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domingo, 9 de dezembro de 2012

Freud, Psicanálise & Religião: A Evolução da Religião na Psicanálise [Parte I]



CAPITULO DOIS – A EVOLUÇÃO DA RELIGIÃO NA PSICANÁLISE


2.1 OS RITUAIS RELIGIOSOS E A NEUROSE OBSESSIVA

A primeira obra de Freud publicada a tratar de religião foi Atos obsessivos e práticas religiosas, de 1907. Neste pequeno artigo, estão evidentes duas linhas de seu pensamento que sempre se complementariam dali em diante: a neurose e sua relação com a religião. Para embasar e reforçar a sua suspeita, Freud procura mostrar as semelhanças entre os cerimoniais religiosos e os atos obsessivos; ele diz que

Os cerimoniais neuróticos consistem em pequenas alterações em certos atos cotidianos, em pequenos acréscimos, restrições ou arranjos que devem ser realizados numa mesma ordem ou com variações regulares. Estas atividades, meras formalidades na aparência, afiguram-se destituídas de qualquer sentido. O próprio paciente não as julga diversamente, mas é incapaz de renunciar a elas, pois a qualquer afastamento do cerimonial manifesta-se uma intolerável ansiedade, que o obriga a retificar sua omissão (FREUD, 1907, p. 109).

É evidente, na citação de Freud, que as semelhanças dos cerimoniais neuróticos e os rituais religiosos são bastante evidenciados pelo caráter rítimico e cheio de repetições, nas quais qualquer negligência acarreta uma completa exclusão de todos os outros atos (ou seja, não pode haver interrupções) e também na extrema consciência de que, tanto os cerimoniais neuróticos como os rituais religiosos, devem ser executados em todas as minúcias. Mas, assim como há semelhanças, há também diferenças que podem ser facilmente identificadas, como

[...] a grande diversidade individual dos atos cerimoniais (neuróticos) em oposição ao caráter estereotipado dos rituais (as orações, o curvar-se etc.), o caráter privado do primeiro em oposição ao caráter público e comunitário das práticas religiosas, e acima de tudo o fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são significativas e possuem um sentido simbólico, as dos neuróticos parecem tolas e absurdas (...) o que está sendo representado em atos obsessivos e em cerimoniais deriva das experiências mais íntimas do paciente, principalmente das sexuais (FREUD, 1907, p. 110-111).

Vale ressaltar que os cerimoniais neuróticos são inicialmente solitários e, embora aparentem não ter sentido algum, necessitam de interpretação, pois há um mecanismo de defesa que age inconscientemente substituindo elementos reais por elementos triviais e “é essa tendência (chamada de deslocamento) que modifica progressivamente o quadro clínico, terminando por transformar um fato extremamente banal em algo de maior urgência e importância” (FREUD, 1907, p. 116). Embora considerados de urgência e de extrema importância, esses atos se manifestam numa intolerável ansiedade que obriga o indivíduo a retificar a omissão ou a lacuna que deixou pelo afastamento e, assim, o indivíduo que sofre dessa compulsão acaba se comportando como se estivesse dominado por um sentimento de culpa que é incapaz de dominar, ou seja, um sentimento inconsciente de culpa. (BASTOS, 2007).
Phillipe Julien (2008) propõe que, antes do indivíduo experimentar o sentimento de culpa, é necessário que se sofra experiências de desamparo, de ausência de ajuda, de carência de recursos, de derrelição ou de abandono ainda nos primeiros anos de vida e que, depois, ocorrerá a saudade do passado – e no que diz respeito à religião – “saudade daquele a quem se atribui a onipotência, ou seja, o Pai com maiúscula, o Pai divino” (p. 15). E essa saudade do passado é que remete ao sentimento de culpa, e que, inclusive, pode ser visto mais explicitamente nos rituais religiosos quando, por exemplo, o devoto tenta resistir a uma tentação, gerando o que Freud chama de “ansiedade expectante”,que nada mais é do que a expectativa quanto ao controle da situação futura que, se realizada, resultará na culpa que desencadeará diversos outros rituais que justifiquem o “pecado” cometido (BASTOS, 2007). Amaro (1996) coloca que

Toda religião está fundada principalmente sobre a idéia de pecado, ou seja, sentimento de culpa que o indivíduo experimenta por não ter podido cumprir as normas religiosas prescritas. Sem a concepção do pecado e, conseqüentemente, sem o sentimento de culpa, a religião perderia seu sentido (p. 273).

O fato é que, enquanto o indivíduo estiver ligado a determinadas experiências sexuais infantis, que de alguma forma gere prazeres inaceitáveis pela sua consciência “amadurecida”, se comportará como se estivesse dominado por esse sentimento de culpa descrito por Freud, embora desconheça o motivo verdadeiro. A influência da culpa poderá gerar medo e angústia, pois a repressão apenas obterá sucesso parcial: o material parecerá sempre pronto a emergir, o que será vivido como uma grande ameaça, ou seja, a possível emersão um impulso instintivo – e que na religião é conhecido como tentação (FRANCO, 2003).
Os atos cerimoniais e os rituais religiosos funcionam como uma defesa a essas ameaças ou tentações e, assim, os religiosos poderão protestar em favor próprio dizendo ser ‘pobres pecadores’ e que apenas se valem das orações, dos rituais e das invocações como medidas de proteção contra suas próprias tentações; e, como ressalta Rizzuto (2001): “A religião também se baseia ‘na supressão, na renúncia a certos impulsos instintivos’ – em particular competições sexuais e agressão sexual.” (p. 159).
Os atos obsessivos, além de gerarem essa ansiedade expectante, se ligam aos processos psíquicos precoces que parecem não ter sentido, mas são reavivados a cada ocasião sob a influência da pulsão reprimida, a fim de se compreender os conflitos inconscientes. Dessa forma, pode-se dizer que, tanto os atos obsessivos como os cerimoniais religiosos funcionam como defesas contra a tentação e, também como proteção contra o mal esperado (ansiedade expectante). E, caso não haja o entendimento psíquico dos cerimoniais neuróticos ou dos rituais religiosos, eles podem se tornar a solução do conflito inconsciente entre o desejo e a repressão do desejo, despontando assim o sintoma de permanente angústia ritualística do neurótico obsessivo (FRANCO, 2003). Pode-se citar como exemplo de angústia do ato obsessivo aqueles indivíduos que, temendo a exposição a bactérias, necessitam higienizar suas mãos sempre que apalpam qualquer superfície exterior à sua e, quando não o fazem podem se sentir angustiadamente contaminados; e a exemplo dos rituais religiosos, há aqueles que realizam todos os dias orações pontuais e, quando por algum inconveniente não conseguem realizá-las, a culpa e a angústia assumem a forma do pecado. Essa angústia e culpa são compulsões internas, inconscientes (FREUD, 1907).
Na definição de Freud, a neurose obsessiva se exprime por sintomas compulsivos, ou seja, uma imposição interna (desejo) que, quando de algum modo não pode ser realizada, acarreta ao aumento da angústia através dos atos, cerimoniais ou rituais. Essa imposição interna pode ser desde um pensamento (como a ruminação mental, a dúvida, etc.), uma ação ou seqüência complexa de comportamentos (como os ritos conjuratórios e cerimoniais) ou uma operação defensiva (que pode conter tanto os pensamentos, ações ou a seqüência complexa de comportamentos) (LAPLANCHE; PONTALIS, 2005). E, tentando trazer à luz a psicogênese da religião, Freud reforçou suas hipóteses recorrendo aos autores do século XIX, como E. B. Tylor, J. G. Frazer e Wilhelm Wundt. Como coloca Freud (1933) em análise resumida a esses autores:

[...] a confiança na magia, conforme supomos, derivou da supervalorização de suas operações intelectuais, de sua crença na ‘onipotência dos pensamentos’ que, aliás, encontramos revivida em nossos pacientes neuróticos obsessivos. Podemos supor que os seres humanos, naquela época, orgulhavam-se particularmente de suas aquisições em termos de linguagem, que devem ter sido acompanhadas de grande facilitação do pensamento. Atribuíam poderes mágicos às palavras. Esse aspecto, mais tarde, foi assumido pela religião. ‘E Deus disse “Faça-se a luz!”, e a luz foi feita.’ (p. 201).”

Apesar de historicamente não ter sido comprovado o pressuposto evolucionista do desenvolvimento das religiões por meio do totemismo e do animismo – tão difundidos nas hipóteses freudianas –e mesmo sabendo que as religiões podem ter sido disseminadas de inúmeras outras formas, de maneira totalmente assistemática, Freud se baseou nos ideais de sua época traçando paralelos aos aspectos fundamentais do animismo que possibilitou a transição à religião mais primitiva, o totemismo (KUNG, 2006).
Não há dúvidas de que Freud estava do lado da ciência, pois, como ele mesmo coloca em seu Estudo Autobiográfico: “A doutrina de Darwin atraía-me fortemente, porque prometia um extraordinário impulso para a compreensão do mundo” (FREUD, 1924, p. 16).



REFERÊNCIAS


AMARO, J. W. F. Psicoterapia e Religião. São Paulo: Lemos Editorial, 1996.

BASTOS, E. A. M. Comentário aos textos “Atos obsessivos e práticas religiosas” (1907) e “Caráter e erotismo anal” (1908). Texto para discussão em aula do Curso em especialização em Psicanálise do CEP. São Paulo, 2007.

FRANCO, S. G. Os escritos religiosos de Freud – Uma introdução. In: WONDRACEK, K.H.K. (Org.) O Futuro e a Ilusão: Um embate com Freud sobre Psicanálise e Religião. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 59-72.

FREUD, S. Atos obsessivos e práticas religiosas [1907] Trad. J. Salomão. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. IX. p. 107-117.

FREUD, S. Um estudo autobiográfico [1924]. Trad. J. Salomão In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. XX.

FREUD, S. A questão de uma Weltanschauung: Conferência XXXV [1933]. Trad. J. Salomão. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. XXII.

JULIEN, P. A psicanálise e o religioso: Freud, Jung, Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.B. Vocabulário da Psicanálise. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

RIZZUTO, A. M. Por que Freud rejeitou Deus?Uma interpretação psicodinâmica. São Paulo: Edições Loyola, 2001.