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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

- o livro das musas [estou bem agora]

[prólogo]

Anteriormente, quando ainda estávamos juntos, dividindo nossa intimidade – até vinte e quatro horas em determinados dias – eu não conseguia ver para além de mim mesmo, eu não enxergava você. O egoísmo me consumia. A frieza do meu caráter era esboçada pelo meu semblante de poucos amigos, minha fala lacônica e meu sentimento embotado de desinteresse e de preguiça frente às situações que você considerava bonita e interessante, mas eu não.
Foram longos meses de tentativas sua que acabaram por frustrá-la ainda mais. A minha posição de vítima e de único ser humano a compreender as questões e as dores do mundo, não deixavam-me enxergar a beleza de tudo aquilo que você tentava me fazer entender. Foram vários os dias que você desistiu de dormir para me educar com seus monólogos sobre a sanidade e a importância de viver e não existir somente. “Ame a si próprio”, você dizia, “só assim você conseguirá sentir gratidão em relação às outras pessoas”. Mas eu me tornava cada vez mais solitário, frio e condescendente.
Não me importava mais em machucar os outros só para inflar meu ego, me afirmar como ser humano. As minhas respostas eram geralmente grosseiras e terminavam por projetar meu ego inflado, agressivo e resistente. Eu jamais pedia desculpas. As pessoas me achavam temperamental e hostil, mas eu insistia em pensar que elas é quem eram ignorantes demais para compreender a raiz dos meus pensamentos. Eu sempre tive preguiça de me explicar, de perder meu tempo em fomentar detalhes sórdidos e recorrentes, só porque as demais pessoas não entendiam as coisas que eu dizia de forma natural.
Eu sempre estava criticando algo ou alguém pelo simples prazer da crítica – uma grande masturbação egocêntrica – e a envergonhava perante as pessoas que você admirava pelo simples fato de eu me julgar superior com as minhas afirmações e hipóteses pomposas e carregadas de preconceitos e de hipocrisia.
Não entendia como você podia me suportar.
Em algumas situações, você me pedia, “pelo amor de Deus” para, “pelo menos uma vez”, ser empático, e eu sempre respondia inflamando meus pulmões de motivos baratos e envoltos pela frustração de ser eu mesmo: “Não estou a fim de vestir uma máscara e comprazer com esse mal-estar social, fingindo que está tudo bem no reino da desgraça”. Você então ficava louca, temendo que eu ferrasse com tudo, desrespeitando as pessoas que estariam com você. E, geralmente, eu a decepcionava, com o louvor da missão cumprida de um miserável.
Lembro-me até hoje do dia em que causei embaraços dos mais constrangedores em sua casa, quando seu pai, depois de instalar seu novo pacote de tevê por assinatura, me perguntou o que eu tinha achado da cobertura de setenta e cinco canais. Respondi dizendo para ele tomar cuidado, pois “a tevê não trará a solução para todos os nossos problemas, seja em alguma novela, em algum programa de culinária ou mesmo nos jornais sensacionalistas que valorizam tanto a tragédia alheia e repetem-na, mais de mil vezes, com a intenção de aumentar o ibope”. Mesmo percebendo que ele me fitava encabulado, coçando a nuca e o bigode, e, às vezes, desviando o olhar para os lados na busca da vergonha que se esvaia pelos cômodos, complementei afirmando: “olha, não estou a fim de compartilhar meu tempo com essas idiossincrasias baratas e nonsenses da tevê, seja com um ou com setenta e cinco canais, pois não dará em nada nunca”. Seu pai então desligou a tevê e se retirou, chamando pelo seu nome com uma voz quase ausente. Segundos depois, você apareceu com suas passadas de  gigante irada, e me perguntou que raios eu tinha feito desta vez. Dei de ombros julgando não precisar explicar a minha razão e, você, com sua paciência monástica, discursou a respeito da empatia e da humildade e, ao final, com argumentos válidos, sentenciou: “Você não está na sua casa. E, pior, você acaba de humilhar o dono da casa. Quem você está pensando que é? Aonde você quer chegar agindo desse jeito? Custava você zapear os canais e tecer algumas palavras gentis? Algumas vezes é necessário cedermos pela paz de uma situação cotidiana. Por exemplo, como eu sempre faço em relação a você. Cedo pela paz dos nosso relacionamento. Você não pode fazer isso nem mesmo por uma tevê? Como você pode ser tão alienado em si mesmo?”. Emputecido, novamente não quis ouvi-la e, no auge de minha ignorância, reagi com argumentos insólitos e vazios, estancando todas as nossas chances de amor. “Olha, eu não estou a fim de participar ou defender seus ideais pacifistas, não pretendo me filiar a ongs, não quero adotar alguém e muito menos fazer revolução. Estou comodamente alienado e prefiro assim: nada na cabeça e dinheiro no bolso. Se quiser, vista você o seu cabresto social, afinal, a vida é um reality show de setenta e cinco canais, não é mesmo minha querida?”.
Pela primeira vez, você alterou o tom de sua voz, e, com lágrimas nos olhos, me levou até a porta da sua casa. “Vá embora, por favor”. Escutei seus gemidos inconsoláveis intercalados pela ausência de fôlego e dos soluços. “Como você pode odiar a vida? Como você pode não gostar de ser feliz, de se sentir bem, nem ao menos por um dia?”.
Embora eu tivesse a chance de permanecer calado, ir embora e refletir sobre o que você havia dito – pois hoje considero palavras carregadas de sabedoria – eu ferrei com tudo defendendo minha ideologia do ego, vazia e sem fundamentos. “Pessoas como você acham que podem simplesmente passar um corretivo ou mesmo oferecer um paliativo para todos e pronto: fica tudo muito bem! Olha, se você acha que sua vida seria bem melhor em um mundo colorido pela comunidade da alegria, me desculpe, mas não adiantaria. A humanidade teria de ser exterminada e a evolução natural teria que dar conta do recado para que outra espécie evoluísse para algo melhor, menos ansiolítico e impulsivo. Chega a ser gritante a corja de alienados que orbitam seus próprios umbigos e que, de tempos em tempos, vomitam nos nossos ouvidos metade de tudo que ingeriram com as demais pessoas. Ah!, também tem aqueles filhos da puta que culpam a natureza e seus fenômenos pelo fato de sermos rendidos em desastres. E agora que a coisa está completamente irreversível, querem que nós nos responsabilizemos - cada um de nós! - a trazermos à tona uma vida mais verde e ‘inalável’. Eu simplesmente não estou afim! Não vou salvar um panda. Não vou reciclar. Não vou racionar. Não vou tomar banhos curtos, - não importa a estação do ano - pois não estou a fim de mudar o planeta. Desculpe, mas eu já me cansei dessa violência simbólica e material. Eu não quero mudar de sexo. Não quero lutar no exército. Não quero ser pop, não quero ganhar na loteria para ser o milionário da vez e, eu, definitivamente, não vou mudar a merda do mundo só porque estou passando uma corrente maldita ou porque eu apaguei a luz do abajur do meu quarto por uma hora. Estamos pra lá de longe de nos sentirmos bem. Estamos tão doentes e tão desgraçados que já não vale mais a pena medicar. Isso apenas prolongará o sofrimento. O meu sofrimento. Você diz que eu odeio a vida, mas, pense bem, pense bem! A morte pode fazer muito mais sentido para uma espécie tão escrota como a nossa. Tão escrota que sublima tudo que pode para viver com menos desprazeres e depender mais de seus desejos egoístas!”.
- O único egoísta aqui é você com seu discurso de vida limitada e frustrada! - Você me interrompeu com um grito histérico, e então me estapeou na face na tentativa de reprimir meu desconsolo humano perante a tudo que se revelasse com disposição para vida. Você ainda negaceou com a cabeça, de olhos fechado, e confessou, enfim: “apenas queria que você ficasse bem!”.
A porta se fechou.
Eu me retirei da frente de sua casa com meu rosto inflamado e avermelhado. Andei pelas ruas tentando esconder a expressão de dor e constrangimento. Li as placas na esquina. Procurei uma direção. Eu estava a muitos quilômetros de minha casa. As pessoas me mediam, ora com repugnância, ora com deboche, meu rosto vermelho como uma maquiagem de palhaço. O formigamento e o ardor me recordavam nitidamente do tamanho de suas mãos, agora bem delineadas pelo vermelho coagulante. Mesmo depois de andar por cerca de uma hora até chegar ao terminal e embarcar no primeiro ônibus que vi, ainda sim podia sentir nitidamente o ódio expressado pela marca dos seus dedos. Eram oito horas quando o ônibus partiu. Eu levava como bagagem os seus sentimentos por mim, gravados em minha face; e meu coração apertado, de vergonha e dor.
Me sentei só no último banco tendo como vista os campos enegrecidos e sutilmente contornados pelo lume da lua. Na solidão da noite, sem conseguir dormir, me lembrei de suas palavras. De todas as suas palavras. O meu peito apertou e, na agonia, lágrimas saltaram lentamente escorrendo pelo meu rosto. Foi uma noite difícil e acabei adormecendo de cansaço, dor e arrependimento.
Quando acordei, seis horas depois, permaneci deitado, olhando para as lâmpadas do teto. Não me lembro quantos dias vieram depois, meus pais não me falaram. Me mantive ali, imóvel, observando as mesmas lâmpadas e as mesmas janelas por dias e dias. Meus pais disseram que você ligou e perguntou como eu estava. Eles também disseram que você garantiu que seu pai não está mais com raiva de mim e que agora tem cem canais na tevê por assinatura. Mas eles não disseram muito, pois logo eu apaguei devido a uma nova crise e precisaram chamar a enfermeira...
A visita para mim foi suspensa mais uma vez.
Eu sei que oito meses se passaram desde o dia que eu voltei de sua casa. Mas meus pais disseram que eu ainda não superei... que eu ainda não superei.
Eu tentei me matar.
Meus pais disseram que te contaram em um dos telefonemas.
Sei que você se culpa, mas não foi por sua causa. Eu era fraco. Um grande egoísta e ingrato.
Compreendo agora tudo o que você queria dizer a respeito da vida, sobre ‘viver e não existir’... são respostas para o que eu procurava e não percebia.
Mas agora, aqui, onde estou internado para reabilitar-me dos meus monstros particulares, aprendi muito. Consigo compreender e valorizo isso. Aprendi dizer ‘eu te amo pai e eu te amo mãe’. Agradeço a tudo. Sou mais aberto aos estranhos que me abordam e puxam assunto. Não julgo mais o que eu não conheço pelo simples fato de defender uma ideologia qualquer. Dedico um tempo para a contemplação de mim mesmo, me livro de toda alienação: divago sobre ser e existir, sobre mim, e descubro que eu posso cada dia mais, que eu sou infinito, que não existe razão alguma para doer e que apenas justificamos a nossa vida quando compartilhamos, quando somos com o outro... como você sempre tentou compartilhar comigo. Por isso, eu apenas queria que você soubesse que eu estou bem agora. E que nada nesse mundo será capaz de me alienar.
Nada.

11 comentários:

  1. Você escreve muito bem.
    Quanta angústia, hein? E namoradas assim.. a gente só encontra em contos mesmo..rs

    Beijos.

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  2. que lindo texto Gustavo! parabéns!

    abraços

    bruna

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  3. Muito profundo oque escreveu... nao tenho palavras para expressar o que li... parabéns pelo post

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  4. Já tive uma fase quase assim... Vida muda tudo e nos ensina simplicidade. Lindo isso!

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  5. Um tapa na cara é ótimo pra aprender certas coisas HAHA Até para amar a si mesmo, o próximo se faz necessário... é bacana tudo isso e a conclusão é que o "pensar por si próprio" não é o mesmo que ignorar qualquer pensamento alheio diferente do seu.

    Lindo texto!

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  6. Às vezes é muito difícil descobrirmos o equilíbrio dentro de nós mesmos. Mas, acredito que tudo faz parte de um processo. Nos sentirmos uma merda, inclusive. Quanto a vida, realmente penso que ela é superestimada. É preciso viver e existir sem pensar tanto na vida em si. Simplesmente deixar o ser correr e o acaso existir.

    Um grande beijo!
    Amo seus textos.

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  7. às vezes não tem o que fazer. se descobrir, me conta?! [respondendo ao seu comentário]

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  8. Num poema do António Gedeão há uma passagem:
    "...quem sente este meu sofrimento
    sou eu só e mais ninguém
    quem estremece este meu estremecimento
    sou eu só e mais ninguém..."
    Mas por vezes perdemos tempo demais a pensar em nós e no nosso umbigo que nos esquecemos de ver as coisas como elas são.
    A maior doença de homem será talvez a sua cegueira.

    Como sempre Luíz, com os teus textos vai abrindo os olhos de quem os lê!

    Beijinho
    LauraAlberto

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  9. Rapaz! Quê que é isso?!?!

    Assim não dá viu, se você continuar com este negócio de musas e coisas e talz vou ter que assumir que sou sua fã.

    Isso me deixaria envergonhada!

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  10. Ei, gostei dessa sequência,e essa personagem (ela) incrivelmente forte me lembra vc mesmo, conversando comigo dessas coisas da vida e de como vc consegue ser assim, simples ( comunidade da alegria,mas sem ser pejorativo). Enfim, todos precisamos de um 'baque' pra entender melhor.

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