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quinta-feira, 2 de julho de 2015

- love in Toronto [coffee with solitude & songs]

para entender, é necessário ler o primeiro capítulo: 




In my defense, sustento que somos parte constante e indissociada do todo. Tudo o que vemos e sentimos está registrado em nossa mente. Não na mente enquanto cérebro ou enquanto estrutura nervosa e material, mas naquela porção do abismo profundo chamada de inconsciente, de abismo dos desejos e das vontades e que, muitas vezes, indiretamente se disfarça de intuição e traz respostas às questões ditas extrínsecas por meio de vozes ou sinais intrínsecos.
- Vem. Vamos... – ela me puxou pelas mãos sem mais explicações.
Depois de cruzarmos o parque de longas árvores no harbourfront, ela me conduziu para um caminho paralelo à Le Avenue até chegarmos a uma rua que me pareciam os becos estreitos de Quebéc. Havia alguns pilares luminares envoltos por camadas espessas de folhas virentes. Nem parecia que entraríamos no outono. Havia também algumas casas e algumas groceries stores que, até então, me eram desconhecidas na cidade. Eu jamais havia passado por ali.
- Vamos parar por aqui... – era um pequeno café que estava aberto. – It is better than Second Cup, I swear.
Fizemos nosso pedido e nos sentamos perto das janelas de vidro.
- Descobri esse lugar há pouco tempo. É aqui que venho quando busco inspiração. When I wanna think what I am doing with my life... – tragou seu café, olhou para o velho alley que fora nosso caminho até ali e continuou: – Devo confessar que apesar de louco, foi bom encontrá-lo.
- Hey, listen... Por que você decidiu vir?
- É bastante difícil cruzarmos com alguém que queira falar sobre essas coisas que, para mim, fazem parte da vida. Desde que me mudei para cá, não tive mais a possibilidade de ter esse tipo de conversa com mais ninguém. I understand that people consider this kind of conversation boring or even heavy, you know.  Entendo também que muitas vezes achamos mais fácil deixar passar, como se houvesse outras oportunidades sórdidas para se discutir a respeito, mas acho que deixei essas questões de lado por muito tempo e tenho me sentido bastante vulnerável ultimamente.
- You speak as if you were not part of a body – respondi.
De volta, como resposta, tive o seu sorriso... and solely this.
Realmente me parecia que você não precisava dizer muito a respeito de si. Suas expressões da face, seus gestos, seus olhos encabulados e suas emoções confusas falavam por si mesma. Experimentar esses longos momentos de silêncio, era sinônimo de estar em seu íntimo, de conhecer sobre suas verdades e sua mais densa rotina. O maior enigma eram seus olhos entrecortados que tangiam os momentos dessa realidade a dois de uma forma dividida: entre seu âmago e nossa mesa de café.
- Well, I think we should get going... – disse você interrompendo nosso diálogo de silêncios.
Ao sair do café, olhei ao redor, mais uma vez, para guardar a lembrança daquele local desconhecido. Meu relógio registrava as últimas horas da madrugada.
- ... and where are we going now? – perguntei olhando os becos ao redor.
Sem responder, você segurou minha mão, apoiando seu rosto em meu ombro – como que buscando conforto e proteção. Enquanto andávamos, você olhava para o chão, para os seus passos tímidos e apressados. Deixei que comandasse nossa jornada, mesmo não sabendo nosso destino. Nosso diálogo com o silêncio ainda perdurou por algumas quadras, até que você estancou os passos de uma forma repentina. Senti apertar minha mão contra a sua. Seemed that you were seeking yourself in the deep of my eyes – abrindo a janela da minha alma. Seus olhos marejaram.
- I don’t know why, but my head is always concerning on to-be. Preocupada com essa busca interior e com esse desejo de compreender o que de fato sou. Por que não posso ser outra coisa que não isso?
As lágrimas desciam-na à face.
- Muito obrigado por ter vindo comigo até aqui... – disse-me enquanto procurava suas chaves. Na sua face enrubescida e marejante, a hesitação. Senti seus lábios receantes. Seus olhos escaparam dos meus e, por fim, um pedido embaraçado em pigarros: – Hey, look! There, on the other side of the street, is my apartment. Gostaria de subir? – perguntou-me tímida, olhando para as chaves.
Uma oportunidade de conhecer o seu íntimo. De continuar nosso diálogo sobre o que somos e significamos.
- Yes, that would be nice.
Você morava no sétimo andar, 78. Quando abriu a porta, o rádio estava ligado e tocava uma de minhas músicas favoritas.



- Quer mais café? – perguntou enquanto jogava suas chaves sobre a mesa.
- Sim. O meu acabou pouco antes de chegarmos perto da sua casa.
- OK. Vou fazer para nós dois.
A acompanhei até a cozinha, sentando em um dos bancos do countertop.
- Você mora sozinha?
- Sim. Meus pais permaneceram na Hungria.
- My gosh! Hungria?
- É, eles têm uma pequena fazenda de culturas no interior de Veszprém. Eu vivi lá até meus 20 anos. Também os ajudava com a criação de culturas e sempre ia para a velha downtown vender os frutos de nossa colheita em nossos conhecidos farmer’s market. Depois, meus pais decidiram me enviar para cá para estudar. Fazer o College e a University... you know, same shit as a lot of people that comes from abroad.
- E você já alcançou seus objetivos?
- Bem, terminei o College, na OCAD. Graduei em Contemporary Arts, no ano passado e, este ano, me dei férias. Inclusive, aqueles maricas do palco são meus amigos de lá.
Ri.
- E você? – ela perguntou enquanto terminava de calcular a medida de café para nós – o que faz aqui em Toronto? Também não me parece ser um torontonian.
- Não, eu não sou. Estou aqui desde o ano passado. Vim numa viagem a negócios. Mas desisti de tudo quando conheci Toronto.
- Really? E o que você fazia?
- Trabalhava com executive search. E vim para cá procurar alguns executivos do centro financeiro de Toronto e convencê-los a ir comigo para as regiões de São Paulo, no Brasil. Mas depois de conhecer os pubs, The Islands, Bloor e Younge, e também os centros culturais dos bairros de Toronto, decidi desistir de tudo e ficar por aqui.
- Wow... você realmente é bem louco, sabia?! E está vivendo do que agora?
- De arte. Misteriosamente, a galera do Kensington Market adora minhas telas e, assim, mensalmente, distribuo minhas produções no Wanda’s Pie in the Sky e eles se encarregam de vendê-las. Além disso, os pubs pagam uma grana legal por noite. Não ganho como se fosse um Senior Recruiter da empresa em que trabalhava, but I confess, I am happy!
- So you are also an artist, hun?
- É... eu não estudei como você, o que me torna um amador de sorte!
- I would like to see your canvas. Confesso que fiquei curiosa.
- Um dia podemos dar um pulo em Kensington para que você possa dar uma olhada nos trabalhos que estão expostos. Be glad in showing you all of them.
- Você não se arrepende de ter feito essa loucura?
- Bem, somente me arrependo de ter desistido do trabalho sem concluir o processo de executive search que me foi proposto quando cheguei aqui. Os meus co-workers ficaram muito putos comigo e ameaçaram me processar pelo fato de eu ter dado prejuízo a eles. Numa tentativa de me redimir, devolvi o dinheiro que investiram em passagens e em custos de hotéis, mas isso não ajudou a melhorar a imagem deles com os clientes dos bancos internacionais alocados no Brasil e que ficaram de mãos vazias. Anyway, foram dois meses de negociação, mas no fim eles me entenderam e aceitaram a grana que ofereci devolver.
- Aqui, seu café.  Vamos para a sala, lá podemos continuar nossa conversa mais à vontade.
Enquanto íamos em direção à sala, pude ver a enorme quantidade de retratos e de montagens em alguns dos corredores. Possivelmente, seus trabalhos.
Você se sentou no sofá, suspirou profundamente olhando para a sua caneca de café. Trazia um sorriso triste no canto dos lábios. Parecia se tratar daquelas memórias que insistem em saltar à retina nos momentos em que nos sentimos mais introspectivos. Tentando se distrair, olhou através da bay window, e lá a noite vestia-se dos primeiros raios de sol.
- This dawn... – escutei-a resmungar baixinho e, depois, emitir outro suspiro triste.
- Hey – interrompi o seu momento – você tem um violão?
Você balançou a cabeça de forma afirmativa e foi em direção ao seu quarto. Não demorou muito até que me trouxesse um velho Taylor com cordas de nylon. Me sentei em seu tapete para afiná-lo e você me assistiu enquanto continuava na minha tentativa de decodificar suas memórias.
- Desde o momento que nos beijamos pela primeira vez, no harbourfront, estava com vontade de tocar uma música. Mas, somente agora, enquanto você olhava pela bay wondow, é que me dei conta o quanto você verdadeiramente a representa. E, independentemente do que ocorra, provavelmente, esta canção me fará lembrar você depois que eu for embora daqui.
- E qual seria essa canção?
- Well… hope you like it!
A última coisa que registrei antes de iniciar a velha canção foi você descansar sua cabeça em seu braço e me observar de forma contemplativa, esperando o que estaria por vir. Cerrei meus olhos e iniciei com os acordes.



Time has told me
You're a rare rare find
A troubled cure
For a troubled mind.
And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore.
So I`ll leave the ways that are making me be
What I really don't want to be
Leave the ways that are making me love
What I really don't want to love.
Time has told me
You came with the dawn
A soul with no footprints
A rose with no thorn.
Your tears, they tell me
There's really no way
Of ending your troubles
With things you can say.
And time will tell you
To stay by my side
To keep on trying
'til there's no more to hide.
So leave the ways that are making you be
What you really don't want to be
Leave the ways that are making you love
What you really don't want to love.
Time has told me
You're a rare rare find
A troubled cure
For a troubled mind.
And time has told me
Not to ask for more
For some day our ocean
Will find its shore.
Logo que terminei a canção, permaneci por algum momento com meus olhos fechados. Era como se eu saísse de um transe, de um presságio. Parecia-me que o lampejo da melodia se desprendera em significados reais para você. E logo essa impressão se confirmou no som de seu choro, e quando abri meus olhos, no volume de suas lágrimas.
Abandonei o violão e me sentei ao seu lado, envolvendo-a em meus braços.
- I don’t know why I feel so sad and nostalgic. Tenho a impressão de que esse mundo só existe para devorar. Não caibo em mim. Nessa minha tristeza. Consumo-me de dentro pra fora... como se me destruísse. Sinto que carrego um fardo. Uma carga. I am so afraid of dying that, paradoxically, I die gradually, bit by bit, in everyday’s ruin.
Você então me abraçou forte. Suas lágrimas também me abraçaram.
Permanecemos ali, quietos por longo tempo. Tempo suficiente para que o sol ganhasse livremente o espaço do céu. No seu relógio, oito horas da manhã.
- Ei! Que tal arranjarmos alguma coisa para o café da manhã? – você não respondeu. Me desfiz lentamente do nosso abraço e percebi que havia dormido.
- Vamos, vou levá-la para sua cama; – cochichei em seu ouvido – hold on me. De olhos fechados você balançou a cabeça e me abraçou. Carreguei-a até o quarto e cuidadosamente descansei seu corpo na cama. Procurei algo para aquecê-la. Me esforcei para cobri-la de forma que se sentisse confortável e, de alguma forma, protegida.
- Por favor, deite-se comigo – bocejou.
Ensimesmado, concordei.
- OK, I’ll stay.
Permaneci estático, olhando para o seu quarto ainda procurando compreender aquilo tudo. Me sentei na beirada da cama, tirei meus sapatos e esfreguei os olhos.
- Come on, please... hug me.
Quando olhei para trás, vi suas mãos estendidas em minha direção. Você estava com os olhos semicerrados. Dei as minhas mãos a você e a abracei.
- Muito obrigado – você sussurrou – muito obrigado pela canção do Nick Drake. Thanks for showing me the way.
De olhos fechados, sorri.
Logo o silêncio tomou conta do ambiente. Senti o seu perfume. Tão similar ao seu humor melancólico. Enquanto me inebriava desse aroma nostálgico, recordei do que havíamos passado naquela noite. Your words... o que pode fazê-la se sentir tão triste? Seria realmente o medo da morte?

[to be continued...]

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