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domingo, 4 de novembro de 2012

Freud, Psicanálise e Religião: Das Influências Psicanalíticas


CAPITULO UM – DAS INFLUÊNCIAS PSICANALÍTICAS


1.1  O ILUMINISMO, O MATERIALISMO E SIGISMUND SCHLOMO FREUD

Ao explorar a temática da religião, navegar no contexto sócio-histórico pode ser uma aventura demasiadamente complicada, se não for decidido qual o norte desta bússola bibliográfica milenar. Por isso, neste primeiro momento, detenhamo-nos no início do século XIX, no contexto que forneceu todo pano de fundo para o desenvolvimento da teoria psicanalítica de Freud, para depois regressarmos aos contextos mais primitivos da história da religião e, assim, correlacionarmos religião e Psicanálise, para que compreendamos suas divergências e similaridades.
Na Europa do século XIX muitos dos filósofos e cientistas em voga partilhavam do clima filosófico e científico que convergiu para um modelo denominado materialista – a grosso modo, o materialismo parte do princípio de que todas as coisas são compostas de matéria e todos os fenômenos visíveis ou invisíveis são o resultado de interações materiais; que a matéria é a única substância que permeia o Universo. Esse modelo filosófico e científico proveio de influência direta dos ideais Iluministas, que teve sua ascensão na França, na metade do século XVII, e também do Positivismo de Auguste Comte, com seu apogeu na segunda metade do século XIX (FARIA, 2003).
O Iluminismo, que pretendia eliminar as "trevas" do período medieval, tinha como objetivo a liberdade dos homens e, por isso, se baseou nas idéias de grandes filósofos da época, como John Locke, e a sua exposição sobre o Empirismo: para ele não interessavam as idéias puras e sim abrir-se para a percepção. John Locke atribuía, sobretudo, o conhecimento à experiência mediante a observação da natureza (WONDRACEK, 2003). Já René Descartes, teorizou sobre a exposição do problema mente-corpo, em que as principais questões eram: como o espírito poderia agir sobre a matéria e como os fatos da consciência poderiam agir sobre o organismo ou o organismo sobre os fatos da consciência (FARIA, 2003).
 A cadeia de filósofos do Iluminismo também foi fortemente influenciada pelo materialismo dos pré-socráticos, como Demócrito e Lucrécio, que explicavam os fatos do Universo em termos físicos, por meio da existência e natureza da matéria – como o materialismo científico revivido no século XIX. Todas essas idéias foram alinhadas, posteriormente, ao Positivismo de Auguste Comte que, sem qualquer atributo teológico ou metafísico, tinha como premissa a busca pelas leis que regem os fenômenos e fatos naturais, unicamente por meio da observação objetiva (FIGUEIREDO; SANTI, 2006).
Wondracek (2003) coloca que, no final do século XIX,

A ciência passa a ser considerada como a única manifestação legítima de Infinito, dando-lhe conotações quase religiosas, constituindo-se em alternativa às religiões tradicionais, e em fundamento último das normas éticas. Como conseqüência, todo sobrenatural, visto como oponente ao científico, é considerado inimigo do humano e deve ser eliminado (p. 170).

Assim, os filósofos e os cientistas desenvolviam diversas teorias que, conseqüentemente, colocavam em xeque o valor científico da época – valores estes que sempre estiveram intrinsecamente ligados à teologia e à religião. Inúmeros debates, confusões e exageros envolvendo teólogos, filósofos e cientistas eram cada vez mais freqüentes, pois, de um lado, se defendia a origem de todos os seres humanos provenientes apenas de um casal humano ou de alguma entidade divina e, do outro, admitia-se vários casais humanos primordiais, como o fisiologista Carl Vogt, com sua obra Köhlerglaube und Wissenschaft [Fé de carvoeiro e Ciência]; e a obra do médico Ludwig Büchner, Kraft und Stoff [Força e Matéria], de 1853, que explana e expõe a interação entre matéria e suas forças – esta última foi reproduzida em mais de vinte edições e é considerada, até hoje, a bíblia dos científico-materialistas. Para completar, 1859, seis anos após a publicação de Büchner, Charles Darwin trouxe à tona sua obra On the Origin of Species [A Origem das Espécies], que, embora muito bem quista pelos cientistas materialistas, foi condenada por diversos filósofos e teólogos por desafiar a interpretação da criação bíblica, pois trazia à tona a perspectiva de que o homem apenas era um animal com um cérebro bem desenvolvido (KUNG, 2006).
Com a ampla divulgação dessa série de publicações no cenário acadêmico científico, o ateísmo na Europa se tornava cada vez maior. Na Alemanha a transformação cultural por causa do embate científico-religioso era ainda mais evidente, pois a reforma educacional que ocorrera no começo do século XIX, com base nas idéias materialistas, permitia que os professores universitários escolhessem livremente o tema e o método de como as matérias seriam abordadas e, assim, o resultado dessa liberdade educacional permitiu a aplicação de diversos métodos experimentais que possibilitou, em pouco espaço de tempo, uma impressionante evolução da ciência moderna. Evolução esta que beneficiou principalmente a Psicologia, que integrava dados de diversas áreas e que era conhecida por descrever e mensurar as diferenças individuais. Por mais que população dos séculos anteriores, XVII e XVIII, fosse assídua frequentadora de igrejas, depois dessas publicações da segunda metade do século XIX, onde quer que se vasculhasse por informações a respeito da ciência e da religião se encontraria “um vasto campo de batalha, repleto de credos envelhecidos e modernas heresias, e animado pelos heróicos frenesis de novas seitas” (GAY, 1992, p. 23).
Teólogos e cientistas lutavam para demonstrar suas verdades. Andrew Dickson White – que embora fosse cientista estava do lado dos teólogos – definiu que “o mundo necessita é mais religião, e não menos; mais devoção à humanidade, e menos pregação de dogmas”. (WHITE apud GAY, 1992, p. 32). Já John William Draper – um dos porta-vozes da ciência materialista do século XIX e autor do livro History of the Conflity between Religion and Science [História do Conflito entre Religião e Ciência] – acalorou o conflito com a definição de que o Cristianismo Romano e a Ciência têm seguidores absolutamente incompatíveis e, por isso “não lhes é possível existir lado a lado. Um deve capitular diante do outro. A humanidade tem que fazer sua escolha – não pode ter os dois.” (DRAPER apud GAY, 1992, p. 31).
O cenário teológico e científico da Europa fervilhou com a publicação de obras de contestação e, assim, ao final do século XIX, o cenário filosófico científico convergia cada vez mais ao materialismo científico. E foi no cenário de disputa entre Igreja e Ciência que nasceu Sigismund Schlomo Freud. Essas lutas constantes perduraram durante décadas. E elas foram observadas por Freud, não com menos interesse, enquanto crescia, entrava na universidade, se estabelecia como médico e desenvolvia a psicanálise (KUNG, 2006).
A questão é: Freud fora influenciado diretamente por todo esse cenário da época?

1.2 FREUD – RELIGIÃO E PROFISSÃO

Logo que nascera, em seis de maio de 1856, na cidade de Freiberg, na Morávia (atual República Tcheca), Freud foi submetido aos cuidados de uma babá de origem tcheca, devota católica apostólica, que o levava às diversas igrejas de Freiberg, onde ouvia pregações sobre o “bom Deus” e também sobre o céu e o inferno. E, em sua casa, Freud, por incentivo dessa babá, imitava os rituais litúrgicos, pregando-os e explicando-os para todos (GAY, 1989).
 Vários autores têm se ocupado sobre a influência da babá de Freud em sua vida, pois ser criado por duas mães (sua mãe real e sua babá) pode ter despertado em Freud a razão de seu interesse por grandes personagens que também tiveram duas mães, como Édipo, Moisés e Leonardo da Vinci, que por meio do estudo da história desses personagens, possibilitou o desenvolvimento de sua teoria acerca da religião e experiência religiosa. Além do mais, eram duas mães completamente diferentes, uma (a babá) era católica, mais amável, cuidava e dava carinho, a outra (a mãe) era judia e nos seus primeiros anos de vida apenas lhe atendia para as necessidades físicas (RIZZUTO, 2001).
De fato, como Freud confessa a Fliess em uma carta enviada em 3/10/1897, a sua babá o despertou para os rituais religiosos católicos – totalmente diferentes da cultura judaica de sua família – e também aos conflitos que futuramente o ajudariam a desenvolver o Complexo de Édipo, tão importante para Freud nas questões ligadas à religião e religiosidade do indivíduo:
Só posso esclarecer que [...], em meu caso, o ‘originador primordial’ foi uma mulher feia e idosa, porém esperta, que muito me ensinou sobre Deus Todo-Poderoso e o inferno e que infundiu em mim uma opinião elevada sobre minhas próprias aptidões; que, mais tarde (entre dois anos e dois anos e meio), minha libido voltada para a matrem [mãe] foi despertada, a saber, por ocasião de uma viagem com ela de Leipzig a Viena, durante a qual devemos ter passado a noite juntos e devo ter tido oportunidade de vê-la nudam (p. 269)

Até que, quando estava com seus dois anos e meio, sua babá foi presa por roubar a propriedade dos Freud. Com a prisão da babá, Freud passou a ser educado integralmente por sua mãe, Amelie e, apenas quando ele completou seis anos, deu-se início aos ensinamentos da religião judaica. Como ele mesmo afirma em sua obra Um Estudo Autobiográfico, de 1925: o “[...] profundo interesse pela história da Bíblia (quase logo depois de ter aprendido a arte da leitura) teve, conforme reconheci mais tarde, efeito duradouro sobre a orientação de meu interesse” (p. 16). Mas, Freud (1900), demonstrava-se bastante desconfortável com os ensinamentos judaicos de sua mãe, como aponta em uma passagem de A Interpretação dos Sonhos:

Quando eu tinha seis anos de idade e recebi a primeira lição de minha mãe, tive de acreditar que somos feitos da terra e que à terra teremos de voltar. Isso não me agradava, e eu duvidei dessa doutrina. Então minha mãe esfregou as mãos uma na outra [...] e me mostrou as escamas enegrecidas que se desprendem da epiderme, como prova de que somos feitos da terra (p. 178).

Mas a influência religiosa de Freud não parou por aí, pois, depois, quando foi à escola, Freud continuou a aprender a história bíblica e o hebraico com o professor Samuel Hammerschlag, que manteve uma importante amizade ao longo de sua vida para discussões e críticas a respeito da religião (KUNG, 2006).
Em seu círculo de amizades, Freud mantinha poucos amigos não-judeus e era constantemente marginalizado e humilhado por parte de cristãos anti-semitas. Essa marginalização o acompanhava também nas ruas e se estendia aos seus familiares. A exemplo, há o relato de quando Freud presenciou a humilhação sofrida por seu pai em que lhe arrancaram o gorro com um tapa e disseram: “Desce da calçada, judeu!”. Seu pai não reagiu, e isso suscitou em Freud um grande desejo de ódio e vingança, além de abalar o respeito na fé cristã e em seu pai (GAY, 1989). E, aos 17 anos, quando foi à universidade, essas humilhações não deixaram de ser constante, o que lhe proporcionou consideráveis desapontamentos. Como o próprio Freud (1924) afirma:

[...] esperavam que eu me sentisse inferior e estranho porque era judeu [...] Recusei-me de maneira absoluta a fazer a primeira dessas coisas. Jamais fui capaz de compreender porque devo sentir-me envergonhado da minha ascendência ou, como as pessoas começavam a dizer, da minha ‘raça’ (p. 16).

Mas, mesmo nesse universo onde os judeus eram mal vistos, Freud conseguiu encontrar uma pessoa que o acolheu, se transformando em seu “segundo pai” (KUNG, 2006, p. 18). Esse homem era Ernst Brücke e ele apresentou à Freud o solene juramento da Escola Médica de Helmholtz: dar vigor à verdade de que não existem no organismo outras forças que as físicas e químicas (WONDRACEK, 2003).
Brücke também confiou a Freud, inicialmente, o problema do sistema nervoso que permanecia irresoluto nos estudos de histologia da época, e assim Freud se dedicou por anos até finalmente resolvê-lo. Depois, também por influência de Brücke, quando recebeu tardiamente seu título de doutor, abandonou os laboratórios no qual dedicara seus estudos de 1876 a 1882 e optou por atuar como assistente clínico no Hospital Geral de Viena (FREUD, 1924).
Nesse ínterim, Freud conheceu um dos mais renomados médicos de Viena, Josef Breuer, com quem começou a discutir e partilhar seus interesses científicos. Também se tornou docente de Neuropatologia na Universidade de Viena e se casou com Martha Bernays, muito embora os pais da noiva não aprovassem o casamento pelo fato de Freud ser pagão. Mas, logo, Martha, influenciada pelo marido, também abandonou os rituais judaicos. (KUNG, 2006). Além disso, Ernst Brücke lhe conseguiu uma bolsa na clínica de doenças nervosas de Jean Martin Charcot, em Salpêtrière. Lá, Freud iniciou seu aprendizado sobre histeria e hipnose e se impressionou muito com as técnicas de Charcot: “O que mais me impressionou enquanto privei com Charcot foram suas últimas investigações acerca da histeria, algumas delas levadas a efeito sob meus próprios olhos” (FREUD, 1924, p. 20).
Quando retornou à Viena, a fim de organizar seus estudos e descobertas de maneira sistemática, Freud se deparou com uma sociedade científica que desacreditava totalmente em seus novos métodos aprendidos. Apesar de não compreender, Freud rompia, gradualmente, com os diversos ideais científicos recorrentes da época, incluindo o solene juramento da Escola de Helmholtz e, por isso, pediu demissão do Hospital Geral de Viena (GAY, 1989).
No dia 25 de abril de 1886, Freud passou a atender em sua clínica particular. Foi nessa época que Breuer se tornou ainda mais amigo de Freud e passou a ajudá-lo em suas difíceis circunstâncias financeiras enviando-lhe alguns pacientes. Em 1889, para tentar melhorar seu orçamento, Freud foi a Nancy para aprender as técnicas de sugestão hipnótica com Berheim e Liébault e, quando de lá voltou, ao discutir esses métodos com Breuer, Freud tomou conhecimento aprofundado do caso de Bertha Pappenheim (Anna O.), uma histérica que Breuer havia atendido entre 1880 e 1882. Freud descobriu que Breuer chegara a um novo método de tratamento. Ele levava Anna O. a uma hipnose profunda e a induzia a expressar em palavras a fantasia emotiva que a dominava naquele momento. Desse modo, ele descobriu que esses sintomas eram resíduos de situações emocionais vividas por Anna O. quando seu pai estava enfermo, de cama. Foi assim que Breuer verificou que, geralmente, “o sintoma não era resultado de uma única cena traumática, mas resultado de uma soma de grande número de situações semelhantes” (FREUD, 1924, p. 27).
Esse artifício foi utilizado por Breuer diversas vezes e, após longos e penosos esforços, ele conseguiu aliviar os sintomas de Anna O. Mas, o momento decisivo para a sua cura veio após um acesso de hidrofobia em que, durante a hipnose, Anna O.  resmungou sobre a senhora  inglesa que a acompanhava diariamente, descrevendo em tom de grande repugnância como, certa vez, ela vira o cãozinho dessa senhora bebendo num copo. Naquele momento, diante da cena, Anna O. não disse nada à senhora, pois quisera ser gentil. Mas, agora, sob hipnose, ela podia exteriorizar energicamente a cólera que havia contido, e só depois disso ela foi capaz de pedir para beber alguma coisa sem qualquer dificuldade e, então, Breuer a despertou da hipnose com o copo nos lábios (GAY, 1989). Depois desse episódio hipnótico em que Anna O. foi capaz de relatar seu sintôma, a perturbação dela desapareceu de uma vez por todas. E esse método foi chamado por Breuer e Freud de catarse (KUNG, 2006).
Em 1893, Freud convencera Breuer a publicar a primeira obra aprofundada sobre esse assunto sob o título de Studien über Hysterie [Estudos sobre Histeria], em que havia o caso de Anna O. somado a outros relatos de pacientes de Freud e de Breuer. Após a publicação, que apenas ocorreu dois anos depois, em 1895, essas idéias não foram bem aceitas pelo círculo vienense de médicos e Breuer viu sua reputação abalada, mas Freud continuou suas pesquisas descrevendo novos conceitos de processos psicológicos à nova teoria, abandonando termos e conceitos fisiológicos que anteriormente eram empregados em suas publicações neurofisiológicas. Essa mudança teórica ocasionou, conseqüentemente, o fim da longa amizade de vinte e cinco anos com Breuer, que discordava dos novos caminhos de Freud. (FREUD, 1924).
Apesar do término da amizade, Freud alega que o surgimento da psicanálise só foi possibilitado devido a sua convivência com Breuer e, diz também que, inicialmente, suas atribuições de novos conceitos psicológicos para o esboço da sua teoria partiram do aprofundamento dos estudos das idéias de G. T. Fechner, estudioso da Psicologia Experimental, que exerceu grande influência não só nele, mas também em seu mentor Ernst Brücke. O abandono de termos e conceitos fisiológicos aconteceu, pois Freud desenvolvia agora o dinamismo da psique humana, em que ele acreditava haver um jogo de forças, de início obscuro e inacessível ao conhecimento direto, por não possuir um plano preestabelecido, porém, esse jogo de forças, era capaz de gerar toda atividade psíquica (KUNG, 2006). E essa atividade psíquica obscura e dinâmica, Freud nomeou de inconsciente, que é constituído de conteúdos recalcados e que foram recusados ao acesso à consciência por representarem pulsões, ou seja, pressões ou forças que fazem o indivíduo tender a um objetivo para suprimir os estados de tensão (geralmente por meio de sonhos ou sintomas corporais). Para que esses conteúdos reprimidos sejam trazidos à consciência, deve haver uma ação conjunta entre o paciente e o terapeuta. Freud percebeu que nem a sugestão hipnótica e nem a catarse dariam conta de satisfazer essa ação conjunta e a única maneira de solucionar esse impasse era deixando que o paciente falasse tudo e realmente tudo que lhe passasse pela cabeça, mesmo que parecesse estranho, bizarro e sem sentido; a essa prática Freud deu o nome de associação livre. E, obviamente, essa associação livre também dependeria da relação positiva ou negativa do paciente para com o analista, ou seja, a transferência, ou do fenômeno inverso, a contratransferência (LAPLANCHE; PONTALLIS, 2005).
Freud, depois de compreender a dinâmica dos conteúdos oníricos, publicou a obra que, além de abranger as teorias de associação livre e a hipótese do inconsciente, é considerada por muitos como a obra inaugural da Psicanálise: A Interpretação dos Sonhos, datada de 1900. O próprio Freud, em Um Estudo Autobiográfico (1924), considerou A Interpretação dos Sonhos como a maior e mais importante contribuição da Psicanálise para o pensamento pós-moderno do século XX. Nela também está explicitada a hipótese do inconsciente, que, para Freud, é a via régia para a interpretação dos sonhos. Os sonhos, que embora pareçam incoerentes e estranhos, possuem sentidos quando investigados, pois “são realizações mascaradas de um desejo reprimido, que, portanto, necessita de interpretação” (KÜNG, 2006, p. 27).
Diz-se que essas realizações mascaradas são censuras tão reprimidas que durante o sono esse material aparece distorcido. Isso acontece devido à compensação das instâncias da psique, que Freud definiria mais tarde, como: o Id [Isso], que é o pólo primitivo da personalidade do indivíduo, e seu conteúdo é uma expressão pulsional que pode ser inconsciente e inata, ou mesmo o resultado de um recalcamento; o Ego [Eu], tido como o pólo defensivo e intermediador dos pólos Id e Superego à personalidade; o Superego [Supereu] atua como um sensor, uma consciência moral do ego, tanto à auto-observação como na formação de ideais; e é resultado do Complexo de Édipo (vivido entre os 2 e 5 anos) que é caracterizado pela intensificação da dualidade amor e ódio sentidos pela criança em relação seus pais, sendo que o amor costuma comparecer, na maioria das situações, de forma cruzada, suscitando o ódio ao genitor do mesmo sexo, que seria então um rival a ser combatido e superado no caminho da consumação da relação incestuosa, com o genitor do sexo oposto (LAPLANCHE; PONTALIS, 2005).
Freud ressalta que não há como saber quanto tempo após o nascimento o Complexo de Édipo se desvela, mas afirma que o período entre dois e quatro anos são os mais importantes (FREUD, 1938). O Complexo de Édipo já era confidenciado por Freud a Fliess em suas correspondências, ainda quando realizava sua auto-análise:

Descobri, também em meu caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e ter ciúme de papai, e agora o considero um acontecimento universal do início da infância, mesmo que não ocorra tão cedo quanto nas crianças que se tornam histéricas (Carta Freud-Fliess de 15/10/1897 apud Masson, 1986, p. 273).

Mas então como a psicanálise lida com a religiosidade se tudo converge para e relação edípica e suas conseqüências neuróticas?
Na obra La psychanalyse et le religieux [A psicanálise e o religioso], de 2008, o autor Phillipe Julien ressalta que a religiosidade provém, “primeiro de uma incapacidade física de ajudar a si próprio e, portanto, de uma necessidade de ajuda” (p. 15). Uma das explicações de Freud é que a religiosidade é resultante da personificação daquilo que o indivíduo não compreendeu (que ele reprimiu), mas que ainda deseja compreender. E esse desejo pela compreensão pode ser buscado pelo indivíduo num conjunto de crenças, ritos, regras e especulações, que contém ou produz sua própria exegese e seu próprio sistema de justificações, ou seja: a religião (MALAMOUD, 1996).

REFERÊNCIAS
FARIA, A. L. O materialismo na psicologia e na psicanálise. In: WONDRACEK, K.H.K. (Org.) O Futuro e a Ilusão: Um embate com Freud sobre Psicanálise e Religião. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 94-110.

FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia, uma (nova) introdução; uma visão histórica da psicologia como ciência. 2ª ed. São Paulo: EDUC, 2006.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos [1900]. Trad. J. Salomão. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. IV.

FREUD, S. Um estudo autobiográfico [1924]. Trad. J. Salomão In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. XX.

FREUD, S. Moisés e o monoteísmo [1938]. Trad. J. Salomão. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. XXIII.

GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. 15ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

GAY, P. Um Judeu sem Deus: Freud, Ateísmo e a Construção da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

JULIEN, P. A psicanálise e o religioso: Freud, Jung, Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

KUNG, H. Freud e a questão da religião. Campinas: Versus Editora, 2006.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.B. Vocabulário da Psicanálise. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

MALAMOUD, C. Psicanálise & Ciência das Religiões. In: KAUFMANN, P. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. p. 584-593.

MASSON, J. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess, 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

RIZZUTO, A. M. Por que Freud rejeitou Deus? Uma interpretação psicodinâmica. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

WONDRACEK, K. H. K. Freud, Pfister e suas ilusões – Que ciência? Que religião? In: ______. O Futuro e a Ilusão: Um embate com Freud sobre Psicanálise e Religião. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. p. 167-200.

4 comentários:

  1. Só comentando que gostei da mudança do blog, ficou lindo. Agora me dá licença que vou ler seus dois últimos post, que preciso de tempo e atenção pra ler tudo.

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    1. - obrigado pelo elogio do layout.
      Espero que goste dos novos posts.

      Até mais, Ana!

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  2. Só por curiosidade, Luís, porque eu não procurei ler a sua bio ainda: qual a sua profissão?
    Te vejo um excelente professor. Beijos!

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    1. - olá, Thaís.
      Eu sou psicólogo.

      E muito obrigado pelo elogio... um dia eu pretendo dar aula, rs.

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