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domingo, 19 de julho de 2015

- o Sonho de Kaori [parte I]

Kaori fechou os olhos e suspirou profundamente. Permaneceu assim por algum tempo, imaginando que estava em um lugar calmo e com um grande rio de correntes e vértices infinitos. Era tudo muito fresco e tranquilo. Com ela estava Rocco, seu cãozinho de estimação. Ao redor do rio havia muitas árvores e, algumas delas, eram curiosamente folheadas de rosa, de troncos escuros e robustos. Kaori as observou por bastante tempo e percebeu que delas nasciam, quase que instantaneamente, frutos de diversas formas e cores.
- Que lugar bonito, Rocco.
Kaori se aproximou das árvores e pegou um dos frutos disformes e excêntricos.
- Será que é bom? - cheirou e esfregou uma das frutas em seu pulôver vermelho, para lustrá-la. Em seguida, fechou os olhos e o mordeu vagarosamente. Mastigou, mastigou, mastigou e de sua face nasceu uma expressão de surpresa.
- Uau! Que bom, Rocco! Você deveria experimentar! – Então Kaori encostou o fruto no focinho de Rocco. Ele o cheirou e se afastou, desinteressado.
- Ah, esqueci que você gosta de carne e ração, não é? Tudo bem. Deve ter uma árvore de algo que se pareça com essas coisas em algum lugar por aqui. Vamos procurar.
Kaori e Rocco andaram observando as árvores todas que estavam em volta do rio, mas elas davam apenas frutos coloridos e poliformicos. Kaori ficou um pouco preocupada porque Rocco poderia estar com fome e lá não teria nada para ele comer.
Ela se sentou para pensar.
- Como vou encontrar comida para o Rocco? Aqui apenas tem essas árvores de frutos estranhamente deliciosos.
Kaori coçou a cabeça por algum momento, admirando a água do rio que corria até sumir no horizonte, formando uma miragem de gotículas, como nuvens de algodão tocando o solo cor de chocolate.
- Tive uma idéia! – Kaori se despiu rapidamente e correu para a beira do rio. Quando olhou para a água, notou que era totalmente límpida, transparente.
- Uau, olha que engraçado! Dá pra ver tudo através da água.
Kaori sutilmente colocou a mão na água e sentiu que temperatura estava perfeita. Nem quente, nem fria. Mergulhou seus pés vagarosamente e seu corpo crispou. Ela segurou a reação do riso cheio de dentes com suas mãos tímidas e, em seguida, mergulhou profundamente.
Kaori estava admirada, jamais havia visto uma água tão gostosa, tão limpa e tão transparente como aquela. Ela podia nadar de olhos abertos e também bebê-la, porque sabia que não lhe faria mal algum.
- Ei, Rocco, entra aqui, me ajude a pegar um peixe pra você!
Rocco apenas a observava, de longe, deitado na grama uniforme. Então Kaori iniciou a sua procura por um peixe bem grande para Rocco. E, num de seus mergulhos, ela percebeu algo muito, mas muito estranho: ao invés de simples peixes havia pequenos homenzinhos nadando, eram do tamanho de suas mãos e todos estavam nus. Ela nadou, nadou e nadou atrás deles e eles, apressados, sempre iam à direção contrária. Kaori se apressou, seguiu-os tentando, de alguma forma, fazer contato. “Como eles são esguios” ela pensou, “mas preciso pegá-los para saber como consigo peixes por aqui”. Depois de algumas passadas frustrantes, Kaori conseguiu agarrar um dos pequenos; ele era frágil, de braços minúsculos e pela pálida. Se debatia euforicamente, soltando grunhidos finos e desafinados.
- Calma, calma! Eu apenas quero saber como posso encontrar peixes por aqui. Você sabe?! O pequenino grunhia cada vez mais alto em tons desafinadamente agudos. Kaori tentou acalmá-lo acariciando a sua face com seus dedos delicados, mas ele reagiu mordendo-a.
- Ah! – Kaori gritou de dor e, num movimento involuntário, de espasmo, ela lançou o pequenino para longe. Ele caiu na grama, perto de Rocco, e não se moveu mais.
- Puxa! será que eu o machuquei!?... – disse ela assustada, levando as mãos aos lábios. Rocco levantou suas orelhas e correu para ver o que Kaori havia jogado na grama.
- Não, Rocco, não é pra você! Sai de perto dele – Kaori saiu da água apressada e veio em direção a Rocco.
Rocco cutucou o pequenino com seu focinho gelado e úmido, mas ele não se movia. Lambeu, lambeu e lambeu, mas nada, o pequeno não se movia. Kaori se aproximou e tomou o pequenino em suas mãos. Seus olhos lagrimejavam e logo lágrimas e mais lágrimas escorriam à sua face rosada.
- Me desculpe, pequenino, não queria machucá-lo, mas você me mordeu – choramingou limpando a face molhada com as mãos – Por que fez isso?
Ela arrancou uma pequena folha da árvore rosa, colocou sobre uma pedra e deixou o pequenino em cima da folha. Se vestiu rapidamente e se sentou ao seu lado, velando-o.
- Logo mais ele acordará.
Rocco sentou-se ao lado de Kaori, sua língua para fora, sempre com uma expressão de alegria em seus olhos.
- Depois que ele melhorar a gente consegue comida para você, Rocco.
Kaori velou, velou e velou, seus olhos se tornaram cada vez mais pesados e, assim, ela cochilou. Rocco se levantou e cheirou o pequenino. Lambeu-o algumas vezes e, então, começou a comê-lo. Primeiro os braçinhos, depois as perninhas, a cabeça e, por fim, o tronco.
- Ah! – gritou Kaori assustada – vendo Rocco com um dos bracinhos em sua boca. Ela não pôde acreditar.
- O que você fez, Rocco?! Como pode comer uma pessoinha tão pequenininha e indefesa? Você o matou, Rocco! Você o matou!
Rocco acuou. Teve medo de que Kaori o maltratasse.
- Cachorro idiota! cachorro idiota! – gritava, enfurecida, batendo os pés em direção a Rocco. Então Rocco correu, correu e correu. Foi para o meio dos arbustos acinzentados, logo depois das arvores de folhas rosa e desapareceu.
- Isso mesmo! Vai embora, seu cachorro mau! Você é mau! Cachorro mau!
Kaori estava muito nervosa e perdera o controle. Ela se ajoelhou e bateu as mãos contra a grama gritando palavras que não existiam. Ela sempre fazia isso quando estava nervosa e irritada.
- Você vai para o canil, seu cachorro malvado!
Kaori permaneceu na grama, olhando a folha solitária, onde estava o pequenino. Ela se encolheu, abraçando seus joelhos e puxando firmemente seu pulôver ao seu tórax, como se quisesse se aquecer mais. Desorientada, ela olhou ao redor. Parecia estar cercada por um vale imenso, com montanhas altas e enormes por todos os lados, cerradas de árvores das mais diversas cores e tamanhos. O som de água era frequente e turbilhante, e não se escutava nada mais. Ela permaneceu observando e ouvindo todas as impressões do ambiente solitário. Então, ela suspirou, abaixou a cabeça e começou a chorar.
- Não devia ter gritado com o Rocco. Agora ele vai ficar assustado à noite. Pobrezinho, ainda mais, está com fome. E logo também estará com frio... Quer dizer, acho que ele só estará com frio porque ele comeu o pequenino inteirinho.
Kaori não sabia onde deveria começar a procurá-lo. Ela nem sequer sabia se devia procurá-lo. O que ele havia feito foi um ato muito cruel. E ela não sabia se poderia perdoá-lo. De todo o modo, sentia falta dele. Rocco sempre fora seu amigo e companheiro. Sempre estivera com ela. Desde quando ela se lembrava de que tudo era tudo Rocco estava lá.
- Temos que fazer o que o nosso coração manda. E meu coração quer encontrar o Rocco. Então Kaori respirou fundo e foi em direção aos arbustos. Observou atentamente, para saber se havia algum movimento naquele emaranhado de folhas e troncos disformes, mas nada, nem mesmo o vento parecia repelir a relva. Kaori olhou o céu. As nuvens todas cobriam o vale. Estava tudo cinza. Ela sentiu um arrependimento do fundo da alma. Uma dor que angustiava seu peito pequenino.
- Logo choverá. Tenho que encontrar o Rocco.
Kaori correu afastando os galhos e as folhas que pareciam querer detê-la, como grandes mãos. Mas ela era exígua e rápida, o que a possibilitava escapar sem muito sacrifício. Durante a corrida, Kaori pensava o que poderia dizer a Rocco quando o encontrasse. Talvez começasse pedindo desculpa, o abraçando forte e só depois diria que “jamais se pode fazer uma coisa tão cruel como comer uma pessoinha, seja ela do tamanho que for” por motivos que ela inventaria na hora. E já sabia qual seria o castigo, afinal sempre há um castigo. O castigo seria ficar sem entrar em casa por uma semana. Teria que dormir no quintal. Mas Kaori também pensava se aquele seria um castigo justo. Talvez não fosse muito severo, mas também não queria que o mandassem para o canil, como ela havia dito antes. Ela ouvira histórias abomináveis sobre o canil e por isso não queria pensar que essas coisas pudessem acontecer também com Rocco.
De repente um estrondo veio do céu. Kaori parou. Ela observou às nuvens e viu um fio de luz estridente e forte cortá-las. Kaori cerrou os olhos e tampou as orelhas o mais rápido que pode. Mas mesmo assim ela não pôde deixar de escutar aquele imenso estrondo que ecoou pelo vale como um urro de um monstro.
- Nossa! Parece que a terra tremeu.
Então Kaori se lembrou que Rocco tinha muito medo de relâmpagos e trovões. Seus olhos estalaram com essa lembrança e ela levou as mãos para a cabeça, preocupada.
- Preciso encontrar o Rocco! Preciso mesmo encontrar o Rocco!
Antes de correr, ela olhou ao redor prestando atenção a todo e qualquer movimento, mas nada. Nada se movia. Kaori seguiu em frente.
Ela circulou pela relva que contornava o rio dos pequeninos, olhando a cada espaço. Enquanto avançava, chamava pelo nome de Rocco.
- Rocco! Rocco! Apareça! Prometo que não vou te castigar.
Mas Rocco não aparecia.
“Onde ele estará?” pensou com a alma esmorecida.
Kaori se arrependera profundamente de ter sido rude com seu cãozinho. No fundo, a culpa havia sido dela. Foi ela quem lançou o homenzinho à margem, onde Rocco descansava seus olhos. E, bem provavelmente, ele já estava morto quando Rocco o comeu.
“Puxa, espero que ele esteja bem”.
Agora Kaori estava sozinha e o céu se tornava cada vez mais negro e escuro. As luzes de raios, das mais variadas cores, cortavam o horizonte. Kaori sentiu seu peito apertar. Suas pernas fraquejavam. Temia não conseguir encontrar seu amigo peludo. Temia não se encontrar naquele espaço negro e selvagem.
Seus olhos encheram de lágrimas. Ela estava cansada, mas sabia que precisava ser forte. Tinha de encontrar Rocco e por isso teria de continuar a andar.
Os pingos de água molhavam gradualmente seu rosto.
- Oh não! Agora está chovendo.
Para se proteger, ela cobriu sua cabeça com o pulôver. Mas logo seu pulôver se encharcara e ela sentiu o frio atravessar sua espinha, convertendo todo seu esforço em se manter seca e aquecida em cansaço e exaustão. Estava cada vez mais escuro e, por isso, Kaori temia tropeçar e cair. Os pingos dispersos logo se transformaram numa chuva torrencial. Kaori apenas desejava estar seca e aquecida. Mas para onde ir? Estava escuro demais para enxergar. Era como andar de olhos fechados, mesmo estando abertos e atentos.
- Não agüento mais. Preciso arranjar um lugar para me proteger e descansar se quiser ter forças para encontrar o Rocco.
Kaori recostou no tronco de uma árvore e caiu de joelhos.
- Não agüento mais... – sussurrou mais uma vez, antes de desmaiar. Seu corpinho esquálido e pálido se derramou sobre o barro negro e vacilante. As poças se abriam em pequenos córregos – como se quisessem carregá-la, transformá-la em corrente – e a chuva a atingia como flechas minúsculas, desorientadamente certeiras. Não se ouvia nada além do barulho da água que escoava pelos troncos, galhos, caules e folhas que ali existiam. Kaori agora descansava em seu desmaio como que incorporada perfeitamente à paisagem triste e crepuscular.
Os estrondos orquestrados da natureza se tornaram ainda maior. O cataclismo do ambiente fazia dançar as árvores, os galhos e os arbustos. Todo o redor se tornava acidentado e desastroso. Já não era possível saber qual direção tomar. A chuva, em torrentes, deturpava a visão por completo.
- O que ser isso? – disse uma voz grave e pigarreada.
Era Buffalo Jack. Ele voltava de sua tarde de caça nos vales.
Curioso, ele deitou seu saco com a captura do dia e se aproximou de Kaori. Chutou-a levemente com seus cascos barrentos para saber se isso reagiria. Nada.
- Será que isso ser gostoso como os suricatos?
Buffalo Jack a pegou pelos braços e a jogou por cima dos ombros. Agarrou seu saco com seus dedos grossos da mão esquerda e seguiu seu caminho. Ele realizava suas passadas rústicas de gigante como se pudesse enxergar cada ínfimo centímetro naquela negritude turva. Seu tronco era robusto e forte e carregava Kaori sem dificuldade alguma. Suas pernas, aparentemente desproporcionais ao corpo, finas e rijas, davam passos pesados e uníssonos.
- Como isso chegar aqui? Será que Adam está por traz disso? Aquele escroto! – Tossiu. Era uma tosse carregada e longa, como um grunhido de porco.
Buffalo Jack praguejava o nome de Adam enquanto cuspia seus excessos no rio cristalino dos Pequeninos, onde Kaori havia brigado com Rocco.
A chuva não cessaria tão cedo e parecia cada vez mais espessa. Buffalo Jack, percebendo que não teria trégua, cortou caminho pelas fendas do vale, embalado pelos uivos dissonantes que noite e dia ecoava pelos poros do solo e das paredes rochosas dali.
- Calem a boca! – sua voz estridente sonou pelo espaço, mas logo foi engolida pelos intensos uivos do vale sinistro.
Irritado, Buffalo Jack correu. O corpo de Kaori, como uma marionete, balançava pesadamente em seus ombros, mas ela continuava inconsciente. Depois de atravessar o vale, Buffalo Jack já estaria em sua casa. Ele habitava uma choupana de madeira enegrecida. Logo que se avistava sua choupana decadente, podia-se notar os degraus capengas e rangentes. Também se via a única janela da casa, que tinha formato de lua minguante. Na primavera e no verão, Buffalo Jack sempre se sentava ao pé da lua de madeira, fumando seu cachimbo, para observar os lírios fragorosos que nasciam perto dos teixos; as árvores que ali tinham, dançavam cortejando o sol resplandecente. Buffalo Jack não era de falar. Aliás, ele não sabia muitas palavras. Apesar dos cachimbos que tragava, dando-lhe ar de um homenzarrão intelectual, Buffalo Jack era de humor rústico – assim como sua casa. Seus trejeitos lhe faltavam beleza e delicadeza. Os pequenos olhos amarelos diziam muito pouco sobre ele e também sobre seus pensamentos. Raramente ria. Dificilmente saia de sua casa – apenas para caçar suricatos ou para buscar água no riacho dos pequeninos.
- Agora faltar pouco para comer suricatos – salivou enquanto empurrava a porta pobremente lenhada. Sugou profundamente o ar para os pulmões com sua narina negra, úmida e avantajada e esparramou pelo soalho as carcaças de suricatos mornamente mortos e totalmente ensopados pela chuva de torrentes.
Nos seus ombros ainda esta Kaori. Ele a segurou pelo pulôver, como um boneco desengonçado, cerrou os olhos para acurar a visão e tentou capturar alguma semelhança consigo ou com a realidade que conhecia. Coçou o alto da testa, calcou o queixo, negaceou com a cabeça... ele não sabia o que ser isso.
- Buffalo Jack levou Kaori para o cômodo de suas ferramentas, deitando-a no chão. Ela estava ensopada, escorrendo água por todas as extremidades do corpo.
- Adam saber o que ser isso! – sussurrou contemplando-a taciturnamente.
Antes de sair do cômodo fechando a porta rangente, Buffalo Jack tirou seu cachimbo do bolso, bateu-o contra a parede para remover o excesso da guimba, desenrolou o fumo de crisântemo e, assim o acendeu; aproveitando a chama, foi até a lamparina do cômodo para acendê-la também, iluminando minimamente o local onde Kaori jazia.

- Vou preparar meus suricatos.

[... continua: próxima publicação até 02.08.2015]