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quarta-feira, 15 de julho de 2015

- love in Toronto [on mute]

para entender, é necessário ler o primeiro e o segundo capítulos: 


Verdade que a morte tem uma característica enigmática, que nos exorta ao significado da essência. Para mim nascer e morrer têm o mesmo peso e a mesma face. É como o Sol que presenciamos nascer nesta manhã. Ao aparecer deste lado, recolhendo inteiramente sua luz do leste, deixando os orientais na penumbra do existir, não significa que o Sol morrera, mas sim que concluíra um ciclo para iniciar outro. Nascer. Renascer. De forma original e única, sem, no entanto, deixar de ser o que se foi. O Sol, mesmo sendo um, aparenta ter uma vida dupla e dissociada de si mesmo. Tudo depende da perspectiva dos ocidentais e dos orientais. É o velho movimento que chamamos de cíclico. O ciclo da eternidade. É... paradoxalmente, a eternidade é um ciclo.
Talvez esse ciclo dependa da construção e da desconstrução que fazemos de nós mesmos e da nossa posição no mundo, no eixo de nossas próprias vidas. Think of you, for instance, laying down by my side, e vejo o quanto tem acumulado dentro de si questões sobre ser e existir. Questões que invariavelmente a amedrontam porque você não consegue preencher o espaço que existe em seu coração somente com o raciocínio maquinal, cerebral. E quando pensa sobre a vida, atribui a ela significados biológicos e químicos que pouco se conectam com o que você verdadeiramente é. Me espanta a perspectiva de sermos iguais biológica e quimicamente, mas mesmo assim manifestarmo-nos psicológica e anatomicamente com atributos diferentes um do outro. Ora, isto já me é suficiente para assumir uma postura cética em relação a razão e abandonar a ideia de que Deus joga dados.
Na concepção da figura de um Deus, não cabe a perspectiva de um senhor barbudo, pseudo-humano, que conjectura o desenho da vida no tear do tempo e do espaço com os fios de sua barba grisalha e longeva. Não cabe a concepção de um ser que mede a vida na ampulheta que montou com os grãos de areia do Universo e que – dizem – insinua-se através de pequenos milagres para aqueles que acreditam. De novo, acreditar significa confiar pela razão. Não há nada que precise ser acreditado nessa vida. A vida é, simplesmente. E minha convicção acerca de ser aumenta quando percebo que temos a tendência de transmutar nossas respostas, nossos conceitos de verdade e de realidade, alegando que toda resposta é, de certa forma temporária, pois amadurecemos. Verdade. Em partes. Mas há verdade. Acho que compreendo a temporariedade das coisas, sobretudo quando observo o ciclo da eternidade agindo sobre mim. Sobre o tempo. Sobre o espaço. Sei que pode soar loucamente cômico dizer que o espaço e o tempo são temporários. Mas ao pensar a respeito do tempo e do espaço, influo que ambos são sentimentos que temos em relação à percepção da vida quando inseridos no ciclo da eternidade.
- Life am... – balbuciei, rindo de minha conclusão solitária.
- That is possibly what it all means. Amness... – você respondeu. E em seguida, girou o corpo para o meu lado. Estávamos face a face. Você me olhava, ao que parecia, minuciosamente, detendo-se as expressões dos meus olhos, da minha boca e do meu nariz.  Eu podia sentir sua respiração profunda enquanto a fitava deitada sobre seus braços.
Prometi a mim mesmo que gravaria aquele momento até o final da vida. E por isso, permaneci ali, recostado ao travesseiro dos meus braços, compenetrado à oração de contemplar sua palidez melancólica, seus lábios carmim e seus cabelos cor de sépia.
- … Like an awakening, in the morning, em que nunca sabemos, exatamente, quando terminamos um sonho e começamos com a realidade – concluiu.
Hipnotizado pelo oceano de seus olhos, deixei-me conduzir para dentro de suas memórias naufragas, assim pude compreender um pouco de sua melancolia. Os dias solitários que se disfarçaram de companheiros, e sempre traziam consigo a companhia do vazio. Por vezes, assim como hoje, me pareceu que a busca pelo sono era sempre um refúgio para amainar a presença da constante solidão. Pareceu-me também que minha presença ali era mero refúgio teu. Entretanto, não poderia ser somente esta a impressão, uma vez que refugiar-se no outro é também se encontrar, mesmo que não aceite inteiramente o que se vê. E toda esta reflexão sobre você – e como o observador do que temos passado até aqui – me faz lembrar dos dilemas que persistem em mim e que talvez sejam semelhantes. Daquilo tudo que questiono e que me intriga sobre ser e existir.
- Ei! Você podia me levar para ver algumas de suas telas no Kensington Market. Queria ver a sua arte.
- Do you wanna do it now? Acho que seria legal se fôssemos agora de manhã. Kensington é sempre mais tranquila a essa hora do dia. Além disso – acrescentei, apoiando-me sobre meus cotovelos, ainda deitado – estou mesmo precisando saber se o pessoal do Wanda’s vendeu algum de meus trabalhos essa semana... além de precisar comprar uma hoddie.
- E você vai comprar sua hoodie em Kensington? OK… that I really wanna see!
- Hey... Qual o problema? – respondi acompanhando-a no riso – eles têm hoodies sensacionais na Exile. Desde quando cheguei aqui, minhas roupas sempre vieram de lá.
- I just wanna see it, OK!? Muito embora você não se vista como os rastafáris de Eglington eu ainda quero ver o local em que você compra suas roupas.
Novamente você riu.
Vê-la rindo depois dos momentos da longa madrugada me fez pensar que valera a pena. Não era possível imaginar quanto tempo duraria seu bom humor, por isso, eu estava disposto a ajuda-la registrar alguns momentos alegres, mesmo que por um dos cinquenta e dois fins de semana do ano.
- C’mon! Let’s go, rastaboy! – gritou você me tragando de volta para a realidade.
Descemos as escadas do prédio escutando o ruído sufocado das portas corta fogo que se fechavam às nossas costas, intercalado ao seu solo vocal de uma música que eu desconhecia.
- O que você está cantando?
- About Today.
Dei de ombros.
- Here, pegue meu fone. Escute isso.
Ela então reiniciou a música e nos sentamos na escada do quarto andar para escutar a música.



Today you were far away
And I didn't ask you why
What could I say, I was far away

You just walked away
And I just watched you
What could I say

How close am I to losing you

Tonight you just close your eyes
And I just watch you
Slip away

How close am I to losing you

- Hey, are you awake
- Yeah I'm right here
- Well can I ask you about today

How close am I to losing you
How close am I to losing

Quando a música acabou, tive vontade de dizer “You are not losing me, darling”, mas não havia coragem dentro de mim. E tudo que pude fazer foi observá-la, longamente, e notar a palidez de sua pele, seu sorriso triste e seu olhar distante e perdido.
- Quando estou com você... tenho a impressão de que as paredes contam histórias, de que elas mostram cenas... Gostaria de ser capaz de escutar essas histórias, de assistir a essas cenas.
- You would not like it, honey – desabafou levantando-se – We should get going
Levantamos em silêncio e embarcamos no streetcar para Kensington.
Honestly, uma das coisas que mais gosto em Toronto são os streetcars. Me sinto como se estivesse num retrato vivo da década de 30. Exceto quando passo por China Town. Ali não tem como eu me sentir no passado. China Town é diferente. O cheiro é diferente. As pessoas são diferentes – não porque são chinesas – mas em humor e em atitude. Além do eterno aspecto junkie. São Paulo is also like that! That’s why I love Sampa!
- Hey, vamos descer na próxima parada, OK?
Lá fora, o dia estava lindo. O sol de setembro é sempre mais ameno, no entanto o mais agradável. Nessa época não há muitas pessoas na rua. O verão está perto do fim. As crianças, de volta à escola. Os turistas retornam para casa, para fugir do inverno de Toronto.
Descemos na parada ao final de China Town e entramos em Kensington.
- Adoro aquela parede com a pintura da Mona Lisa. Parece que o Leonardo Da Vinci a adaptou para a atualidade. Hope they keep it for years.
- Verdade. Essa reprodução é demais! – emendei – Assim como o carro de plantas, em frente ao Wanda’s. Gostaria de saber como aqueles caras mantêm aquele carro.
- Simples – you added – o pub em frente, they support it!
- Eu não sabia disso – conclui enquanto entrávamos na Exile.
Confesso que não conheci nenhuma thrift shop como essa. Nem mesmo no Brasil encontrava roupas tão interessantes e duráveis. E olha que eu vivia em brechós.
- Você sempre compra suas roupas em thrift shops?
- Sim. Eu prefiro. Não pela diferença de preço – até porque, atualmente, os geeks, hispters e os turistas fizeram com que tudo isso se tornasse um mercado cult – mas sim pela qualidade. Veja – argumentei apontando para um jeans da Levi's fabricado em 1998 – já deve ter sido lavado pra caramba e mesmo assim it is brand new! It will take decades to discolor. E o melhor de tudo: my size!
- Seems fair enough. Take it!
E você? – perguntei enquanto separava o old-new jeans da Levi's – não me parece que compra suas roupas na Forever21?
- No! Not at all! – sorriu enquanto observava os hangers com vestidos listrados - A maioria das minhas roupas eu mesma faço ou as compro na Orfus Road. Cheap. Durable. That is enough for me.
- Não conheço Orfus Road.
- Um dia, eu o levo até lá! Not a long walk from Lawrence West station.
- Ok. Ficarei feliz de ir com você.
Detive-me por alguns segundos, olhando-a e imaginando o dia em que poderia sair com ela – não necessariamente às compras – mas como her boyfriend.
- E a hoodie? Não vai mais levar? - disse virando-se para mim, quebrando minha hipnose.
- Oh, hun... Claro que sim – por alguns segundos, nem mesmo me recordava em que corredor estavam as hoddies – Mas não demorarei muito. Quero algo simples.
- OK! So, do you mind, se eu continuar olhando mais algumas coisas?
- Não, de forma alguma, take your time!
- Sozinho, enquanto adentrava o corredor das blusas, pensei aonde poderia levá-la a fim de se distrair de seu humor renascentista. Nada me ocorria. Busquei dezenas de cenários, mas sempre que imaginava você como parte do enredo naturalmente a atmosfera se transformava em buscolismo e aflição. Foi quando me ocorreu que poderíamos visitar a CN Tower, perto do horário em que eles fecham a bilheteria. Assim poderíamos apreciar o pôr-do-sol do monumento histórico mais alto de Toronto. Beatufiul. Romantic.
Extasiado pela idéia, corri para contá-la, mas não a encontrei na seção feminina. Procurei-a na seção dos jeans, mas também não a vi por lá. Preocupado, fui até a clerk.
- Hey, please, did you see the girl that was with me? Did she get anywhere around?
- No, man, I am sorry.
Fuck! Decidi esperar alguns minutos na esperança dela ter saído apenas para buscar um rápido café... mas não... ela não retornou. Corri pelos becos de Kensington: procurei em cafés, pubs, galerias... mas nenhum sinal dela.
- Maybe she’s at Wanda’s – disse a mim mesmo. De fato, ela poderia ter ido para lá no intuito de me surpeender ao vê-la admirando minhas telas. Corri o mais rápido que pude, na confiança desta verdade. Ao abrir a porta, não vi você e não vi minhas telas.
- Hey... Was looking for you!
Era a manager, para minha frustração.
- Your canvas were incredibly sold this week. Permaneci em silêncio, desapontado por não encontrá-la por ali.
- Is there anything wrong? – a manager perguntou embaraçada – you do not seem very happy, even after I had just announced that we sold your five works that was hanging here?
Sorry… – disse, enquanto me recompunha da confusão – that is nothing about the sale, I am really sorry! O fato é que eu estava aturdido, não sabia o que podia fazer para encontrá-la. E não estava a fim de escutar nada sobre vendas naquele momento.
- Hey... Did you see any brunette girl, dressed in black, rather pale and pretty good-looking?
- Nope. Why? Is there anything I can help you out?
Rendido pela desesperança de reencontrá-la nos allies de Kensington, fiz o caminho de volta para a rua do apartamento. Perguntei para algumas pessoas do prédio se haviam visto você, mas nenhuma delas parecia, de fato, conhecê-la. “Don’t know anyone like that”, diziam.
No caminho pela Le Avenue, voltei aos becos na tentativa de procurá-la no local em que tomamos café e falamos sobre a vida. Nada. Estranhamente, não reconheci nem mesmo o cenário antique de Quebéc rodeados por seus pilares luminares e suas folhas virentes. Era como se tudo tivesse se exaurido, resultado de uma miragem, de um sonho. Desolado e triste, prossegui com meus passos peregrinos para o harbourfront e me sentei no mesmo banco em que você me supreendera na noite anterior. Esperei, uma vez mais... e de novo, nada aconteceu. As ondas quebravam, lentas e sobressalentes, como se quisessem derramar para fora das margens do harbourfront. Naquela cena anacoreta, deixe-me violar pelos sentimentos profundos... Meus olhos marejaram. Senti o meu peito doer.
Dentro de mim... a ausência de você.
- OK... last try, I swear! – confessei enquanto caminhava em direção ao pub em que nos encontramos pela primeira vez. Ansioso e ofegante a cada passada que diminuia a distância do pub. Ao alcançar a porta, olhei em volta. Seus amigos estavam lá... mas não você. Decidi ir até eles... talvez tivessem alguma pista sobre onde estaria, enfim.
- Guys... preciso falar com a amiga de vocês? Onde ela está?
Desconfiados, negaciaram com a cabeça...
What the fuck you are talking about, man?
- Preciso falar com a amiga de vocês...
- There is no friend of ours! – me interrompeu alterando a voz.
- Vocês estão loucos? Eu sai daqui, ontem, com a amiga de vocês. Onde ela está? – gritei.
- Man, please... Listen! You are messed up! The girl you are referring to… She was your girlfriend, remember? She commited suicide two years ago, right after you came from that trip from Sao Paulo. I am sorry man… but there is no girl from yesterday. she is gone.
Flashes passaram pela minha mente cansada. Você...
- Please, forgive yourself… that is not your fault… – disseram, na tentativa de me consolar – the manager from Wanda’s told us that you had freaked out again. Come on, let us go. We are going to take you back to your spot.
Enquanto era levado para minha casa, tentaram me explicar aquilo que eu ainda não compreendia, mas que deveria saber; disseram-me, inclusive, que esta não fora a primeira vez que o surto os preocupava. Numa das últimas vezes, me encontraram na CN Tower, admiriando o por-do-sol, numa conversa solitária com as janelas.
... recobrar minha consciência desse grande desatino. De você... Desse paradoxo que me faz sentí-la, vê-la e até mesmo discutir com você sobre a vida, sobre nós.
- Do you have the keys?
A porta do 78 se abriu. O silêncio irrompeu em meus ouvidos. Mais uma vez, as lembranças de você. De nós dois. Suas colagens na parede, de momentos nossos, ainda quando nos conhecemos na OCAD – e pensar que por sua causa, mudei de Business Administration para Fine Arts.
- Hey, man. Do you want us to stay with you for a while?
- No, I am fine – repliquei monótono.
Passeei pelos cômodos revérberos de sua voz. Sabe... me é difícil acreditar que este apartamento é meu – e que um dia foi nosso.
- Look, man… we will replace you tonight at the pub, OK? So you use our shift to play tomorrow, agreed?
Assenti com a cabeça.
- Take care, man… - disseram enquanto saiam pela porta – see you around.
Até onde me recobro dessas memórias insólitas, essa não foi a primeira vez que surtei dessa forma. Já havia sido “resgatado” outras vezes nas esquinas de Dundas, em frente ao ROM, nas Ferries de Toronto Islands ou no Tim Hortons de Spadina.
- Fuck... Can’t live like that.
Esfreguei as mãos no rosto. Fitei o teto branco, buscando respostas, buscando você... em mim. Chorei as nossas lembranças. Lembrei-me do dia em que partiu. Quando encontrei seu bilhete triste e ainda úmido com suas lágrimas da escrita sôfrega, dúbia e que, às vezes, parecia relutante em aceitar a decisão da morte. Morte por escolha. Fraqueza ou coragem?
No fim... um “EU TE AMO” em letras garrafais e desproporcionais ao sua confissão de amor verdadeiro.
Você morreu.
Amor verdadeiro?
Percebo que esses delírios representam a culpa – sem reparação – que sinto por não aceitar o fato de você se lançar num voo solitário daqui do sétimo andar.
- Chega! I had enough!
Me levantei e sai. Bati a porta atrás de mim no triste intuito de calar a voz revérbera de seus risos, que ainda ecoam na sala, no quarto, na cozinha e no banheiro do apartmento 78, do sétimo andar.
Rumo ao pub. Não podia deixar os caras tocarem por mim. Eles não tinham culpa. A responsabilidade de seguir a vida é minha. E somente minha! No caminho, resisti aos locais que ainda traziam a memória de você. Mesmo assim, os odores e as cores ainda me traziam sua lembrança. Sua vivida lembrança. Resisti.
Quando cheguei ao pub, os caras ainda terminavam de regular e afinar os instrumentos.
- Don’t worry, guys. I can manage it! – sussurrei com os olhos marejados.
- Are you, sure? – assenti com a cabeça, sem dizer nada mais, para engolir a maré de meus olhos.
Eles então me deixaram no palco, em mais uma oportunidade tenra de me redimir perante eu mesmo.
Me sentei no mesmo banco das noites antigas. Cerrei meus olhos e, sem nem mesmo cumprimentar as pessoas da casa, prossegui:
- Well, tonight, my set list will be short. Will just need thirty minutes.
Os acordes soaram tristes, minha voz pesada e de pouca reverberação iniciaram a canção:

“We chase misprinted lies...”

E... bem... quando abri meus olhos, lá estava você, acompanhando as minhas covers com seus lábios on mute.


Seria demais chamá-la para sair comigo?

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