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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

- o livro das musas [um Platão a mais]

[prólogo]
[cd & vinil]

Não sei como explicar essa ojeriza em minha vida. Basta, simplesmente, que eu saia de casa para que tudo aconteça. Lugares públicos como transportes coletivos, parques, redutos culturais, ruas, becos, vielas, enfim – não importa – tudo passa ser temerário para essas ocorrências. Também descobri há pouco tempo que algumas fotos – estejam elas em revistas ou em perfis da internet [desde que contenham informações básicas acerca da personalidade] – também podem ser premissas para a manifestação desses sintomas. Muitas vezes, quando sou acometido de tal mal, a minha mente se esvai e da minha barriga surge um arrepio interno – tal como aquele sofrível na espinha – seguido de um abobamento repentino e, logo em seguida a exposição do sintoma, sou acometido por cenas quiméricas e utópicas. Atualmente, percebi que essa série de manifestações extravasou completamente o senso do real e por isso decidi procurar, desesperadamente, por peritos da cachola, ou seja, um analista. Verifiquei nos classificados um que fosse especializado na arte do amor. Somente encontrei uma, e não era necessariamente na arte do amor e suas manifestações, mas sim na dificuldade para os relacionamentos em geral. Frustrei-me. Mas, mesmo assim, agendei e fui. Para se ter uma idéia, do caminho da minha casa ao consultório, meus sintomas se manifestaram em demasia: no ponto de espera do ônibus, na banca de jornal, ao entrar no ônibus e pagar a passagem, ao ser atendido pela recepcionista do consultório e – pasmem! – assim que a analista abriu a porta de sua sala fui também acometido deste mal – não só dos arrepios internos que ultrapassaram as fronteiras dos intestinos, mas também de um bambeamento incomum de ambas as pernas. Sorte a minha que pude me deitar num divã.
- O que o traz a este consultório?
Depois de refletir sobre todas as passagens da minha vida que convergiam às cenas de mesmo grau e intensidade, procurei sintetizar de maneira abrangente, formulando uma frase de conteúdo bastante verdadeiro para que a analista pudesse compreender meu sofrimento; disse-a:
- Sou apaixonado por uma infinidade de mulheres! Isso mesmo! E ao mesmo tempo! Principalmente por aquelas com destinos incertos, sem conexão alguma com a minha realidade rotineira. Mulheres que simplesmente se exortam numa fila de banco, de supermercado, num ponto de ônibus, num banco de parque ou de igreja, num bar, num restaurante, numa sala de aula, nos corredores, nos pátios, nas calçadas, nas ruas e nas avenidas, nos túneis e nas pontes, nos bondes e nos aviões, enfim, no simples cruzar milesimal, bastando apenas que supram padrões básicos e irreais criados pela minha mente, como a pronúncia banal de palavras chaves, gestos característicos e mágicos que combinem com o manequim em questão e com as suas roupas discretas e meticulosamente escolhidas para o dia ocasional de nosso encontro jamais planejado pelo destino cheio de acasos deste mundo real. Já busquei desesperadamente a ajuda da medicina neurológica pensando que havia fundido a veneta, tamanha a obsessão do meu interesse compulsivo por essas mulheres – inúmeras! – mas mesmo vasculhando os catálogos de transtornos, lendo apêndices, artigos, frestas e arestas, apenas concluo que não é nenhum tipo de doença, é mais que isso, é amor.
- Amor?
- É! Amor! Só pode ser! Para tirar a prova, procurei também um cardiologista. Fiz todos os exames laboratoriais e especializados, mas, no fim, meu Eco-cardiograma Doppler colorido endossou o que os demais exames da bioquímica já atestavam: normal – em tamanho, em cor e em distribuição da circulação. Só pode ser amor. Meus relacionamentos todos sucumbiram pelo tamanho do meu amor. Duravam um, dois, três meses no máximo, pois logo eu era acometido pelo soar das cordas da harpa do amor e assim que eu escutava essa sinfonia, podia ver a mais nova Afrodite de minha vida se materializar em forma de um escafandro de carne. Meu coração ruía destruindo o busto do meu velho amor – como que o removendo de um altar, um trono imaculado – e, em seguida, eu já estava contemplando e adorando a mais nova deusa da minha religião. E isso tudo se tornou tão forte que, agora, me sinto politeísta, pois muitas são as mulheres que amo em segredo. E elas todas me inspiram, como a mais bela oração feita para o acalanto das almas. Tenho amor inclusive em preto e branco, em retratos ou em pinturas – não é nem pelo fato de serem de outras eras – basta que a imagem me revele com um punhado de informações. Devo confessar que ainda não cometi nenhuma loucura, pois a minha timidez fora do comum jamais permitiu! Imagine! Poderia ser preso por assédio moral ou sexual – tudo dependeria da interpretação da mulher em questão. Sinto que a qualquer momento meu coração explodirá de tanto amor incorrespondido. O mais estranho de tudo isso é que antes de ser acometido por esses amores instantâneos, porém devastadores, não havia tido nenhum relacionamento frustrado, nenhuma dor shakespeariana que exsudasse e exigisse a minha morte por um amor essencialmente romântico. Falando em romance, me sinto como aqueles poetas que morriam virgens e tuberculosos, tamanha semelhança da minha vida com os versos e estrofes passionalmente sôfregos e amaldiçoados de amor. O que eu queria entender era como tudo isso começou, mas não consigo associar a nada de real. A única coisa que posso dizer é que desde muito cedo já era apaixonado por mulheres impossíveis – aliás, eram ainda mais impossíveis do que essas que se materializam na minha frente, atravessando as portas, entrando nos coletivos, saindo de salas de espera de médicos, de filas, enfim – pois na minha meninice bastava ter um livro nas mãos. Para se ter uma idéia, minha primeira paixão foi Nefertiti... Nerfetiti! Mamãe nunca entendeu porque diabos eu vivia evocando esse nome – ela pensava ser nome de alguma doença, osso ou músculo que eu aprendera na escola. Mas a verdade é que eu era apaixonado por essa egípcia mil trezentos e setenta anos mais velha que Cristo! Como eu invejava Akhenaton, ó céus! Meu sonho era vasculhar o Egito, encontrar a sua tumba e adormecer ao lado dela, somente acordando no paraíso dos faraós para o cortejo da mais linda mulher do Nilo. A concretização do amor transcendental. Esse amor de eras. Mas um dia me apresentaram a televisão e Nefertiti se tornou apenas um busto de argila em cima da minha cômoda – assim, da noite para o dia, como se eu jamais a houvesse amado. Na televisão eram tantas as mulheres que, no primeiro dia em que a liguei, não consegui ver apenas um canal, pois era como estar no paraíso prometido para os muçulmanos – mulheres e mais mulheres. Parei de sair à rua, de brincar com os amigos. Fazia os deveres rapidamente e corria para a televisão. Mas um dia essas imagens tridimensionais também ruíram. Foi quando me apaixonei pela professora de português – ah, a professora de português: o clichê de todo poeta amador. Por conta dela li os mundialmente conhecidos, Shakespeare, Voltaire, Goethe e também os luso-brasileiros Álvares de Azevedo, Machado de Assis e Fernando Pessoa, e, mesmo sem entender nada do que lia, compunha poemas de vocabulário tão cheios de amor, mas repletamente vazios de significado, e dava-os todos para a sua avaliação inocente e incentivadora. Até o dia cruel em que fui apunhalado pela barriga – isso mesmo! pela barriga! – e não era pela minha própria barriga: ela estava grávida e pediu demissão. Depois dessa notícia, precisei gestar o esquecimento desse amor literário por nove meses, até saber que ela havia tido seu filho e se casara. Nunca mais quis receber notícias dela. Meus amigos me incentivaram tentando apresentar-me para outras garotas – todas da minha idade. Conheci-as pelos sites de relacionamento da internet ou mesmo por encontros casualmente provocados e, assim, acabava me relacionando com algumas aqui e outras ali. Quando dei por mim, já estava enfeitiçado pelo delírio das fotos de mulheres com poses maquiadas e também com frases de efeito roubadas de um livro da Clarice Lispector somente para satisfazer seus egos mal amaciados – mulheres tão vazias de significado que nunca sequer leram uma página inteira da obra da Clarice, mas diziam, mesmo assim, se identificar com suas palavras profundas, seu humor original e ácido. Que vergonha. Na faculdade, essas mulheres daninhas também deram as caras, mas, inesperadamente a realidade era outra, pois minhas palavras se tornaram sons, ecoando pelos corredores e pátios, e tive a consciência que poderia desfrutar desta oportunidade – mas foi ai que o sintoma se agravou e passei a amar o perfume da progesterona de tantas mulheres quantas fossem possíveis. Bastava estar caminhando pela rua que meu coração era partido por um farol vermelho, uma faixa de pedestre, uma porta fechada repentinamente, pela diferença de uma senha, de um passo, de uma esquina, de uma estação, de uma moeda, de uma cadeira, enfim, de uma infinidade de situações. Mas a maior das dificuldades foi a falta de coragem ou – devo dizer – o excesso de timidez, pois ambos imparcialmente corroboraram muito para o prejuízo improclamado do meu coração imenso, que apenas se comunicava pelas batidas ansiosas, ecoando sempre as quatro letras mais significativas do nosso idioma. E eu sempre quis que essas mulheres escutassem essa batida tão simetricamente perfeita: a batida do amor. Tão logo eu estava pronto para me declarar, depois de superar a covardia e a introspecção, elas deturpavam as minhas fantasias e alucinações de amor intenso revelando-se com suas realidades vazias e desinteressantes.
- E como elas faziam isso, essas revelações?
- Agora que você perguntou, percebo que, na maioria das vezes, apenas bastou um diálogo ou um comportamento inadequado após o diálogo para a perplexidade do amor deixar de existir.
- Você já ouviu falar em Platão?
- Sim... Por quê?
- Sua vida amorosa se resumiu a isso, até aqui, neste momento.
Pasmo, meus olhos arregalaram. Cenas de um filme eclodiram e, num punhado de instantes, todas as verdades da minha vida até então omitidas sobre a raiz dos meus amores se manifestaram nitidamente. Senti-me torpe. Senti meu coração inflamar intensamente. Toda dor se exauriu. No divã, eu renasci.
- Está tudo bem com você?
Suspirei profundamente.
- O que sente? – ela insistiu.
Não havia dúvidas. Depois dessa verdade nua e crua que ela havia garimpado do meu âmago e me revelado assim, sem firulas, só me restou responder:
- Sinto que amo você.

6 comentários:

  1. Suas palavras são como o vento,
    simples, fluidas e sedutoras.
    Vem fazer carinho em nossa pele, calmamente e cantar em nossos ouvidos.

    Gosto disto, pena serem curtas.
    Se fossem um livro acho que levaria uns dois dias para chegar até os 80% do livro, depois eu ia enrolar, porque odeio quando o livro acaba, sinto falta, me apego, sou assim, boba.

    Abraços, querido escritor...Ah, me diga, você escreveria ou já escreveu um livro? É um plano seu?

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  2. HAHAHAHA adoreeeeei Gustavo, eu acho que consigo entender esses relapsos de paixões. eu tenho, ou tinha coisas assim, de me apaixonar por uma ideia antes mesmo da pessoa, o ruim disso é que as ideias vão mudando, e nem sempre eu gosto disso.

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  3. Realmente o que diz Nathi já me passou pela cabeça, já escreveu algum livro ou pensa escrever?

    Estas musas, podem ser o princípio ...

    Continue a fazer-nos viajar ...

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    1. - já pensei sim, Paula.
      Confesso que não vou correr atrás de publicações literárias, tentar transformar em páginas sólidas agora. Já estou muito contente com as pessoas que aqui chegam e comentam falando de suas sensações e sentimentos. Não há nada mais bonito do que isso tudo, não é mesmo?
      Também, confesso, tento dividir a escrita entre artigos científicos [acadêmicos] e literatura. Logo mais vou tentar organizar o conteúdo pseudo-acadêmico e postá-lo aqui no blog.

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