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domingo, 1 de julho de 2012

- o sonho de Kaori [parte I]

Kaori fechou os olhos e suspirou profundamente. Permaneceu assim por algum tempo, imaginando que estava em um lugar calmo e com um grande rio de correntes e vértices infinitos. Era tudo muito fresco e tranqüilo. Com ela estava Rocco, seu cãozinho de estimação. Ao redor do rio havia muitas árvores e, algumas delas, eram curiosamente folheadas de rosa, de troncos escuros e robustos. Kaori as observou por bastante tempo e percebeu que delas nasciam, quase que instantaneamente, frutos de diversas formas e cores.
- Que lugar bonito, Rocco.
Kaori se aproximou das árvores e pegou um dos frutos disformes e excêntricos.
- Será que é bom? - cheirou e esfregou uma das frutas em seu pulôver vermelho, para lustrá-la. Em seguida, fechou os olhos e o mordeu vagarosamente. Mastigou, mastigou, mastigou e de sua face nasceu uma expressão de surpresa.
- Uau! Que bom, Rocco! Você deveria experimentar! – Então Kaori encostou o fruto no focinho de Rocco. Ele o cheirou e se afastou, desinteressado.
- Ah, esqueci que você gosta de carne e ração, não é? Tudo bem. Deve ter uma árvore de algo que se pareça com essas coisas em algum lugar por aqui. Vamos procurar.
Kaori e Rocco andaram observando as árvores todas que estavam em volta do rio, mas elas davam apenas frutos coloridos e poliformicos. Kaori ficou um pouco preocupada porque Rocco poderia estar com fome e lá não teria nada para ele comer.
Ela se sentou para pensar.
- Como vou encontrar comida para o Rocco? Aqui apenas tem essas árvores de frutos estranhamente deliciosos.
Kaori coçou a cabeça por algum momento, admirando a água do rio que corria até sumir no horizonte, formando uma miragem de gotículas, como nuvens de algodão tocando o solo cor de chocolate.
- Tive uma idéia! – Kaori se despiu rapidamente e correu para a beira do rio. Quando olhou para a água, notou que era totalmente límpida, transparente.
- Uau, olha que engraçado! Dá pra ver tudo através da água.
Kaori sutilmente colocou a mão na água e sentiu que temperatura estava perfeita. Nem quente, nem fria. Mergulhou seus pés vagarosamente e seu corpo crispou. Ela segurou a reação do riso cheio de dentes com suas mãos tímidas e, em seguida, mergulhou profundamente.
Kaori estava admirada, jamais havia visto uma água tão gostosa, tão limpa e tão transparente como aquela. Ela podia nadar de olhos abertos e também bebê-la, porque sabia que não lhe faria mal algum.
- Ei, Rocco, entra aqui, me ajude a pegar um peixe pra você!
Rocco apenas a observava, de longe, deitado na grama uniforme. Então Kaori iniciou a sua procura por um peixe bem grande para Rocco. E, num de seus mergulhos, ela percebeu algo muito, mas muito estranho: ao invés de simples peixes havia pequenos homenzinhos nadando, eram do tamanho de suas mãos e todos estavam nus. Ela nadou, nadou e nadou atrás deles e eles, apressados, sempre iam à direção contrária. Kaori se apressou, seguiu-os tentando, de alguma forma, fazer contato. “Como eles são esguios” ela pensou, “mas preciso pegá-los para saber como consigo peixes por aqui”. Depois de algumas passadas frustrantes, Kaori conseguiu agarrar um dos pequenos; ele era frágil, de braços minúsculos e pela pálida. Se debatia euforicamente, soltando grunhidos finos e desafinados.
- Calma, calma! Eu apenas quero saber como posso encontrar peixes por aqui. Você sabe?! O pequenino grunhia cada vez mais alto em tons desafinadamente agudos. Kaori tentou acalmá-lo acariciando a sua face com seus dedos delicados, mas ele reagiu mordendo-a.
- Ah! – Kaori gritou de dor e, num movimento involuntário, de espasmo, ela lançou o pequenino para longe. Ele caiu na grama, perto de Rocco, e não se moveu mais.
- Puxa! será que eu o machuquei!?... – disse ela assustada, levando as mãos aos lábios. Rocco levantou suas orelhas e correu para ver o que Kaori havia jogado na grama.
- Não, Rocco, não é pra você! Sai de perto dele – Kaori saiu da água apressada e veio em direção a Rocco.
Rocco cutucou o pequenino com seu focinho gelado e úmido, mas ele não se movia. Lambeu, lambeu e lambeu, mas nada, o pequeno não se movia. Kaori se aproximou e tomou o pequenino em suas mãos. Seus olhos lagrimejavam e logo lágrimas e mais lágrimas escorriam à sua face rosada.
- Me desculpe, pequenino, não queria machucá-lo, mas você me mordeu – choramingou limpando a face molhada com as mãos – Por que fez isso?
Ela arrancou uma pequena folha da árvore rosa, colocou sobre uma pedra e deixou o pequenino em cima da folha. Se vestiu rapidamente e se sentou ao seu lado, velando-o.
- Logo mais ele acordará.
Rocco sentou-se ao lado de Kaori, sua língua para fora, sempre com uma expressão de alegria em seus olhos.
- Depois que ele melhorar a gente consegue comida para você, Rocco.
Kaori velou, velou e velou, seus olhos se tornaram cada vez mais pesados e, assim, ela cochilou. Rocco se levantou e cheirou o pequenino. Lambeu-o algumas vezes e, então, começou a comê-lo. Primeiro os braçinhos, depois as perninhas, a cabeça e, por fim, o tronco.
- Ah! – gritou Kaori assustada – vendo Rocco com um dos bracinhos em sua boca. Ela não pôde acreditar.
- O que você fez, Rocco?! Como pode comer uma pessoinha tão pequenininha e indefesa? Você o matou, Rocco! Você o matou!
Rocco acuou. Teve medo de que Kaori o maltratasse.
- Cachorro idiota! cachorro idiota! – gritava, enfurecida, batendo os pés em direção a Rocco. Então Rocco correu, correu e correu. Foi para o meio dos arbustos acinzentados, logo depois das arvores de folhas rosa e desapareceu.
- Vai embora, seu cachorro mau! Você é mau! Cachorro mau!
Kaori estava muito nervosa e perdera o controle. Ela se ajoelhou e bateu as mãos contra a grama gritando palavras que não existiam. Ela sempre fazia isso quando estava nervosa e irritada.
- Vou mandá-lo para o canil! Isso mesmo: para o canil!
Kaori permaneceu na grama, olhando a folha solitária, onde estava o pequenino. Ela se encolheu, abraçando seus joelhos e puxando firmemente seu pulôver ao seu tórax, como se quisesse se aquecer mais. Desorientada, ela olhou ao redor. Parecia estar cercada por um vale imenso, com montanhas altas e enormes por todos os lados, cerradas de árvores das mais diversas cores e tamanhos. O som de água era frequente e turbilhante, e não se escutava nada mais. Ela permaneceu observando e ouvindo todas as impressões do ambiente solitário. Então, ela suspirou, abaixou a cabeça e começou a chorar.
- Não devia ter gritado com o Rocco. Agora ele vai ficar assustado à noite. Pobrezinho, ainda mais, está com fome. E logo também estará com frio... Quer dizer, acho que ele só estará com frio porque ele comeu o pequenino inteirinho.
Kaori não sabia onde deveria começar a procurá-lo. Ela nem sequer sabia se devia procurá-lo. O que ele havia feito foi um ato muito cruel. E ela não sabia se poderia perdoá-lo. De todo o modo, sentia falta dele. Rocco sempre fora seu amigo e companheiro. Sempre estivera com ela. Desde quando ela se lembrava de que tudo era tudo Rocco estava lá.
- Temos que fazer o que o nosso coração manda. E meu coração quer encontrar o Rocco. Então Kaori respirou fundo e foi em direção aos arbustos. Observou atentamente, para saber se havia algum movimento naquele emaranhado de folhas e troncos disformes, mas nada, nem mesmo o vento parecia repelir a relva. Kaori olhou o céu. As nuvens todas cobriam o vale. Estava tudo cinza. Ela sentiu um arrependimento do fundo da alma. Uma dor que angustiava seu peito pequenino.
- Logo choverá. Tenho que encontrar o Rocco.
Kaori correu afastando os galhos e as folhas que pareciam querer detê-la, como grandes mãos. Mas ela era exígua e rápida, o que a possibilitava escapar sem muito sacrifício. Durante a corrida, Kaori pensava o que poderia dizer a Rocco quando o encontrasse. Talvez começasse pedindo desculpa, o abraçando forte e só depois diria que “jamais se pode fazer uma coisa tão cruel como comer uma pessoinha, seja ela do tamanho que for” por motivos que ela inventaria na hora. E já sabia qual seria o castigo, afinal sempre há um castigo. O castigo seria ficar sem entrar em casa por uma semana. Teria que dormir no quintal. Mas Kaori também pensava se aquele seria um castigo justo. Talvez não fosse muito severo, mas também não queria que o mandassem para o canil, como ela havia dito antes. Ela ouvira histórias abomináveis sobre o canil e por isso não queria pensar que essas coisas pudessem acontecer também com Rocco.
De repente um estrondo veio do céu. Kaori parou. Ela observou às nuvens e viu um fio de luz estridente e forte cortá-las. Kaori cerrou os olhos e tampou as orelhas o mais rápido que pode. Mas mesmo assim ela não pôde deixar de escutar aquele imenso estrondo que ecoou pelo vale como um urro de um monstro.
- Nossa! Pareceu que a terra tremeu.
Então Kaori se lembrou que Rocco tinha muito medo de relâmpagos e trovões. Seus olhos estalaram com essa lembrança e ela levou as mãos para a cabeça, preocupada.
- Preciso encontrar o Rocco! Preciso mesmo encontrar o Rocco!
Antes de correr, ela olhou ao redor prestando atenção a todo e qualquer movimento, mas nada. Nada se movia. Kaori seguiu em frente.
Ela circulou pela relva que contornava o rio dos pequeninos, olhando a cada espaço. Enquanto avançava, chamava pelo nome de Rocco.
- Rocco! Rocco! Apareça! Prometo que não vou te castigar.
Mas Rocco não aparecia.
“Onde ele estará?” pensou com a alma esmorecida.
Kaori se arrependera profundamente de ter sido rude com seu cãozinho. No fundo, a culpa havia sido dela. Foi ela quem lançou o homenzinho à margem, onde Rocco descansava seus olhos. E, bem provavelmente, ele já estava morto quando Rocco o comeu.
“Puxa, espero que ele esteja bem”.
Agora Kaori estava sozinha e o céu se tornava cada vez mais negro e escuro. As luzes de raios, das mais variadas cores, cortavam o horizonte. Kaori sentiu seu peito apertar. Suas pernas fraquejavam. Temia não conseguir encontrar seu amigo peludo. Temia não se encontrar naquele espaço negro e selvagem.
Seus olhos encheram de lágrimas. Ela estava cansada, mas sabia que precisava ser forte. Tinha de encontrar Rocco e por isso teria de continuar a andar.
Os pingos de água molhavam gradualmente seu rosto.
- Oh não! Agora está chovendo.
Para se proteger, ela cobriu sua cabeça com o pulôver. Mas logo seu pulôver se encharcara e ela sentiu o frio atravessar sua espinha, convertendo todo seu esforço em se manter seca e aquecida em cansaço e exaustão. Estava cada vez mais escuro e, por isso, Kaori temia tropeçar e cair. Os pingos dispersos logo se transformaram numa chuva torrencial. Kaori apenas desejava estar seca e aquecida. Mas para onde ir? Estava escuro demais para enxergar. Era como andar de olhos fechados, mesmo estando abertos e atentos.
- Não agüento mais. Preciso arranjar um lugar para me proteger e descansar se quiser ter forças para encontrar o Rocco.
Kaori recostou no tronco de uma árvore e caiu de joelhos.
- Não agüento mais... – sussurrou mais uma vez, antes de desmaiar. Seu corpinho esquálido e pálido se derramou sobre o barro negro e vacilante. As poças se abriam em pequenos córregos – como se quisessem carregá-la, transformá-la em corrente – e a chuva a atingia como flechas minúsculas, desorientadamente certeiras. Não se ouvia nada além do barulho da água que escoava pelos troncos, galhos, caules e folhas que ali existiam. Kaori agora descansava em seu desmaio como que incorporada perfeitamente à paisagem triste e crepuscular.
Os estrondos orquestrados da natureza se tornaram ainda maior. O cataclismo do ambiente fazia dançar as árvores, os galhos e os arbustos. Todo o redor se tornava acidentado e desastroso. Já não era possível saber qual direção tomar. A chuva, em torrentes, deturpava a visão por completo.
- O que ser isso? – disse uma voz grave e pigarreada.
Era Buffalo Jack. Ele voltava de sua tarde de caça nos vales.
Curioso, ele deitou seu saco com a captura do dia e se aproximou de Kaori. Chutou-a levemente com seus cascos barrentos para saber se isso reagiria. Nada.
- Será que isso ser gostoso como os suricatos?
Buffalo Jack a pegou pelos braços e a jogou por cima dos ombros. Agarrou seu saco com seus dedos grossos da mão esquerda e seguiu seu caminho. Ele realizava suas passadas rústicas de gigante, como se pudesse enxergar cada ínfimo centímetro naquela negritude turva. Seu tronco era robusto e forte e carregava Kaori sem dificuldade alguma. Suas pernas, aparentemente desproporcionais ao corpo, finas e rijas, davam passos pesados e uníssonos.
- Como isso chegar aqui? Será que J. Hemmett está por traz disso? Aquele escroto! – Tossiu. Era uma tosse carregada e longa, como um grunhido de porco.
Buffalo Jack praguejava J. Hemmett enquanto cuspia seus excessos no rio cristalino dos Pequeninos, onde Kaori havia brigado com Rocco por conta do pequenino.
A chuva não cessaria tão cedo e parecia cada vez mais espessa. Buffalo Jack, percebendo que não teria trégua, cortou caminho pelas fendas do vale, embalado pelos uivos dissonantes que noite e dia ecoava pelos poros do solo e das paredes rochosas dali.
- Calem a boca! – sua voz estridente sonou pelo espaço, mas logo foi engolida pelos intensos uivos do vale sinistro.
Irritado, Buffalo Jack correu. O corpo de Kaori, como uma marionete, balançava pesadamente em seus ombros, mas ela continuava inconsciente. Depois de atravessar o vale, Buffalo Jack já estaria em sua casa. Ele habitava uma choupana de madeira enegrecida. Logo que se avistava sua choupana decadente, podia-se notar os degraus capengas e rangentes. Também se via a única janela da casa, que tinha formato de lua minguante. Na primavera e no verão, Buffalo Jack sempre se sentava ao pé da lua de madeira, fumando seu cachimbo, para observar os lírios fragorosos que nasciam perto dos teixos; as árvores que ali tinham, dançavam cortejando o sol resplandecente. Buffalo Jack não era de falar. Aliás, ele não sabia muitas palavras. Apesar dos cachimbos que tragava, dando-lhe ar de um homenzarrão intelectual, Buffalo Jack era de humor rústico – assim como sua casa. Seus trejeitos lhe faltavam beleza e delicadeza. Os pequenos olhos amarelos diziam muito pouco sobre ele e também sobre seus pensamentos. Raramente ria. Dificilmente saia de sua casa – apenas para caçar suricatos ou para buscar água no riacho dos pequeninos.
- Agora faltar pouco para comer suricatos – salivou enquanto empurrava a porta pobremente lenhada. Sugou profundamente o ar para os pulmões com sua narina negra, úmida e avantajada e esparramou pelo soalho as carcaças de suricatos mornamente mortos e totalmente ensopados pela chuva de torrentes.
Nos seus ombros ainda esta Kaori. Ele a segurou pelo pulôver, como um boneco desengonçado, cerrou os olhos para acurar a visão e tentou capturar alguma semelhança consigo ou com a realidade que conhecia. Coçou o alto da testa, calcou o queixo, negaceou com a cabeça... ele não sabia o que ser isso.
- Buffalo Jack levou Kaori para o cômodo de suas ferramentas, deitando-a no chão. Ela estava ensopada, escorrendo água por todas as extremidades do corpo.
Antes de sair do cômodo fechando a porta rangente, Buffalo Jack tirou seu cachimbo do bolso, bateu-o contra a parede para remover o excesso da guimba, desenrolou o fumo de crisântemo e, assim o acendeu; aproveitando a chama, foi até a lamparina do cômodo para acendê-la também, iluminando minimamente o local onde Kaori jazia.
- Vou preparar meus suricatos.
Primeiramente, Buffalo Jack separou as suas lenhas e, lentamente, acendeu sua lareira, pois toda lenha deveria se tornar carvão antes de estar ao ponto de assar os suricatos. Uma vez o com o fogo aceso e estalante, ele se livrou da pesada veste de pele de ovelhas e as espalhou para onde as fagulhas alcançavam.
- Assim secar rápido.
Removeu suas ferramentas e aparatos dos coldres da cintura e as encostou à beirada do sofá de penas de Dodô.
- Agora, começar o prato de suricatos!
Suricato era o prato favorito de Buffalo Jack. Ele sempre os preparava com determinada maestria. A começar pela escolha da vítima. Buffalo Jack somente escolhia os mais valentes do bando, que possivelmente já adquirira infinita imunidade em batalhas de disputa de território com outros animais de inestimada peçonha. Suas armas favoritas para caçar eram os tacapes e os machados que ele mesmo desenvolvia. Atirava-os a distância buscando acertá-los entre a nuca e a primeira medula, abaixo do pescoço. Assim a morte era certeira. Não havia agonização. Buffalo Jack quase nunca errava a mira. Neste dia ele havia matado quatro suricatos adultos.
Ao chegar em casa, ele iniciava o ritual de limpeza e preparação dos temperos, para que seu cozido de suricatos fosse perfeito. Os pequenos corpos eram colocados em fila no soalho da cozinha. Buffalo Jack amolava sua faca nas pedras-pomes e depois a esterilizava esquento à vela.
- O corte será perfeito agora.
A primeira incisão era na garganta. Linearmente, Buffalo Jack abria a fina camada de pele e pelos até a região pélvica do suricato. Assim as vísceras eram facilmente removidas com sua mão enorme e áspera. Numa panela os miúdos; na outra, os graúdos. Excetuando a cabeça, que era enterrada em honra a coragem dos pequenos suricatos, os demais órgãos eram aproveitados, inclusive o sangue, por ser o elixir que continha o soro das imunidades; Buffalo Jack o armazenava em pequenas garrafas e, todas as noites, antes de dormir, tragava um gole profundo para prevenir-se das mazelas do corpo.
Depois da incisão, aqueles que não fossem servir de alimento para o mesmo dia, eram escaldados em ervas – de modo que o excesso de pele e pelos eram removidos completamente – e, então, Buffalo Jack também os embalsamava com uma cera conseguida pela asa derretida dos pequeninos, podendo conserva-los por mais um ano inteiro. Mas, de todo modo, as conservas não eram por muito tempo, pois Buffalo Jack apenas necessitava de quatro dias para comer quatro suricatos.
- Pronto! Esse ser assado – ergueu, enfim, seu troféu de carne, empalando-o em um enorme espeto de aço. Verificou o fogo: perfeito para assá-lo. A lenha já havia se dissolvido em pedaços de carvão. Assim, Buffalo Jack acomodou o suricato na brandura do fogo. Cansado e ainda molhado, ele se sentou em sua cadeira de balanço e, parcimoniosamente, elaborou mais um fumo de crisântemo para seu cachimbo como um quebra-cabeça meticuloso.
O calor do fogo estalava fagulhas e mais fagulhas para perto dos seus cascos grossos e insensíveis. O sangue da carcaça escorria pelo espeto, atiçando o fogo, aumentando as chamas.
- Nham, nham, logo, logo, comer – disse esbaforindo a fumaça densa de seu pito.
Buffalo Jack alisou seus pelos enfados e sebáceos tentando remover a espessura d’água de seu corpo já esgarçado e frio. Esparramou-se em sua cadeira rangente e assistiu à carne esfumaçante dourar nas centelhas da clareira. Não demorou muito, e ele cerrou os olhos lentamente antecipando com a imaginação o sabor da carne em sua boca salivante. Somente voltou a si quando o ronco de seu estômago passou a afetar o andamento da fantasia de seu sonho. Para distrair a fome Buffalo Jack percorreu o pequeno casebre em passos apressados e, depois que se cansou do movimento circular, foi até sua janela em formato de quarto crescente para observar o movimento da noite que chovia uma tempestade. Do que se podia observar pelos seus olhos minguados, lá fora, a chuva estalava as calhas e as telhas. Como cachoeiras, as torrentes se arrebentavam pelos vales, se exprimiam pelas rochas e deslizavam às colinas, lavando e carregando as relvas, as árvores e os arbustos em direções caóticas e descompassadas.
- Chuva demorar para passar – sentenciou com sua sabedoria empírica.
De repente, no meio do oceano de gotas, Buffalo Jack avistou um borrão rasteiro e veloz vindo em direção à sua casa. Ele escutou o ranger dos degraus e com a coragem de um guerreiro nobre foi até a porta e a abriu sorrateiramente – embora não pudesse evitar o ranger das juntas empenadas. Seu corpo desengonçado e grande não pode ser plenamente escondido entre a parede e a folha da porta. Ele esperou. “Onde estar o vulto”, pensou. Tentou controlar sua respiração, afinal, suas narinas largas e espaçadas poderiam denunciá-lo. Nada. Nem um movimento. Buffalo Jack se impacientou em silêncio. “Tenho que ver o que ser isto”.
A expressão de sua face era de concentração e desconfiança. Mas ele estava decidido.
- Quem ser você!? – gritou pulando em frente à porta com o punho armado.
Houve um breve segundo de comoção. Buffalo Jack não compreendeu. Desarmou os punhos. Desfez a face de fúria e raiva. Por um breve instante ouviu-se apenas a chuva e seus estalos.
- O que ser você? – esbravejou Buffalo Jack.
Era Rocco. Ele farejava o chão molhado com uma certeza voraz.
Rocco latiu.
Buffalo Jack se afastou cerrando os punhos. Rocco, sem se intimidar com a reação de Buffalo Jack, entrou como se a casa fosse sua e correu para a onde farejava o sono de Kaori. Ao chegar à porta, Rocco latiu ainda mais. Ele arranhava as paredes, na tentativa de acessar o local em que estava sua dona.
Buffalo Jack tapou os ouvidos e gritou.
- Pare com isso ou eu pegar você!
Rocco insistia com seus latidos de ansiedade.
Urrando em raiva, Buffalo Jack correu em direção a Rocco e com apenas um soco, ele o desacordou.
Do outro lado da parede, escutou-se um grito agudo e abafado. Era Kaori.
- Rocco! É você? – choramingou.
- Oh, não, ela acordou – suspirou Buffalo Jack – e agora, o que fazer?
Ele pegou o corpo desfalecido de Rocco e o jogou nas costas. Depois de suspirar seus anseios e suas inseguranças, ele abriu a porta.
Kaori tinha os olhos tão marejados quanto à chuva que corria lá fora. Seu corpo estava acuado e, suas mãos justapostas e indefesas, sua pequena boca semicerrada, demonstravam o temor daquele homenzarrão grotesco.
Quem é você? – gaguejou Kaori – e por que Rocco está em suas costas?
Buffalo Jack permaneceu imóvel segurando as patas de Rocco ao redor de seu pescoço.
Os lampejos dos raios eram a única luz do ambiente, o que tornava a aparência de Buffalo Jack ainda mais grotesca. Kaori engoliu o temor e o choro e mais uma vez perguntou:
- O que o Rocco tem? Foi você quem fez isso?
Buffalo Jack caminhou em direção a Kaori. Ela hesitou se arrastando para trás, a cada passo que ele dava. Buffalo Jack se aproximava cada vez mais. Kaori tentou mais uma vez se afastar, mas logo o espaço da mesa se acabou e ela foi ao chão. Quando se recompôs da queda, Buffalo Jack já estava ao seu lado.
- Não me machuque! – gritou chorando – Não faça nada com meu cãozinho!
Buffalo Jack se abaixou e Kaori pode fitá-lo de perto. Ele era realmente feio, com suas narinas úmidas e seus odores fortes. Kaori tentou não encará-lo por muito tempo para que seu olhar não fosse considerado uma afronta. Assim, ela desviou seus olhos para Rocco, ele continuava esmaecido. Ela chorou.
Lentamente, Buffalo Jack retirou Rocco de suas costas e o deitou ao lado de Kaori. Ele se levantou e, depois de suspirar, se retirou batendo a porta.
- Não interromper meu jantar de suricatos – berrou enquanto a porta se fechava.
Sozinha com Rocco, Kaori chorou ainda mais. Ela estava com saudades e havia se arrependido de tê-lo enxotado para o meio da relva, deixando-o desprotegido. Rocco estava bastante debilitado. Era possível ver algumas escoriações em suas patas. Ela o abraçou forte e se deitou ao seu lado.
Kaori pensou em como chegara até ali.
Vagarosamente, ela tirou seus sapatos gastos e sujos. Ambos deviam estar exaustos. Ela andou o dia inteiro a procura dele. E ele andou o dia inteiro se escondendo de medo dela. As pedras machucaram os pés de Kaori e as patas de Rocco. Seus corpos estavam úmidos da chuva que tomaram. Era realmente necessário se abraçarem para se aquecer.
- Queria estar em minha caminha quente e macia com o meu cobertor quente e macio. Eu pediria para mamãe deixar você deitar na minha cama também, Rocco. Ela não ia negar. E então poderíamos dormir assistindo à TV ou lendo alguma história. O que você acha?
Rocco não respondeu estava distante e alheio àquele mundo.
- O tempo lá fora me assusta. Está chovendo tanto... Como sairemos daqui? Você sabe como viemos parar aqui? Foi você quem me trouxe aqui? E se isso tudo for um sonho? Eu não quero mais sonhar, Rocco, sonhar assusta bastante... Eu não sei se isso é um sonho, Rocco. O que será tudo isso? Por que é que a gente veio parar aqui? O que foi que eu fiz?
Ela o abraçou fortemente e fechou os olhos.
- Nunca mais eu vou brigar com você. Me desculpe.

[continua]

16 comentários:

  1. Está muito bonito, eu vi tudo na minha cabeça como um desenho animado! E no final até me vieram as lágrimas aos olhos!

    ... J'attends impatiemment la suite ...

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    1. - Olá, Paula.
      Que bom que o texto te tocou.
      Fico muito contente quando há identificação com o enredo e com as personagens.

      Grande abraço.

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  2. Estou curiosa para saber o final.
    Me fez lembrar um pouco "A Viagem de Chihiro".
    E que bom que suas palavras estão de volta ao blog.
    Você sabe bem que sinto falta delas.

    Bjo grande!

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  3. Estou curiosa para saber o final.
    Me fez lembrar um pouco de "A Viagem de Chiriro".
    E que bom que suas palavras estão de volta ao blog.
    Sabe muito bem que sinto falta delas.

    Bjo grande!

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    1. - olá, querida Larissa.
      Gostei do comparativo. Chihiro sempre me encantou.
      Estou voltando aos poucos.

      Grande abraço.

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  4. Respostas
    1. Obrigado, Antônio.
      fico contente que tenha gostado.

      Grande abraço.

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  5. Quase consigo tocar a história. Espero pela parte II!

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    1. Que bom que gostou, Thais.
      Pois ainda há muito mais de Kaori por vir.

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  6. Fazia tempo que não vinha aqui.. agora estou esperando a continuação.
    Como sempre, o que vc escreve me pega de jeito.

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  7. Respostas
    1. Eu também estava com saudades de ler seus textos.
      Aos poucos eu voltarei a aparecer por lá.

      Grande abraço.

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  8. após o último aviso deixado no teu blogue acho que posso aguardar em breve pela continuação da história...

    beijinho

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  9. Olá, Laura.
    Haverá sim continuação.
    Estou construindo algumas partes, editando outras.
    Logo tem mais.

    Abraços.

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