordo com a profundidade do sentimento, o amor. Como expressar algo que é grandioso, que complemente o corpo e a alma?... como transformar essa sensação única em palavras? Não existe um modo correto, mas, no âmago, sempre sabemos quando e como dizer e se expressar.

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    2. "Je ne suis pas pétrie de vertus ni de nobles qualités. J'aime c'est tout! Mais j'aime à la folie. Je suis unique et j'ai soif d'absolu!"

      E o que eu procuro sem encontrar ... Estas frases de Georges Sand foi no que eu pensei assim que li a sua mensagem!

      Espero que você compreenda Francês!

      Et non monsieur je ne vous fait pas la court ... estamos só a falar de sentimentos. E para alem do mais você vê justo e escreve certinho o que eu penso, é engraçado!

      Je suis une handicapé de la communication.

      O coração e a mente podem estar presentes numa relação mas falta um pouco de "folie" ... então horror dos horrores o vinho transforma-se em vinagre!

      Adoro conversar consigo, sinto-me à vontade!

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    3. - oui, Paula, je parle un petit de français. mais je commence mon cours récemment. le objectif primordial c'est traduir pour moi-mème de tout mes ecrit.

      de toute façon, j'imagine que personne n'est déficient dans l'art d'inspiration, la communication est une conséquence de tout que nous pouvons imaginé et inspirer de nous-mêmes.

      je pense, aussi, que la folie est une conséquence brutal de tout la faut d'esprit. nous devons, toujours, améliorer notre compression de nous-mêmes.

      au revoir,

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  7. Obrigada por ter respondido e ainda por cima em Francês ... você é cheio de surpresas!

    Por isso escreve tão bem!

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